The Project Gutenberg EBook of A Revoluo Portugueza: O 5 de Outubro
(Lisboa 1910), by Jorge de Abreu

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Title: A Revoluo Portugueza: O 5 de Outubro (Lisboa 1910)

Author: Jorge de Abreu

Release Date: October 4, 2008 [EBook #26777]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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Bibliotheca Historica
(Popular e Illustrada)
IV




A Revoluo Portugueza

O 5 DE OUTUBRO

(Lisboa 1910)

por

JORGE D'ABREU


1912
Edio da casa Alfredo David
Encadernador
_30-32, Rua Serpa Pinto, 34-36_
LISBOA




Bibliotheca Historica
(Popular e Illustrada)
IV

A Revoluo Portugueza

O 5 DE OUTUBRO




VOLUMES PUBLICADOS

  I--HISTORIA DA REVOLUO FRANCEZA, por _F. Mignet_, 1. volume.

  II--HISTORIA DA REVOLUO FRANCEZA, 2. volume.

  III--A REVOLUO PORTUGUEZA--O 31 DE JANEIRO (PORTO 1891), por _Jorge
  d'Abreu_.

  IV--A REVOLUO PORTUGUEZA--O 5 DE OUTUBRO (LISBOA 1910), por _Jorge
  d'Abreu_.

  V--A REVOLUO E A REPUBLICA HESPANHOLA (1868 A 1874), por _Victor
  Ribeiro_.

NO PRLO

  VI--A REVOLUO NIHILISTA NA RUSSIA, por _Stepniak_.




Bibliotheca Historica
(Popular e Illustrada)
IV


A Revoluo Portugueza

O 5 DE OUTUBRO

(Lisboa 1910)

POR

JORGE D'ABREU

1912
Edio da Casa Alfredo David
Encadernador
_30-32, Rua Serpa Pinto, 34-36_
LISBOA


Composto e impresso na Imprensa Libanio da Silva = Travessa do Falla-S,
24--Lisboa




Falando aos leitores


_De todos os relatos que vieram  tona da imprensa portugueza sobre
episodios do movimento que implantou a Republica no nosso paiz,
conclue-se nitidamente esta coisa curiosa: raros foram os pontos do
programma revolucionario que se cumpriram  risca. No emtanto, o
movimento triumphou. As longas horas de espectativa dolorosa, que uns
passaram a desafiar a morte e outros a contas com a torturante
ignorancia da verdade, desfecharam na manh de 5 de outubro em delirante
estralejar da victoria--alcanada simultaneamente pelo esforo heroico
de meia duzia de patriotas e a inaco de centenares de descrentes. O
movimento triumphou apesar de tudo: da ausencia, no momento supremo, de
elementos de coordenao revolucionaria, do desanimo que bem cedo
invadiu quasi a totalidade dos dirigentes da campanha, da falta sensivel
de armamento destinado aos carbonrios e outros civis._

_Na madrugada de 4 de outubro,  hora em que um troo de populares e de
soldados arrastava pela Rotunda o enthusiasmo dos primeiros momentos de
combate bem succedido, ainda n'uma casa dos lados da S duas creaturas
devotadissimas fabricavam bombas que um emissario da Revoluo d'ahi a
pouco devia ir buscar. Mas o emissario no appareceu e um dos
fabricantes sahiu  rua a inteirar-se da situao. Cahiu logo nas
garras da policia... E como este, muitos outros incidentes occorreram na
madrugada celebre, mais proprios, sem duvida, a embaraar a ecloso do
triumpho do que a facilital-a._

_ que se do lado dos revolucionarios havia quem supportasse, com f
inquebrantavel, todos os obstaculos--e no poucos--que surgiram ante o
seu designio, do lado do inimigo a convico da perda irreparavel da
monarchia enraizara-se profundamente, abalando, com diminutas excepes,
as consciencias as mais empedernidas. Parece que, mal soaram no silencio
tragico da noite os primeiros tiros de canho, a maioria das creaturas,
s quaes incumbia a misso de luctar pelo regimen extincto, teve a viso
clara da inutilidade do seu esforo[1]._

_A influencia moral desprendida do acto revolucionario, j em
precipitado desenrolar, ajudou muito a conquista da liberdade. A
presena da artilharia no campo revoltoso, a immediata adheso do
Adamastor e do S. Rafael ao movimento, o bombardeamento do pao, a
fuga do rei e a derrota das baterias de Queluz contribuiram
innegavelmente, e em larga escala, para assegurar a victoria da
Republica; mas, a par d'esses factores, no  licito esquecer a molleza,
a inercia dos que constituiam o inimigo, uma e outra derivadas d'um
scepticismo que a monarchia, sem dar por isso, inspirava desde muito aos
proprios que a serviam._


_ cedo, porm, para entrarmos na enumerao e apreciao d'esses
factores. O nosso proposito, narrando o que vae lr-se,  fixar, com o
melhor methodo possivel, os pormenores da sacudidela feliz que destruiu
a monarchia portugueza, as tapes do verdadeiro sonho durante o qual
se desmoronou a dynastia dos Braganas.  um pouco a historia da
organisao revolucionaria seguida logicamente do relatorio da batalha
de 4 e 5 de outubro. Aqui e ali resaltaro diversas notas confiadas por
authenticos conspiradores ao signatario d'estas linhas e que, se no
modificam a impresso geral do quadro da revolta que os leitores
conhecem, emprestam-lhe, comtudo, nuances absolutamente ineditas que 
justo e necessario pr em lettra redonda._

_A historia da organisao revolucionaria--sabemol-o
perfeitamente--escreveram-na tres homens durante o periodo febril da sua
preparao. Um d'elles, Miguel Bombarda, destruiu, pouco antes de
morrer, o capitulo mais interessante, o que delineava, em traos
symbolicos, todo o plano de ataque s instituies monarchicas. Liam-se
n'esse capitulo a fora imponente dos elementos revolucionarios e a sua
distribuio pelos pontos vulneraveis; era o balano, lucidissimo para
os iniciados e inintelligivel para os profanos, do grande exercito
democratico que se aprestara a investir contra a realeza. Miguel
Bombarda destruiu-o receioso de que viesse a cahir, apoz a sua morte, em
poder do inimigo._

_O outro capitulo escreveu-o Joo Chagas ao sabor da opportunidade, em
minusculos pedaos de papel, nas margens livres de cartas e telegramas e
at em bilhetes de visita. Era o resumo fidelissimo das assembleias
revolucionarias que antecederam o movimento, as actas das reunies
secretas de militares, o registo palpitante das adheses que dia a dia
faziam engrossar a legio republicana. Esse capitulo no foi destruido.
Atravessou o periodo mais acceso da lucta escondido n'um chapu
feminino--o chapeu da esposa do illustre pamphletario--e s reviu a luz
do dia quando o governo provisorio j tinha iniciado a sua obra de
reorganisao politica._

_Ainda outro capitulo--o da implantao da Republica, lista dos actos,
das determinaes que deviam succeder immediatamente  consagrao
solemne do triumpho. Esse esteve, por instantes, condemnado a
desapparecer nas profundezas d'um sypho, transitou depois de algibeira
para algibeira e por fim encontrou refugio seguro na redaco d'um
jornal, a Lucta... a dois passos da policia._

_Qualquer d'esses capitulos, publicado isoladamente despertaria um real
interesse e daria margem no s a variadissimos commentarios como a uma
legitima exclamao de no menos legitimo espanto. Mas a nossa pretenso
 mais modesta. Na leitura do que vae seguir-se, encontrar-se-ho
simplesmente os elementos aproveitaveis  formao d'um quarto capitulo,
meramente subsidiario, no traado por espirito de revolucionario--que o
no fomos--mas annotado por quem, durante o periodo de incerteza,
limitou a sua aco pessoal a tomar apontamentos, a ouvir informaes, a
apreciar incidentes, a defrontar muita deciso, muita coragem, e,
sobretudo muito medo, muito pavor. De mistura com isto, repetimos,
apparecero os depoimentos dos revolucionarios authenticos, dos que
jogaram a vida n'uma cartada de exito._

                                                                 J. DE A.

    [1] _Em 1891, por occasio da revolta do Porto, no succedeu assim.
    Para o pao de Belem havia desde manh cedo enorme affluencia de
    personagens officiaes--dissemol-o no 31 de Janeiro.--Todos 
    porfia accorriam  regia morada. Quasi vinte annos depois, no
    instante do perigo, fugiam d'ella..._




CAPITULO I

Da perspicacia dos espies ao servio do antigo regimen


A policia, que o defunto juizo de instruco criminal empregava
especialmente na espionagem dos chamados agitadores da opinio, recebeu
um bello dia do final do reinado de D. Carlos o encargo de averiguar o
que projectava de sensacional o partido republicano, que uma denuncia
affirmava mover-se activamente n'uma conspirao surda, mas tremenda. Os
_bufos_ puzeram-se immediatamente em campo e, dentro de curto prazo,
davam ao chefe conta pormenorisada da sua misso. O relatorio d'essa
espionagem, que pretendia, se no estamos em erro, elucidar
policialmente o trama revolucionario do 28 de janeiro,  a documentao
mais perfeita sobre a incapacidade dos que essa mesma espionagem
exerceram. Um dos _bufos_ diz pouco mais ou menos isto:


    Na noite de... s... horas, vi entrar na casa n.... da rua de... um
    individuo magro, trigueiro, nariz comprido e de oculos, que se me
    constou ser empregado d'um judeu l para os lados de... Sahiu da
    mesma casa s... horas e tambem se me constou que assistiu com mais
    vinte e tantos individuos a uma reunio secreta.


Evidentemente, no relatorio do espio, faltam os dados essenciaes.  uma
cousa vaga, que nenhum chefe de policia podia acceitar de boa f para
d'ella concluir que o revolucionario assim visado era um dos mais
solicitos republicanos de Alcantara. Mas servia ao momento para
justificar a verba ministerial applicada a esta e outras diligencias e
tudo conjugado, tudo espremido em volta d'outra informao policial que
descrevia um passeio de propaganda nocturna dado pelo sr. dr. Antonio
Jos de Almeida s proximidades d'um cemiterio--onde conferenciara com
soldados e marinheiros--deu em resultado o supremo dirigente da
espionagem enveredar pelo caminho da phantasia, j que a verdade lhe no
era nitidamente facultada pelos vos esforos dos seus subordinados.

Houve um momento em que a Parreirinha--ou a Bastilha, como
quizerem--suou em bica para achar o fio do _complot_. Pensou-se mesmo em
peitar uma creatura que se adivinhava intimamente ligada ao movimento
revolucionario e obter d'ella, com a promessa deslumbrante de farta
recompensa, as informaes que os _bufos_ no conseguiam arranjar.
Apertou-se a rede da espionagem, principalmente sobre o rasto e os
menores gestos dos drs. Antonio Jos de Almeida e Affonso Costa e Joo
Chagas. Certa noite, o ex-ministro do interior, dirigindo-se para um
ponto da estrada da circumvalao onde projectava encontrar-se com
elementos republicanos, foi seguido por um _bufo_ que tinha jurado aos
seus deuses obter, custasse o que custasse, a revelao completa d'essa
conferencia secreta. Trabalho inutil. A meio da viagem, o _bufo_ perdeu
a pista do illustre caudilho da democracia e s logrou reavistal-o
quando elle j regressava, tranquilo e risonho, ao seu consultorio
medico. Pouco bastou para a Bastilha mandar enforcar o espio inhabil...


Em meio do seu desespero e da sua ignorancia, a policia teve um
sobresalto pavoroso. Outra denuncia, d'esta vez bem recheiada de
pormenores, assignalava ao juizo de instruco criminal a organisao
d'um _complot_, cujo objectivo era no s a eliminao do dictador Joo
Franco, que se propunha  viva fora consolidar e engrandecer o poder
real, mas o de derruir, n'um golpe de audacia, as instituies
monarchicas. Dizia-se que n'esta altura da conspirao os republicanos
no contavam simplesmente com o apoio e a collaborao dos dissidentes,
que, tendo comeado por lanar a semente da revolta politica no cavaco
animado d'uma pastelaria da Avenida, j tratavam a serio d'uma mudana
de regimen. Dizia-se tambem que os chefes em evidencia, os organisadores
do movimento revolucionario--Antonio Jos de Almeida, Affonso Costa e
Joo Chagas--tinham procurado o auxilio d'uma parte dos libertarios,
homens de aco energica, dispondo de meios de combate essenciaes 
disperso, no momento propicio, das foras defensoras da monarchia e que
essa fraco do partido anarchista portuguez promettera aos republicanos
uma parcella consideravel do seu esforo.

[Ilustrao: D. Carlos I]

A bomba, o engenho destruidor, que  o pezadelo do que se convencionou
denominar uma sociedade regularmente constituida, passou ento a ser a
sombra espectral das regies policiaes. Descobrir a fabrica do
explosivo, desvendar o recanto solitario onde, dia a dia, homens sem
medo, sem hesitaes, debruados carinhosamente sobre pedaos de metal,
apparentemente insignificantes, jogavam a vida com um desprezo titanico,
era o sonho dourado do Cyro--o Cyro, que se gabava de conhecer todos os
anarchistas militantes--e d'uma longa theoria de famintos, que
espionavam para terem que comer.

Dois _accidentes de trabalho_, occorridos com pequeno intervallo um do
outro, ergueram aos olhos coruscantes da policia uma pontinha do veu. O
primeiro deu-se n'uma casa da rua de Santo Antonio  Estrella. Um
operario do Arsenal de Marinha e o professor de ensino livre Bettencourt
foram as victimas da exploso d'uma bomba--exploso provocada pela
imprudencia do operario ao tentar soldar o apparelho ao fogo d'uma
lampada. O segundo accidente alarmou a cidade na tarde d'um domingo
sombrio. As campainhas dos telephones vibraram apressadamente
communicando s redaces dos jornaes a noticia do facto. Emquanto, a
poucos passos, na Avenida, uma banda regimental deliciava centenares de
pessoas descuidosas e a garridice feminina animava o quadro d'uns tons
voluptuosos, alguns revolucionarios, encafuados n'um modesto quarto de
estudante, na rua do Carrio, preparavam tranquillamente o exterminio da
guarda pretoriana. De repente, um estrondo formidavel sobresaltou a
visinhana. Viu-se sahir da janella d'esse compartimento acanhado e
inexpressivo uma lingua de fogo e d'ahi a momentos uns transeuntes mais
corajosos, um bombeiro voluntario e um policia defrontavam o espectaculo
commovedor de dois cadaveres mutilados em meio d'um armazem de bombas.

O Cyro, prevenido do facto, no tardou a apparecer no local,
esbofando-se por apprehender o alcance de tamanha revelao. Os nomes
dos dois mortos no figuravam na sua lista de anarchistas; o do preso
(Aquilino Ribeiro) que a judiciaria j fizera conduzir  esquadra
proxima e que evitara, n'um gesto de _gavroche_, o ser apanhado pela
machina photographica d'um _reporter_, tambem lhe no soava
familiarmente ao ouvido. O caso era de embatucar... Os outros chefes ao
servio do juizo de instruco perdiam-se egualmente em conjecturas.
Adivinhavam no desastre qualquer coisa de muito tragico e de muito
ameaador para a segurana do regimen vigente, mas no ligavam a
occorrencia a outros incidentes de menor importancia, que, todos
arrumados methodicamente, poderiam talvez fornecer uma indicao preciosa.

Ao cahir da noite, quando a noticia do facto se divulgou pela Baixa e
pelos centros de palestra, o espanto e o terror invadiram e fizeram
emmudecer muita gente. A policia ainda tentou, com um _truc_ velho,
projectar alguma luz no inesperado acontecimento. Sem perda de tempo,
levou  Morgue o estudante preso no local da exploso e, collocando-o em
face dos corpos esphacelados dos seus dois camaradas, forcejou por
arrancar-lhe uma confisso plena. O sobrevivente do desastre
sensibilisou-se,  certo,  vista dos cadaveres, mas as lagrimas que no
momento derramou no lhe despegaram dos labios a denuncia apetecida. O
_truc_ no surtiu effeito.

Restava applicar  imprensa a mordaa do estylo. O dictador Joo Franco
fel-o sem rebuo, auxiliado por alguns jornaes que, longe de reagirem
contra esse costume intoleravel de consentir que o chefe do governo
ditasse pelo telephone as poucas phrases em que a noticia de qualquer
facto podia ser transmittida ao publico, se apressaram a recordar-lhe a
existencia d'uma lei, que era feroz armadilha para insubmissos. Quer
dizer: esses jornaes mettiam complacentemente, e at com certo jubilo, o
pescoo na canga da oppresso. Ainda no esquecemos o dialogo
telephonico travado na noite d'esse domingo melancholico entre o
presidente do conselho e a redaco d'um diario de Lisboa:

--V. ex. consente pormenores da exploso? perguntava o jornal.

--No tenho nada com isso, respondia o primeiro ministro de D. Carlos...
os senhores bem sabem o que lhes compete fazer.

--Mas a lei de 13 de fevereiro?...

--Ah! sim, est em vigor...

--E... v. ex. applica-a?

--Naturalmente.

--Mas o publico precisa ser informado...

--Bem sei... mas eu nada tenho com isso... mandem ao governo civil. Vou
recommendar para ali que forneam a todos os jornaes uma nota resumida
do caso.

E assim succedeu. Uma hora depois, os _reporters_ que tinham ido ao
bebedouro commum da informao officiosa regressavam com cinco
linhas--cinco linhas apenas, no exageramos--em que se registava, n'uma
linguagem quasi sybillina, a descoberta, por meio do desastre, do
fabrico de explosivos _para fins manifestamente criminosos_. Uns jornaes
publicaram essa nota na integra, sem resalvarem a proveniencia; outros,
mais escrupulosos, precederam-na d'outras linhas que a reduziam ao seu
justo valor; um unico teve a coragem de transgredir as ordens do
dictador, noticiando ao mesmo passo o nome d'uma das victimas da
exploso!...

O relato pormenorisado do acontecimento com as competentes gravuras
(photographias dos cadaveres na Morgue, _croquis_ do interior do quarto
de estudante e a reconstituio graphica da scena commovente) foi no dia
immediato exportado para o Brazil e inserto n'uma folha do Rio, afim de
que se no perdesse totalmente o trabalho do noticiarista, a presteza do
photographo e a habilidade do desenhador.




CAPITULO II

Um accidente de trabalho e uma evaso romanesca


O proprio Aquilino Ribeiro--que, diga-se de passagem,  um
intellectual--descreveu mais tarde ao signatario d'estas narrativas como
occorrera o desastre da rua do Carrio.

--Aquillo foi assim--contou elle. Eu nunca tinha feito bombas, apesar
das minhas convices j me terem enfileirado n'um grupo libertario.
Sabia que n'essa occasio, e merc da preparao do movimento
revolucionario do 28 de janeiro, esse fabrico se alargara a diversos
pontos de Lisboa e mesmo fra de Lisboa e dava-me intimamente com
diversos militantes e propagandistas da aco directa. Tinha at
cooperado na organisao do ataque aos quarteis e s foras da
municipal, indo com Alfredo Costa e outros alugar quartos em varios
pontos estrategicos, d'onde projectavamos dynamitar essa legio fiel ao
regimen monarchico. Um bello dia o dr. Gonalves Lopes pediu-me para
levar ao meu quarto dois caixotes com bombas. Hesitei, observando-lhe
que a dona da casa podia attentar no facto, mas elle desvaneceu-me todos
os receios, explicando-me que necessitava absolutamente transformar o
meu aposento n'um deposito eventual de explosivos.

[Ilustrao: Joo Franco]

Combinou-se o transporte dos caixotes do consultorio do dr. Gonalves
Lopes, na rua do Ouro, para ali, mas, ou porque elle no me
pormenorisasse bem como a coisa devia ser feita, ou por outro motivo de
que me no recordo, o moo incumbido de os levar  rua do Carrio teve
de arripiar caminho e voltou com os caixotes para o consultorio. Grande
pasmo do dr. Gonalves Lopes e, no dia seguinte, aps uma breve
explicao que eu e elle tivemos no Suisso, os caixotes (cada um pesando
approximadamente sessenta kilos) tornaram a emprehender a viagem para o
meu quarto. Desde ento, passei tambem a collaborar regularmente no
fabrico de explosivos.

Vendo o dr. Gonalves Lopes e o commerciante Belmonte, seu companheiro
na manipulao dos engenhos, carregarem umas tantas bombas, aprendi
facilmente a operao e no domingo do desastre em que nos reuniramos
para a continuar j me comportava ao lado de ambos como um _fabricante_
experimentado. Tinhamos carregado umas sessenta ou oitenta e faltava
ultimar muitas mais. O dr. Gonalves Lopes parou a descanar e disse-me:

--Voc agora podia incumbir-se do resto...

Eu no respondi de prompto e, ficando assente que  noite
recomeariamos a operao, dispuzemo-nos, no emtanto, a carregar mais
tres para dar por finda a tarefa da tarde. Cada um de ns pegou n'uma
bomba vasia. Na minha frente estava o dr. Gonalves Lopes e mais adeante
o seu companheiro. O dr. Gonalves Lopes, descuidando-se um pouco nas
precaues que era de uso tomar em taes circumstancias, principiou a
martellar com fora no engenho que tinha na mo. Ainda lhe recommendei
prudencia; mas elle sorriu-se, incredulo, do meu receio, e continuou o
trabalho. De repente, um grande estrondo atordoou-me sensivelmente. A
bomba do dr. Gonalves Lopes explodira. Vi-o cahir esphacelado,
salpicando-me de sangue e vi o commerciante Belmonte avanar para mim,
soltando um grito como o d'um animal ferido de morte. Acolhi-o nos
braos, mas tive que o largar logo a seguir porque j agonisava.

Foi um instante de dolorosissima atrapalhao. Dirigi-me a outro quarto
a lavar-me, porque estava negro como um carvoeiro e quando voltei ao meu
aposento pensei em fugir. Mas, como? O meu chapeu parecia um crivo, o
vestuario no inspirava confiana, as mos e a cara denunciavam-me,
trahiam-me... Passeei uns segundos pelo quarto sem saber o que fazer e
quando percebi que gente estranha subia a escada, a inquirir do
estrondo, fui estupidamente esconder-me debaixo da cama. Os primeiros
minutos passei-os quieto e calado n'esse refugio d'occasio. Mas, logo
que ouvi a curta distancia os commentarios da policia e as interrogaes
dos _reporters_, longe de procurar misturar-me com o meu amigo e os
nossos collegas--Aquilino Ribeiro era n'esse tempo collaborador da
_Vanguarda_--comecei a agitar-me e despertei a atteno do chefe
Ferreira. Estava apanhado.

[Ilustrao: Attentado de 1 de Fevereiro.--Assassinato do Rei. D. Carlos
e Principe D. Luiz Filippe]

--Levaram-me para o governo civil e depois  Morgue. Assediaram-me de
interrogatorios. Pouco antes, com a exploso da rua de Santo Antonio, 
Estrella, tinham sido presas, por suspeitas, umas cem pessoas. Com a da
rua do Carrio, apesar da extenso enorme do fabrico das bombas em
Lisboa, restringi tanto o cerco da curiosidade policial, que o chefe
Ferreira apenas conseguiu incommodar um pobre homem em casa de quem foi
encontrado um carto de visita com o meu nome. Depois; estive dois mezes
incommunicavel, durante os quaes s me queixei d'uma coisa: da m
qualidade da comida fornecida aos presos.

Durante o periodo da incommunicabilidade procurei, naturalmente,
libertar-me da priso. Fiz para isso, com a maior paciencia, variados
preparativos. Aproveitei o azeite que condimentava as minhas raes de
bacalhau para amaciar os gonzos e os ferrolhos do carcere. Com o miolo
de po fiz prodigios de habilidade e de disfarce. Em summa, quando me
levantaram a incommunicabilidade j tinha quasi tudo organisado para a
evaso.

Uns amigos prometteram-me auxilio. Era necessario arranjar um automovel
para me receber  sahida da esquadra do Caminho Novo e transportar-me a
logar seguro. Creio, porm, que os donos de dois d'esses vehiculos, aos
quaes os meus amigos se dirigiram, _os no puderam dispensar_ e uma
bella noite, quando consegui fugir do carcere, encontrei-me na rua, s,
exposto a uma chuva torrencial que me transformava n'um pintainho. Uma
vez transposto o muro do Posto de Desinfeco, contiguo  esquadra e
tendo-me deixado escorregar por uma guarita onde uns operarios guardavam
a ferramenta, atrevi-me a passar deante da sentinella da esquadra, como
se fra um simples transeunte que recolhia a casa a deshoras.

Fui  Estephania  procura d'um conhecido. Bati. Ninguem me respondeu.
Ou melhor, ninguem me abriu a porta. No trajecto, at l, sempre debaixo
de agua, encontrei uma carruagem particular, vazia, mas o cocheiro,
quando lhe fallei em transportar-me, olhou-me de soslaio e respondeu com
uma evasiva. Que admira! A barba hirsuta dava-me certamente um aspecto
horrivel. Tinha sobre o casaco uma blusa com bolsos collados a miolo de
po... As botas e as calas destilavam immensa lama... Da Estephania
dirigi-me  Praa da Figueira. Deram as oito da manh e calculei que a
essa hora a policia, sabendo da minha fuga, j andasse pressurosa no
encalo do evadido. Na Praa comprei um molho de hortalia e tratei de
occultar o rosto o mais possivel. Fui a casa do Alfredo Costa,  rua dos
Retrozeiros. Dormia ainda. Fui a outra casa. A pessoa que a habitava
aconselhou-me o esconderijo n'outro ponto. No acceitei o conselho e
encafuei-me na taberna do Joo do Gro, na travessa da Palha.

Ahi reparei as foras perdidas com essa noitada de anciedade, de
canao e de chuva, comendo _meia desfeita_ e tomando um litro de vinho.
Momentos depois, apparecia-me ento o Alfredo Costa e eu entrava para
uma casa da maior confiana, conservando-me em Lisboa, escondido da
policia, durante dois mezes...


Preso um dos _fabricantes_ de bombas, a policia volveu os olhos para
todos os amigos de Aquilino Ribeiro, calculando ser-lhe relativamente
facil capturar, acto continuo, o que ella appelidava os _cumplices das
vitimas_. Um dos alvejados pela perseguio da Bastilha, o dr. Alberto
Costa, tendo-se injustamente convencido de que o preso _falra_, abalou
para Hespanha. Deu-se a fuga de outros revolucionarios, as diligencias
policiaes arrastaram-se mollemente e com evidente desorientao e,
apezar de que o desasocego dos conspiradores era de molde a infundir
suspeitas aos menos precavidos, ainda d'esta vez a espionagem do juizo
de instruco no logrou desenrolar o fio da meada. E que admira, se no
periodo de descuidosa imprevidencia em que o dr. Alberto Costa passeiava
nas ruas de Lisboa com uma maleta cheia de bombas e se divertia a bailar,
sobre uma cama que occultava uma caixa d'esses engenhos, os Argus da
Parreirinha nem por palpite o encaravam com desconfiana!...

O fabrico de explosivos no occupava simplesmente meia duzia de pessoas.
Absorvia os cuidados de diversos grupos. Generalisara-se por uma frma
assombrosa e, dentro e fra de Lisboa, trabalhava-se afincadamenteem
centenas de apparelhos destruidores. Cada dia que passava sobre as
arranhadelas da dictadura via surgir para a lucta novos combatentes e
novas dedicaes. Ento, no era s o partido republicano que protestava
contra o existente; os seus clamores de revolta echoavam na consciencia
de muitos monarchicos; a legio dos que, na primeira hora de enganadora
miragem, tinham acolhdo o governo Joo Franco como o advento de um
Messias, esboroava-se a olhos vistos. A atmosphera em volta do throno
carregava-se progressivamente de indignao, de odio, de
intranquillidade e, a no ser D. Carlos, que nunca se sensibilisra com
a agitao da massa popular, e o ministerio franquista, que suppunha
governar a contento do paiz, todos os outros elementos argamassados
pelos favores do regimen sentiam, palpavam, futuravam, com maior ou
menor largueza de vistas, a derrocada imminente.

A preparao do 28 de Janeiro proseguia com alma, com actividade febril.
A compra de armamento e a sua introduo em Lisboa, atravez das
barreiras fiscaes, haviam tomado tal incremento que os proprios
organisadores do movimento se admiravam da cegueira da policia. As
reunies secretas succediam-se vertiginosamente. Havia como que a ancia
de chegar ao fim da jornada revolucionaria, fazendo d'um s folego a
corrida heroica para o triumpho ou para a derrota.




CAPITULO III

Os republicanos e os dissidentes organisam o 28 de Janeiro


Quem, a dentro do partido democratico, teve a iniciativa da projectada
revolta? No  facil responder, porque ella estava desde muito no animo
dos mais fogosos caudilhos d'esse partido. Entretanto, podemos
conjecturar que, sabendo Joo Chagas dos trabalhos revolucionarios que
alguns dos seus companheiros de lucta j tinham annos antes encetado,
procurasse aproveital-os, realisando ao mesmo tempo a approximao dos
republicanos e dos dissidentes, que a dictadura franquista hostilmente
arredara do contacto do rei Carlos. Os primeiros passos para o movimento
foram dados em casa do visconde da Ribeira Brava, de todos os amigos do
sr. Alpoim o que ento se mostrava mais inclinado a abandonar a
monarchia. Conta elle o seguinte:


Quando se tinham malogrado todos os esforos dos partidos para subjugar
o despotismo do rei e de Joo Franco fui procurado pelo infeliz Alberto
Costa, que me propoz tomar eu a iniciativa da revolta. Hesitei,
objectando que para isso me faltavam os elementos populares, que estavam
todos no partido republicano, e que ssinho nada poderia fazer.

[Ilustrao: Manuel Buia]

--E se voc se entendesse com o Joo Chagas?--retorquiu Alberto Costa.

--N'esse caso estou certo de que fariamos alguma coisa de importante.

Ficou logo aprazado um encontro com Joo Chagas, que se efetuou n'esse
mesmo dia, a dez de julho (1907) se no me engano,  meia noite, junto
do coreto da Avenida. Ahi assentmos nas linhas geraes do movimento
revolucionario, resolvendo-se nomear um _comit_ organisador. A primeira
reunio effectuou-se no dia seguinte, em minha casa, comparecendo a ella
Affonso Costa, Alexandre Braga, Egas Moniz, Frana Borges, Mascarenhas
Inglez, Marinha de Campos e Alpoim, tendo-se depois d'isso realisado
ainda uma entrevista entre Jos d'Alpoim e Antonio Jos d'Almeida.


Na mesma reunio e em posteriores conferencias escolheram-se, para a
execuo do plano revolucionario, dois _comits_: o civil composto pelos
srs. Bernardino Machado e Antonio Jos de Almeida, membros do
Directorio, e mais Joo Chagas, Affonso Costa e Augusto Jos da Cunha; o
militar formado por Candido dos Reis, Jos de Freitas Ribeiro, Jos
Carlos da Maia, Xavier Barreto, S Cardoso e Alvaro Pope. O primeiro
cuidado d'estes _comits_ foi o de aggregar os elementos que andavam
dispersos mas que se conservavam fieis  causa da democracia os que
restavam da mallograda revolta de 31 de Janeiro e se tinham preparado
para o movimento de 1896, que mal chegara a esboar-se.

Houve divergencia entre os mais evidentes dos revolucionarios por causa
do plano a executar. Uma minoria, radicalissima na maneira de proceder,
no contrariava o projecto, delineado ao de leve, de se atacar o pao
das Necessidades e forar o rei Carlos a um embarque consecutivo para o
estrangeiro. Os restantes queriam simplesmente limitar a revolta 
eliminao da monarchia com o menor dispendio de violencia. Por fim,
triumphou a parte moderada dos organisadores do movimento e
deliberou-se, em ultima analyse, fazer explodir a Revoluo durante a
ausencia do monarcha em Cascaes, mesmo para que a sua estada em Lisboa
no influisse de qualquer modo na attitude que muitos dos officiaes, de
politica indefinida, por certo, adoptariam. Por outro lado, alguns dos
revolucionarios receiavam que um acto violento dirigido contra D. Carlos
creasse, no extrangeiro, difficuldades  futura Republica. Assentou-se,
portanto, em definitivo, que o movimento rebentaria quando o rei
estivesse fra da capital. A Revoluo, uma vez triumphante, prenderia
em Cascaes o soberano e a familia, e obrigal-os-hia a sahirem do paiz.

Mas, os trabalhos dos conspiradores alongaram-se mais do que seria
licito calcular, e, como a familia real regressasse, no entanto, a
Lisboa, houve preciso de concertar outro plano, que comprehendia,
novamente o assalto ao palacio das Necessidades. N'esta altura do
_complot_, um dos officiaes que os revolucionarios suppunham
inteiramente do seu lado commetteu uma traio e o plano soffreu grandes
modificaes, recomeando-se, n'outras bases, os trabalhos
indispensaveis  sua realisao pratica. Appareceram ainda difficuldades
de diversa natureza, contrariando fortemente a propaganda nos quarteis e
o aliciamento de elementos civis, e a situao s melhorou quando a
familia real partiu para Villa Viosa, simplificando bastante o
programma pela suppresso d'um dos seus numeros mais difficeis e
delicados...


O plano da campanha, urdido por um official do estado-maior, passou
ento a ser cuidadosamente preparado. A cidade foi dividida em diversos
sectores, comprehendendo cada um d'elles os pontos a atacar, isto , os
pontos d'onde se calculava que surgiria, no momento supremo, a defesa do
regimen combalido. Cada quartel da municipal e de cavallaria era cercado
de uma verdadeira rede de dynamitistas que, conjugando a sua aco com
outros grupos de populares armados, procurariam impedir a sahida, para a
lucta, das foras declaradamente monarchicas. As esquadras de policia
tambem deviam soffrer o ataque dos populares; os officiaes de marinha e
outros elementos revolucionarios tomariam conta do _D. Carlos_ e do
quartel de Alcantara; a carreira de tiro em Pedrouos e todos os pontos
onde era relativamente facil encontrar armamento seriam egualmente
visados pela aco dos revoltosos.

Para o assalto aos quarteis das foras que constituiam propriamente a
guarnio de Lisboa, Joo Chagas organisra vrios grupos de 30 a 60
homens de todas as classes--medicos, agronomos, engenheiros, advogados,
empregados do commercio, etc.--grupos que se distinguiam uns dos outros
por um emblema representando uma flor:--uma rodela de carto aguarelado
que o revolucionario pendurava no forro do casaco e que s seria visivel
quando elle o abrisse perante um companheiro ou um chefe. Temos deante
de ns varias d'essas rodelas e uma nota escripta a lapis pelo punho de
Joo Chagas, que descrimina assim a formao das foras:


_Malmequer_, 60 homens.

_Rosa_, 30.

_Violeta_, 40.

_Cravo_, 60.

_Saudade_, 20.

_Crysanthemo_, 40.

_Papoula_, 30.


Total, 280 assaltantes para os quarteis das foras da guarnio. Cada
grupo tinha previamente conhecimento do regimento onde, no momento
opportuno, devia operar: isto com o fim de conhecer, tambem
antecipadamente, o quartel onde prestaria a sua coadjuvao. Os melhores
d'esses grupos eram os dirigidos pelo dr. Carlos Amaro, S Pereira, Saul
Simes Serio e Paulino de Freitas. Estavam armados de revolvers e
pistolas automaticas com cincoenta cargas cada.

Note-se incidentalmente que, n'essa poca de preparao revolucionaria,
a propaganda entre militares conquistara talvez mais adeptos do que
annos depois, para o movimento que implantou a Republica. O numero de
officiaes adherentes era, sem duvida, maior. A dictadura franquista
despertra mais odios e sde de liberdade do que a inaco, quasi
absoluta, do gabinete Teixeira de Sousa. A teia revolucionaria era,
innegavelmente, mais complicada. Comtudo, apesar das precaues tomadas
e da adheso de elementos prestigiosos, a opinio auctorisada no
agourava bem do emprehendimento, exactamente por lhe parecer que havia
demasiada somma de creaturas na posse do grande segredo.  certo que na
constituio dos grupos de populares houvera o cuidado de erguer como
que uns compartimentos estanques, para impedir que, uma vez um d'elles
invadido pela onda da traio, os restantes se afundassem no mesmo
pelago. Mas no o  menos que a distribuio de armamento de toda a
especie fra feita com excessiva antecipao--o que j no succedeu para
o movimento de 5 de outubro--e o corpo dirigente da organisao
revolucionaria admittia, pelas suas variadissimas ligaes, uma maior
interferencia de indicaes e de alvitres, nem sempre proprios a
favorecer o triumpho.

[Ilustrao: Alfredo Costa]


A aco dos dissidentes na preparao do 28 de janeiro no ha duvida que
foi larga e abundante em peripecias. Os dissidentes e aquelles dos seus
amigos que entraram na revolta deram-lhe um apoio material efficaz. O
sr. Alpoim, quer em sua casa, ou na famosa pastelaria da
Avenida--conhecida como um baluarte dos monarchicos revoltados--ou ainda
na casa do visconde da Ribeira Brava, prodigalisava-se em insistente
propaganda contra o regimen, a dictadura Franco e at contra a
existencia do monarcha dos adeantamentos. Para o sr. Alpoim, como de
resto para toda a gente que ousava falar com franqueza, a franqueza
permittida pelo dictador, a suppresso de D. Carlos seria o golpe
decisivo n'uma situao como, ento, se supportava, de intoleravel
arbitrio, de rancor, perseguio e delao ignobil. No quer isto dizer
que o chefe da dissidencia progresssta aconselhasse a morte do rei como
um dos principaes numeros do programma dos revoltosos... Mas,
encarando-a como a soluo do problema a liquidar, traduzia as
aspiraes de muitos patriotas.

O sr. Alpoim, tendo palpitado o monarcha, convencera-se de que elle
ligara indissoluvelmente o seu destino ao destino politico do dictador.
O governo Joo Franco deslumbrara o espirito do rei Carlos,
mostrando-se-lhe como o unico capaz de confeccionar, para o livro do seu
reinado, uma pagina de certo relevo historico. O dictador era o ideal
para um soberano que, vivendo at ento pouco menos que alheiado da
politica interna, resolvera d'um momento para o outro, assim como quem
acorda d'um sonho, interessar-se assiduamente pela mesma politica.
Eliminado o dictador, D. Carlos, se quizesse proseguir no seu proposito
de modificar o regimen da successo ministerial, teria fatalmente que
chamar ao poder o estadista ou estadistas que combatiam fortemente o
rotativismo.

No  desasisado suppr que s com esta esperana  que o sr. Alpoim no
adheriu desde logo  Republica. Veiu para a Revoluo para trabalhar e
trabalhou. Mas, no fundo do seu pensar, talvez se convencesse de que o
movimento daria apenas em resultado o apeiar o governo Joo Franco do
pedestal que o monarcha lhe erguera nas columnas do _Temps_. De resto, o
sr. Alpoim confessou isso mesmo mais tarde n'estas linhas que recortamos
do seu antigo rgo na imprensa:


O chefe dissidente, e outros seus correligionarios--no a dissidencia
progressista como partido--resolveram ento collaborar com os
republicanos no intuito de aniquilar o regimen dictatorial que
assoberbava o paiz. Vinha a Republica? Tudo era preferivel, tudo, _fosse
o que fosse_,  continuao d'este estado de coisas que era um opprobrio
nacional.


Decidido a trabalhar, tomou contacto com os chefes republicanos e
avistou-se com os elementos sem rotulo partidario que apoiavam o
movimento. Contribuiu immenso, e mais os seus amigos, para a compra de
armamento--e d'ahi o espalhar-se um boato insubsistente a que em breve
nos referiremos. A sua interferencia na collecta de fundos para o cofre
revolucionario exerceu-se com devotamento digno de registo. Os seus
amigos auxiliaram bastante a introduco do armamento em Lisboa e a
larga distribuio que d'elle se fez por diversos pontos estrategicos. E
se no dia primitivamente marcado para a exploso da revolta no a
iniciou com um arranco heroico sobre o ninho da realeza,  porque lhe
ponderaram a conveniencia de collaborar antes n'outro episodio no menos
importante. Por si, satisfazendo apenas o seu desejo ardente, o sr.
Alpoim teria defrontado, com as armas na mo, o monarcha provocador.

Dias antes do 28 de janeiro, Affonso Costa e Joo Chagas tentaram
filial-o no partido republicano. N'uma reunio em casa do visconde da
Ribeira Brava, a que tambem assistiu o dissidente Egas Moniz,
fizeram-lhe vr que a hostilidade do pao contra o grupo politico da sua
chefia era invencivel e que, marchando elle para a Revoluo, de mos
dadas com os republicanos, foroso se lhe tornava ingressar abertamente
na democracia. O sr. Alpoim, s repetidas e persuasivas instancias que
lhe dirigiram n'esse sentido, respondeu:


Que, sendo chefe d'um grupo politico, que to dedicada e lealmente o
havia acompanhado sempre e onde havia um grande numero de individuos com
idas adversas  Republica, no podia, sem praticar uma deslealdade,
abandonar esses amigos; que  causa da Revoluo dava a sua pessoa; o
seu filho e o seu dinheiro. Estava prompto no momento da lucta a occupar
o ponto mais perigoso que lhe fosse distribuido; que nada queria, nem
pedia, como recompensa,  Republica, mas que no alterava a sua situao
politica.


A seguir, perguntou ao visconde da Ribeira Brava o que tencionava fazer.

--Eu, meu caro Alpoim--retorquiu-lhe o visconde--j no volto para traz.


O inicio dos preparativos para o 28 de janeiro data de julho de 1907. Um
mez depois, Machado dos Santos, que collaborava com os officiaes de
marinha Serejo Junior e Soares Andra n'um acanhado projecto de aco
anti-monarchica, foi abordado por Marinha de Campos e Mascarenhas
Inglez, que o convidaram a tomar parte no grande movimento organisado
pelos republicanos e os dissidentes. A principio desconfiado, Machado
dos Santos no tardou a acceder e em setembro, n'uma reunio effectuada
no escriptorio de Alexandre Braga, foi apresentado a Joo Chagas e
Candido dos Reis, que com aquelle illustre causidico, Serejo Junior,
Marinha de Campos e Alberto Costa, discutiam ento a necessidade de
chamar o exrcito em auxilio da conjura. No relatorio que o triumphador
da Rotunda publicou em 1911 encontram-se estas passagens que
pormenorisam essa reunio:


_Pad-Z_ queria ir com 50 homens atacar a cidadela de Cascaes; Marinha
de Campos desejava ssinho agarrar a monarchia pelo pescoo e
apertar-lhe os gorgomilos. Candido dos Reis com a sua evangelica
paciencia deitava agua na fervura, aconselhava paternalmente a moderao
e Joo Chagas, contando os insuccessos de anteriores tentativas
revolucionarias, de que havia sido alma, dizia, com a auctoridade da sua
experiencia, que sem o exercito nada se devia tentar. Mas o exercito 
nosso! disse eu ingenuamente  illustre assembleia. Os sorrisos que
obtive em resposta convenceram-me do contrario.

Chagas, o eterno sacrificado das revolues frustradas, Chagas que,
melhor do que eu, melhor do que Candido dos Reis, conhecia os nossos
navios de guerra, por n'elles ter sido hospedado pela monarchia, Chagas
disse-me que no tivesse illuses, que era necessario trabalhar e
trabalhar muito para que alguma coisa se fizesse, e alvitrou uma
immediata convocao dos officiaes do exercito, para se saber se estavam
dispostos a sahir comnosco para a rua. Candido dos Reis encarregou-se de
os reunir e essa reunio ficou assente que se effectuaria tres dias
depois, para se conseguir que ella fosse bastante concorrida afim de
lhes dar uma impresso de fora, que, reunidos em pequeno numero, os
officiaes no podiam ter.

Chamando de parte o almirante, perguntei-lhe se os officiaes da marinha
com que contava estavam em commisso de embarque ou no quartel;
respondeu-me que poucos, muito poucos, estavam n'essa situao e que
d'um momento para o outro podiam ser transferidos e postos na condio
de nada nos poderem valer. Perguntei-lhe ento se concordava na
organisao de fortes nucleos de marinheiros nas differentes unidades,
afim de podermos empregar os nossos officiaes no caso do governo os
deslocar das situaes que tinham.

Respondeu-me que isso seria optimo, mas que no via quem se quizesse
encarregar d'essa organisao, que achava perigosa para a pessoa que a
tentasse e que podia expr o movimento a ser delatado pelo primeiro
tagarella de _camisola de alcaxa_ que aparecesse. Disse-me egualmente
que via inconvenientes pelo lado da disciplina, porque se o movimento
no lograsse exito havia de ser difficil mantl-a a bordo e para a
conseguir muitos teriam que soffrer; comtudo concordava em que sem os
fortes nucleos de marinheiros nos diversos navios nunca a Revoluo se
poderia levar a cabo.

Ficou assente entre os dois que eu me incumbiria d'isso, declarando ao
almirante que me parecia que nenhum movimento os marinheiros deveriam
fazer sem a presena d'um official, limitando-se elles a passarem a
receber as ordens do official ou officiaes que fossem a bordo ou ao
quartel a uma hora combinada...


D'ahi a dias, Machado dos Santos encetou a tarefa de alliciamento e,
dedicando-se especialmente aos frequentadores do bairro de Alcantara,
conseguiu juntar oitenta marinheiros, devotadissimos, que, por seu turno
se abalanaram,  conquista de novos camaradas, attrahindo-os
cuidadosamente  conjura.




CAPITULO IV

A policia descobre um dos fios do complot


Emquanto a preparao do combate proseguia sem desfallecimentos por
parte dos republicanos, dos dissidentes e d'uma fraco dos libertarios,
a policia, reforada com uma nova remonta de espies, espreitava anciosa
a agitao que percebia na sombra. De vez em quando, julgava apanhar uma
nesga de luz e ficava amarrada por instantes a um rasto sem valor. Para
no perder de todo o tempo e o feitio, vigiava impertinentemente as
creaturas em evidencia no partido republicano, sem seleccionar de entre
ellas as que conservavam realmente n'essa occasio estreitas ligaes
com os revolucionarios. Marchava s apalpadelas. Embasbacava ante o
menor grupo de transeuntes pacificos. Percorria os cafs, disfarada em
padres, mestras, mendigos e moos de esquina, escutava s portas,
farejava o ambiente e esquecia-se exactamente de topar com um dos muitos
caixotes de bombas que, em pleno dia, e s costas de gallegos, se
entrecruzavam nas ruas de Lisboa.

Alcantara, os Loyos e at o Chiado, estavam minados de explosivos. No
Bairro Alto havia depositos d'armas que despertariam a inveja d'um
arsenal. Conspirava-se por todos os cantos, segredavam-se instruces,
as reunies secretas de officiaes tornavam-se mais frequentes, as lojas
dos armeiros esvasiavam-se como por encanto. Nada faltava para o bom
exito. De tudo se cuidara, at dos servios de ambulancia e manuteno.
As offertas affluiam de todos os lados. (Um benemerito poz  disposio
dos conspiradores uma carroa cheia de chourios).

A febre revolucionaria no diminuia. Approximava-se a data solemne.
Alguns dias mais e sobre Lisboa cahiria durante horas uma verdadeira
chuva de fogo...


 n'esse momento critico da organisao da revolta que a policia tem um
alegro. Apanha, quasi sem dar por isso, um rasto de certa importancia e
desata a exploral-o com uma furia indescriptivel. Effectuam-se as
primeiras prises de elementos revolucionarios conhecidos, tentando-se
assim fazer abortar, pela clausura dos chefes, o movimento projectado.
Contemos pormenorisadamente como isso se deu.

Alfredo Leal fra incumbido de adquirir armamento para os 280
assaltantes dos quarteis, misso de que se desempenhou rebuscando as
casas de penhores, armeiros, etc. Como as ordens da policia eram
apertadas, fez essas compras pretextando umas encommendas da provincia
para confeco de panoplias e, ainda com o intuito de no despertar
desconfianas, munia-se sempre de dois recibos, um com desconto e outro
sem desconto, que era o destinado ao _freguez_. O dinheiro para esse
armamento forneceram-no, alm do Directorio, Jos Relvas, que contribuiu
com uma importante quantia, o africanista Joo Baptista de Macedo e
outros individuos dedicados  boa causa.

No tardou, portanto, que os armazens Leal, da Rua de Santo Anto,
ficassem transformados em arsenal, onde Alvaro Pope, Joo Chagas e Jos
Freitas Ribeiro analysaram detidamente o material destinado  revolta.
Esses armazens j tinham ao tempo uma fama revolucionaria, porque desde
muito eram o _rendez-vous_ dos insubmissos. Os conspiradores conheciam
as suas salas pelas _salas dos passos perdidos_... Para o movimento de
28 de Janeiro tambem serviram quasi diariamente s reunies de officiaes
do exercito de mar; para l enviou o dr. Alberto Costa duas caixas de
bombas que mais tarde sahiram, a _pau e corda_, dos armazens para o
consultorio do dr. Gonalves Lopes; ali se reuniram diversos cabos e
praas da guarda municipal aquartelada proximo das Necessidades, que
faziam ento causa commum com os revoltosos, e os sete grupos de 40, 60
e 30 homens destinados ao assalto aos quarteis. A essas reunies
assistiam sempre Joo Chagas, Alvaro Pope e Alfredo Leal. O proprietario
dos armazens chegou a mandar fazer caixas de embarque e n'esse
estabelecimento se encaixotaram as armas dos grupos populares, que
sahiram para o seu destino levando esta marca: _Telmo Bandeira, S.
Thom_. E a policia, sempre s aranhas...

Como descobriu ella, afinal, o tal fio da conspirao a que atraz
alludimos? D'este modo: ao chefe d'um dos grupos populares, Victor de
Sousa, aggregou-se mais um combatente, um policia, seu compadre e amigo,
de servio, ao que parece,  porta do dictador. Iniciou-o no mysterio,
indicando, ao mostrar-lhe as armas j em sua casa na rua Luz Soriano,
que Joo Chagas e Alfredo Leal eram os incumbidos especialmente d'essa
distribuio de alta responsabilidade. Na madrugada seguinte era preso
Victor de Sousa. Alfredo Leal tinha ainda nos armazens grande quantidade
de armamento por entregar. Apesar do segredo em que a policia envolveu
aquella captura, Affonso Costa e Joo Chagas souberam-na a tempo e pelo
telephone avisaram o proprietario dos armazens para que puzesse a salvo
as armas restantes. Aps o aviso, o visconde da Ribeira Brava correu 
rua de Santo Anto. Os armazens estavam cercados pela policia. Era
urgente proceder com habilidade e frustrar os designios do juizo de
instruco.

Os armazens teem uma portinha que deita para as escadinhas de S. Luiz em
frente da entrada do Coliseu dos Recreios. A sahida das armas devia ser
feita por essa portinha, caso a policia no houvesse dado por ella...
como no deu. As armas foram enroladas, em tapetes e, constituindo tres
fardos, Alfredo Leal, seu filho Jos Saragga Leal e um criado de
confiana, transportaram-nas  calada de Sant'Anna, onde o visconde da
Ribeira Brava as esperava mettido n'um _coup_, para as ir occultar
provisoriamente na sua casa, em plena Avenida da Liberdade. O material
da revolta salvou-se, mas na madrugada seguinte Alfredo Leal era preso
no Dafundo. Joo Chagas, que na vespera jantara com elle na _Charcuterie
Franaise_, cahira em poder da policia ao sahir d'esse estabelecimento
da rua Nova do Carmo. Escusado ser dizer que as buscas emprehendidas
nos armazens da rua de Santo Anto no deram o mais insignificante
resultado. No emtanto, o dictador fazia espalhar pouco depois que a
policia tinha ali encontrado armas e bombas em abundancia...


N'esta altura da narrativa cabe referir que muitos dos individuos, tanto
da classe civil como da classe militar, implicados na conspirao, s
foram sobejamente conhecidos do publico quando, insistindo na conjura,
se misturaram  organisao da revolta de 4 e 5 de outubro. Outros
houve, em compensao, que, vendo mallogrados os esforos applicados ao
28 de janeiro, abandonaram definitivamente os trabalhos revolucionarios
e foram surprehendidos pela proclamao da Republica n'um alheiamento
completo da agitao politica.

[Ilustrao: D. Manoel II]

O almirante Candido dos Reis, cuja aco no _complot_ de 4 e 5 de
outubro teve uma evidencia excepcional, garantindo, alm de tudo o mais,
pela sua figura de destaque, a adheso de diversos officiaes do exercito
de mar e terra, no 28 de janeiro sobresahiu por uma forma inolvidavel.
Sob as suas ordens  que devia dar-se ento o assalto ao _S. Gabriel_ e
ao quartel dos marinheiros; com elle conferenciaram muitas vezes o sr.
Alpoim e outros elementos da revolta; para elle estava naturalmente
destinado um papel preponderante, muito embora da sua aco individual
no dependesse, como de facto no dependia, pr em andamento, com
determinado signal e no momento dado, o complicado mechanismo da
revoluo; com elle estavam promptos a exercer aco decisiva alguns
officiaes dos quaes ninguem suspeitava e que  quasi totalidade dos
monarchicos pareciam indifferentes ou pelo menos indecisos.

Assim, a policia, prendendo alguns dos vultos do partido republicano
que, a bem dizer, no occultavam as suas _dmarches_ revolucionarias,
deixava exactamente fra da rde de perseguies uma boa somma de
executores d'esse plano maduramente combinado e que, uma vez resolvido o
ataque formal s instituies monarchicas, eram capazes de, readquirindo
certa autonomia, lanar fogo ao rastilho previamente preparado.  voz
corrente que o movimento do 28 de janeiro esteve para explodir antes
d'essa data e que n'aquelle mesmo dia soffreu de hora para hora diversos
adiamentos. Pois no andar longe da verdade quem affirmar tambem que,
se as prises effectuadas na segunda quinzena de janeiro embaraaram
fortemente a ecloso do movimento, s uma interveno muito especial 
que impediu que, apesar de tamanho contratempo, a tentativa de revolta
se esboasse com uma nitidez assombrosa.

Por mais do que uma vez, quando nos dirigentes da conspirao lavrava,
no diremos desanimo, mas comprehensivel reluctancia em impellir para o
campo de batalha a grande massa organisada dos revoltosos, houve
necessidade de refreiar com energia os impetos generosos de creaturas
ardentes, illuminadas, que no consentiam um minuto de reflexo sobre a
opportunidade da exploso revolucionaria. Essas creaturas tudo
sacrificavam ao desejo irreprimivel de combater a monarchia. E uma
d'ellas, ponderando-se-lhe um dia que, estando presos em quarteis da
municipal elementos de valor no s no partido republicano como na
organizao do movimento, a menor agitao extemporanea, a menor revolta
imprudente, provocariam, sem duvida, a sua condemnao  morte, uma
d'ellas, repetimos, depois de pesar o argumento, replicou sem commover-se:

--Que importa!... So mais tres ou quatro cadaveres!...

Mas, retomemos o fio da narrativa. Presos e incommunicaveis dois dos
chefes da revolta, acompanhados d'outros individuos de menores
responsabilidades na empresa, no occorreu, como seria logico, uma
paragem na sua organisao. A ida predominante, n'essa occasio, no
foi a de sustar os preparativos revolucionarios. Foi exactamente a
opposta: foi a de se dar pressa ao rebentar da bomba, porque todos ou
quasi todos se convenciam de que o dictador no perdoava aos inimigos
das instituies monarchicas. Para mais, n'essa altura do _complot_, o
governo Joo Franco, ainda que no possuisse na sua mo todos os fios do
trama revolucionario, sabia muito bem, por informaes d'uma relativa
preciso de pormenores, que o movimento no era limitado a uma simples
insurreio de quartel nem a uma manifestao armada de meia duzia de
visionarios.

O governo Joo Franco sabia perfeitamente que na conjura entravam tropa
e a classe civil, que, se a primeira estava armada, a segunda no
sahiria  rua desprevenida e que a monarchia vivia sobre a ameaa
constante da fornalha republicana, para a qual a dictadura deitara o
melhor do seu combustivel.

Mas se o governo Joo Franco sabia tudo isto que o levava a acautelar-se
o melhor possivel contra a probabilidade de gravissimos acontecimentos,
ignorava, por outro lado, a f que dominava o povo alliciado para a
revolta. O governo Joo Franco no fazia caso nenhum d'esse povo,
calculando erradamente que a massa soberana e anonyma s se moveria
tendo  frente os seus grandes idolos partidarios. Ignorava
absolutamente a importancia e a valentia d'essa massa e de quanto ella 
capaz, lanada decididamente no caminho da reaco ao despotismo. O povo
sem Antonio Jos, Joo Chagas, etc.--pensava o dictador--no se atreve a
protestar com as armas na mo. Uma vez presos esses homens, os
revolucionarios civis absteem-se da lucta e ficam s em campo os
militares, que uma serie de medidas urgentes e rigorosas recolhe
egualmente  inaco e ao silencio. Assim pensava o governo Joo Franco
alguns dias antes do 28 de janeiro e assim tinha pensado o juiz de
instruco criminal, na parte referente a _fabricantes de bombas_,
quando a exploso da rua do Carrio lhe entrou pela porta dentro e
desauctorisou, por completo, a famosa lista negra do Cyro. Um e outro
viviam redondamente enganados.




CAPITULO V

Marca-se a revolta para as 4 da tarde do dia 28


A priso do dr. Antonio Jos de Almeida contribuiu bastante para que a
febre revolucionaria augmentasse de modo consideravel. O dr. Affonso
Costa, que, absorvido pelo processo Djalme, andava um tanto afastado da
preparao da conjura, voltou a ella ainda com mais ardor. Os
conspiradores passaram a reunir-se n'uma casa da rua do Desterro,
pertencente ao sr. Luiz Grandella, fez-se nova acquisio de armamento
(parte d'elle fornecida pelos dissidentes) ultimaram-se as disposies
de ataque e de conquista e a data de 28 passou a ser mais anciosamente
esperada do que as que a tinham precedido na agenda dos revoltosos. O
_comit_ dirigente dos trabalhos era ento composto de Affonso Costa,
visconde da Ribeira Brava, Alvaro Pope, Marinha de Campos, Ernesto Pope
e Arthur Cohen.  casa da rua do Desterro foram dezenas e dezenas de
pessoas receber armamento, instruces, etc. A senha de entrada era
_Jasmim_.

No  facil, por variadas razes, reproduzir, na actualidade e na
integra, o plano do movimento. J decorreram sobre elle alguns annos e
estamos certos de que n'esse projecto muita coisa havia que, a ser
cumprida rigorosamente, resultaria em fraco beneficio para o exito do
_complot_. Na revolta de 4 e 5 de outubro cremos mesmo que se emendou a
mo em varios pontos considerados essenciaes no plano do 28 de janeiro.
A experiencia ainda , afinal, a grande mestra da vida.

Mas se no podemos dar muitos pormenores sobre o projecto da revolta, da
qual derivou logicamente o regicdio, -nos licito, no emtanto, fixar
aquellas das suas bases que so do conhecimento da maioria dos
implicados na conspirao. Em primeiro logar, o exercito de terra e mar
s se sublevaria depois de vr feitos certos signaes que lhe
communicariam a priso do dictador Joo Franco. Quer dizer: a grande
orchestra do _complot_ no devia principiar o concerto sem que a batuta
do regente se movesse a romper a marcha...

[Ilustrao: Teixeira de Souza]

A priso do dictador devia ser levada a effeito por um grupo civil entre
as 4 e as 6 da tarde, quando elle, sahindo de casa, no alto da Avenida,
se dirigisse para o Terreiro do Pao. Preso, conduzil-o-hiam para bordo
d'um vapor de pesca, o _Dinorah_, d'onde o transportariam depois para
qualquer navio de guerra revoltado. Entretanto, Machado dos Santos e
Serejo Junior assaltariam o corpo de marinheiros; Soares Andra tomara
o Arsenal de Marinha, auxiliado pela respectiva guarda e um grupo civil;
Candido dos Reis iria a bordo do _S. Gabriel_, onde o 1. tenente Branco
Martins teria  sua disposio grande parte da guarnio do navio e
muitos milhares de cartuchos; o visconde da Ribeira Brava, com um grupo
civil bem municiado, occuparia o Arco da Rua Augusta e todas as
platibandas dos ministerios que dominam as ruas da Prata, Augusta e Ouro
e embocaduras das ruas da Alfandega e Arsenal.

No ataque aos navios de guerra entraria, por conveniencia dos
marinheiros revolucionarios, o 2. tenente de marinha Bernardo Alpoim,
que fizera n'alguns d'elles activa propaganda contra a dictadura
franquista. A sahida das foras da municipal aquarteladas no Carmo
estava cortada por uma rede de dynamitistas installados no Sacramento
(no Club dos Caadores), na calada do Duque, etc. A propria egreja do
Sacramento, onde os revolucionarios entrariam usando d'uma chave falsa,
serviria tambem a impedir que os janizaros do antigo regimen viessem c
para fra espingardear o povo. Proximo dos outros quarteis da municipal
e das esquadras de policia havia analogas disposies de ataque.

Os dissidentes tinham um logar marcado em especial: o elevador da
Bibliotheca. Aqui reunidos desde o comeo da tarde, logo que pelo largo
do Pelourinho passasse um automovel conduzindo o dr. Affonso Costa,
deviam correr, armados, para a camara municipal, apossar-se d'ella
juntamente com aquelle estadista e outros individuos que o acompanhariam
e uma vez no edificio, proclamariam um governo provisorio. Essa passagem
do automovel conjugava-se com um signal dado no Tejo, que indicaria a
execuo immediata d'outras manobras revolucionarias. Outro grupo
apossar-se-hia dos telegraphos e da rede telephonica. Em summa, mal que
fosse dada ordem para o rebentar do movimento, Lisboa vr-se-hia
litteralmente enleiada n'um combate renhido, a menos que os defensores
da monarchia resolvessem momentaneamente no resistir aos revoltosos.

A priso do dictador obstaria a que elle, sahindo da sua casa de
residencia, conseguisse communicar com os elementos militares de que
dispunha ou com qualquer dos seus collegas no gabinete. Joo Franco,
para que a sua aco no entorpecesse o que fra planeado, devia
soffrer, acto continuo ao inicio da revolta, uma immobilisao rigorosa.
No  facil asseverar at onde iria essa immobilisao, caso ella se
tivesse produzido; mas a verdade  que no espirito de todos havia a
noo clara de que o menor passo dado pelo dictador fra das vistas dos
revolucionarios transtornaria, sem duvida, o exito da causa.


Na noite de 26 de janeiro era enorme a affluencia de conspiradores 
casa da rua do Desterro. De repente chega um aviso de que o edificio
estava cercado pela policia. Fecham-se todas as portas e Affonso Costa,
tomando a direco da defeza, resolve resistir aos assaltantes,
exclamando no auge do enthusiasmo:

--Vamos a isto!... Ser o inicio da Revoluo!

Dentro de breves instantes verificou-se que o aviso no tinha
fundamento. Mas tornava-se necessario proceder com cautela e marcar
definitivamente a hora para o rebentar da revolta no dia 28. Escolheu-se
as 4 da tarde por ter a vantagem de coincidir com o maior transito das
ruas de Lisboa e a menor vigilancia nos quarteis da guarnio.

Na noite de 27, os conspiradores receberam na casa da rua do Desterro
uma carta anonyma, prevenindo-os de que se no abandonassem
immediatamente o edificio seriam denunciados  policia. A carta era,
evidentemente, d'um visinho medroso... Affonso Costa manda alugar outra
casa na rua de S. Julio, n. 32 e, vestindo a farda de Marinha de
Campos, percorre varias ruas da cidade e entra em diversos portaes, sem
que a policia d por tal...

Essa noite (a de 27)--revelou-o mais tarde o visconde da Ribeira
Brava--foi tremenda de sensaes! Alvaro e Ernesto Pope e Arthur Cohen
desenvolveram uma actividade inexcedivel. Os automoveis giravam
constantemente, percorrendo os postos, levando ordens e dando a ultima
demo nos preparativos do movimento. Essa noite, eu e Affonso Costa
passamol-a sem dormir, sentados os dois a uma meza, escrevendo em
pedaos de papel determinaes que eram enviadas a todos os que dirigiam
grupos de combate, e ao mesmo tempo dando indicaes para o fornecimento
de armas, que se encontravam no deposito principal. Sobre a madrugada
estavamos gelados. Entre essas ordens ha uma interessante para a
historia da Revoluo.  a que envimos a Jos d'Alpoim, concebida nos
seguintes termos:


    O sr. Jos d'Alpoim, com os seus amigos, ir postar-se no elevador
    da Bibliotheca, para d'ali, na companhia de Affonso Costa e do povo
    assaltarem a Camara Municipal e ahi proclamarem a Republica. Pelo
    comit revolucionario, _Affonso Costa_ e _Ribeira Brava_.


Approximava-se o momento decisivo.




CAPITULO VI

A ratoeira do elevador da Bibliotheca insuccesso do complot


Todo o dia 28, desde as primeiras horas da manh, foi passado n'uma
anciedade enorme indescriptivel. Os republicanos e os dissidentes, ainda
ento  solta, sabiam perfeitamente que a policia os no desfitava e que
era uma questo de minutos, talvez, a perda da sua liberdade.

Proximo das 11 horas da manh, o sr. Alpoim, que estava no centro da
dissidencia progressista, recebeu a ordem revolucionaria n'outro logar
transcripta, e s 2 da tarde foi para o elevador da Bibliotheca com os
srs. Joo Pinto dos Santos, Egas Moniz, Cassiano Neves, Batalha de
Freitas e outros mais. Encafuaram-se todos n'um cubiculo, tendo  porta
uma vedeta que se revesava regularmente. Das 2 s 4, nada occorreu ali
de anormal. s 4, os dissidentes, j ento acrescidos de Marinha de
Campos e Alvaro Pope, esperaram que o _chefe da grande orchestra movesse
a batuta_. N'outros pontos de Lisboa, a scena era quasi identica. Estava
tudo a postos. Faltava apenas o signal combinado...

[Ilustrao: Anselmo Braamcamp Freire
Presidente da Camara Municipal Republicana de Lisboa, antes da
proclamao da Republica]

Ao cahir da tarde, como se espalhasse o boato de que o movimento tinha
de soffrer novo adiamento de horas, Marinha de Campos, Alvaro Pope e o
visconde de Pedralva foram de automovel percorrer os quarteis,
transportando ao mesmo tempo armas e munies. Pouco depois, entrou no
elevador o tenente-coronel Amancio de Alpoim e communicou aos conjurados
que a revolta gorara e que era conveniente que abandonassem o edificio,
pois a policia j lhes andava no encalo.

Debandaram. Mas d'ahi a uma hora voltaram novamente a reunir-se na casa
do tenente Furtado, contigua ao elevador. Isso de nada serviu, porque
Alvaro Pope, que ali appareceu j noite fechada, tinha informaes
identicas s do tenente coronel Amancio de Alpoim. O movimento fra mal
succedido, as tropas tinham sido postas de preveno, as guardas dos
edificios publicos haviam sido reforadas e o _comit_ revolucionario
ordenara definitivamente a _retirada_ das foras mobilisadas. O dr. Egas
Moniz, sabendo que o sr. Affonso Costa e o visconde da Ribeira Brava
tinham entrado no elevador, foi ao seu encontro. N'esse mesmo instante,
a policia principiava a cercar a casa do tenente Furtado. Era evidente
que se preparava para capturar o sr. Alpoim e os seus amigos, como d'ahi
a pouco capturou os srs. Affonso Costa, dr. Egas Moniz e visconde da
Ribeira Brava. Impunha-se a fuga.

O porteiro do edificio, informado do caso, communicou ao sr. Alpoim a
existencia d'uma sahida pelo lado da calada de S. Francisco. Os
dissidentes aproveitaram-na, mas com dificuldade. A portinha era
estreita e o corredor que ali conduzia era lobrego e cheio de teias de
aranha. Os dissidentes desceram-no, cautelosamente, quasi roando pelos
policias, que comeavam ento a invadir as escadas. Em baixo, novas
difficuldades e sobresaltos. A fechadura no servia desde annos e foi um
trabalho para fazer girar a chave. Na calada de S. Francisco no havia
um unico policia... O sr. Alpoim e alguns dos seus amigos foram ao
centro dissidente, no largo das Duas Egrejas. Ali souberam das prises
effectuadas dentro do elevador da Bibliotheca. O visconde do Ameal
encaminhou-se logo para a estao do Rocio, d'onde fugiu para Villa
Franca e depois para Hespanha; o visconde de Pedralva imitou-o, e o sr.
Alpoim, mettendo-se n'um trem, foi para casa. Mas, calculando que ia
egualmente ser preso, passou, momentos antes da policia o procurar, para
a residencia do sr. Teixeira de Souza e no dia seguinte,  noite,
abrigou-se no palacete do sr. Henrique de Mendona, d'onde se escapuliu,
em automovel, para o paiz visinho.

Quasi  mesma hora em que os dissidentes abandonavam a casa do tenente
Furtado, o dr. Jos d'Abreu corria ao Club dos Caadores a convencer os
revolucionarios que ali se encontravam da inutilidade do seu esforo,
visto que o dr. Affonso Costa j tinha cahido nas garras da policia.
Egual preveno era feita aos grupos capitaneados pelo engenheiro
Antonio Maria da Silva, professor Ferro e tantos outros, que s
esperavam o signal combinado para luctarem com energia, coragem e
deciso em prol da liberdade politica. Depois, seguiram-se: o esboo de
ataque  esquadra do Rato, onde morreu um policia, a fusilaria na rua da
Escola Polytechnica e na rua Alexandre Herculano, a tentativa de ataque
 esquadra do Campo de Sant'Anna, os incidentes de Alcantara, etc.,
emfim varios episodios que mostraram claramente aos _profanos_
boquiabertos a extenso do movimento projectado.


Porque falhara? J o dissemos: porque, dependendo em absoluto da priso
do dictador e no tendo o grupo civil a isso compromettido levado a cabo
a sua misso, todos os elementos a postos se conservavam inactivos ou
procuraram escapar com presteza  desforra do governo franquista.
Todos... no dizemos bem. Affonso Costa, dentro do elevador da
Bibliotheca e cercado pela policia, puxou d'um revolver para resistir
at  ultima. O visconde da Ribeira Brava impediu-o de o desfechar.
Machado dos Santos, Serejo Junior e Helder Ribeiro pensaram, como ultimo
recurso, sublevar caadores 2 e com esse regimento e o corpo de
marinheiros tentar a libertao dos chefes revolucionarios
encarcerados pela dictadura. Marinha de Campos alvitrou a sublevao da
fragata _D. Fernando_ e declarou-se prompto a fazel-o sem outro auxilio
de militares. Machado dos Santos tentou tambem approximar-se das
baterias de Queluz, onde os revolucionarios contavam um apoio fortissimo.

E descreve elle no seu relatorio de 1912:


N'essa tragica noite tudo fugiu! O commandante audacioso d'um regimento
teria salvo o seu paiz. As portas do quartel de marinheiros estavam
completamente fechadas. S o 2 de caadores, que fra reforar a guarda
do pao (onde estavam officiaes nossos) o poderia ter feito. O terror
era grande na cidade. Encontro-me no Rocio com Candido dos Reis, Moura
Braz e Tito de Moraes, se no estou em erro; dirigimo-nos ao Club
Militar; o almirante Botto e um outro cujo nome me no occorre ouviram
Candido dos Reis tentar leval-os para o nosso lado. Joo de Freitas
Ribeiro gritava que uma dictadura nos no devia impr um rei; os
almirantes e um capito de mar e guerra que l estava (cujo nome tambem
ignoro) ficaram mudos e quedos e ns retiramo-nos, ouvindo eu dizer a um
dos tenentes que comnosco se encontravam:

--Almirantes de borra, que nem para um acto de dignidade servem!...

Candido dos Reis (ainda no era almirante) dirigiu-se a casa do dr.
Bernardino Machado, levando-me em sua companhia; l, falsas noticias nos
chegam, e, entre ellas, duas de calibre superior; infantaria 5 tinha-se
revoltado e tomado o Cabeo de Bolla e o 16 tinha-se batido contra a
guarda e vindo para a rua. Candido dos Reis ordena-me que v averiguar
da verdade e, n'esse momento, chorando de raiva, lembro-me de ter sido
menos correcto com o dr. Bernardino Machado, o qual muito paternalmente
se no melindrou com isso, dizendo talvez no seu fro intimo que eu era
um visionario e que, como tal, era muito desculpavel o meu estado de
exaspero. Ambos tnhamos razo; cada um via as coisas pelo seu prisma.
Elle estava informado do retrahimento dos officiaes e eu imaginava que
todos, at final, tinham obrigao de honrar os seus compromissos.


Cumprindo a ordem de Candido dos Reis, Machado dos Santos encaminhou-se
para Campo de Ourique. Em volta do quartel de infantaria 16,
agglomeraram se muitos populares que affirmavam que o regimento tinha
sahido, _levando tudo adeante de si_. Machado dos Santos, incredulo,
approximou-se do edificio e perguntou  sentinella quem ia a commandal-o.

--V para o largo--foi a resposta que obteve.

E, quasi ao mesmo tempo, a guarda do quartel fez uma descarga de
fusilara, seguida de alguns tiros espaados que obrigaram o triumphador
da Rotunda a fugir at o largo da Estrella e depois at o Rato. Aqui
formava pacatamente o 16, commandado pelo respectivo coronel. Mais
adeante, em frente da casa do dictador, uma companhia d'aquelle
regimento fraternisava com um esquadro da guarda municipal. No havia
que duvidar; o 16 sahira do quartel, mas para defender a monarchia.


Em resumo; apesar do insuccesso palpavel da insurreio,  justo
consignar que, na noite de 28 de janeiro, muitas das creaturas n'ella
implicadas quizeram desobedecer  ordem do _comit_ revolucionario e
lanar-se corajosamente na revolta. Houve momentos de amargura, em que
esses homens attribuiram a responsabilidade do adiamento, _sine die_, da
insurreio, s hesitaes d'uns companheiros. Um grupo de sargentos de
artilharia chegou mesmo a propor a sedio do regimento 1 como inicio
immediato do movimento. Foi necessario que a vontade persuasiva de
alguns se impusesse fortemente para evitar um copioso derramamento de
sangue. O desejo de combater, a raiva que a contra ordem de revoluo
provocara n'um grande numero de conjurados eram tamanhos que s por
milagre Lisboa no acordou a 29 de janeiro de 1908 mergulhada em
horrorosa chacina.

Felizmente, no succedeu assim. O dictador, tendo-se-lhe desenrolado
ante a vista turva uma boa parte da machinao revolucionaria, embrenhou
se, naturalmente, n'um amontoado de providencias de occasio. Primeiro
que tudo, collocou a mordaa do estylo na bocca da imprensa; ordenou uma
sahida de tropas que equivalia  declarao do estado de sitio, visto
que ellas  que fizeram na madrugada de 29 a policia da cidade; ordenou
rusgas; remetteu para os fortes grandes levas de presos; exhibiu a
cavallaria da municipal em diversos locaes para aterrar, para suffocar o
menor impulso de reaco; e no dia 29 preparou-se para completar a sua
obra de represso com o famoso decreto que o ministro Teixeira de Abreu
levou a Villa Viosa  assignatura do rei Carlos.

O governo franquista, no satisfeito com o ter lanado  ta para
diversas prises todas as creaturas que a policia encontrou nas ruas da
cidade, momentos depois do ataque  esquadra do Rato, aprestava-se a
expellir pela barra de Lisboa todos os politicos, todos os cidados que,
n'uma hora de legitima revolta contra um regimen de perfeita tyrannia,
tinham ousado preparar a queda logica, indispensavel, do throno dos
Braganas.  atmosphera de pavr immenso, que creara com essas
perseguies arbitrarias--o governo civil de 28 para 29 encheu-se
rapidamente de populares--queria sobrepr uma verdadeira mortalha,
embrulhando no famoso decreto todas as individualidades que elle
suppunha, com bom ou mau fundamento, implicadas na conspirao.

No o conseguiu, porm. E no o conseguiu, porque, mal o decreto foi
publicado no _Diario do Governo_ e antes que o dictador iniciasse a sua
applicao feroz, outra fora, e extraordinaria fora, com que elle
nunca sonhara, impediu a consecuo dos seus designios. O regicidio
travou a corrida vertiginosa para a selvajaria que o gabinete Joo
Franco desfechara, pretendendo convencer o paiz de que assim cumpria uma
misso patriotica. O regicidio... sim, foi o regicidio que evitou um
authentico attentado brutal, anti-politico, libertou dos ferros da priso
alguns dos organisadores da revolta de 4 e 5 de outubro e impediu que
muitos dos que implantaram a Republica em Portugal gemessem at essa
data gloriosa no desterro abrasador...




CAPITULO VII

O regicidio--Quem disparou primeiro: Buia ou Costa?


Chegmos ao ponto menos esclarecido d'este periodo historico. Desde a
tarde de 1 de fevereiro de 1908, em que o rei Carlos e seu filho Luiz
Filippe baquearam no Terreiro do Pao sob as balas desferidas por um
reduzido numero de conjurados, tem-se dito tanta coisa sobre esse
acontecimento que e licito suppr que a verdade ainda permanea envolta
em denso veu. No temos a preteno de proferir a ultima palavra a tal
respeito; mas ouvimos mais do que uma vez a pessoas bem informadas
referencias ao caso, e essas referencias auctorisam-nos a considerar o
regicidio sob um aspecto muito diverso do que aquelle por que 
vulgarmente conhecido.

A propria policia, apesar de haver conseguido em dado momento obter um
ou dois depoimentos razoaveis, nunca tirou a limpo a veridica historia
do caso. E porque? Pela razo muito simples de que, tendo orientado as
suas diligencias n'um determinado sentido, d'essa orientao nunca se
desviou, apezar de errada. Teimou em ver no regicidio o acto de muitos
conspiradores, longamente deliberado, e d'ahi no se afastou, embora o
seguimento da instruco do processo por mais de uma vez lhe indicasse o
contrario. Persistiu em ver sobre as cabeas dos regicidas uma
influencia especial, uma sugesto de politicos burguezes, sem coragem
para perpetrarem o acto e confiando esse encargo a creaturas exaltadas,
a libertarios decididos e energicos, e afinal, por aquillo que ouvimos
s pessoas as quaes j alludimos, nada d'isso existiu seno para ser
utilisado no momento opportuno como uma arma de combate nas mos dos
reaccionarios.

Comprehende-se perfeitamente que, aps o insuccesso do 28 de janeiro e o
conhecimento das medidas ferozes preparadas pelo dictador, a opinio
soffresse immediatamente um accrescimo de odio contra esse governo que
no hesitava em immolar no altar da sua vingana diversos patriotas,
cujo unico crime era o de se terem eximido, ou procurado eximir-se, s
suas prepotencias. Essa exaltao da opinio devia ter-se reflectido
mais fundamente nos elementos revolucionarios que para o movimento de 28
de janeiro haviam prometido o concurso d'uma aco efficaz sobre os
tyrannos do paiz. Quantos d'esses revolucionarios na madrugada de 31 e
no periodo de horas que decorreu at ao desembarque da familia real no
Terreiro do Pao, no pensaram n'outra coisa que alis dominava o
espirito at dos mais conservadores: a necessidade de se eliminar o
dictador? Quantos? Essa eliminao estendiam-na naturalmente, sem
hesitaes, ao monarcha dos adiantamentos, porque a verdade  que para
um revolucionario que pretendia supprimir uma situao de absolutismo
no bastava, de certo, fazer desapparecer o brao executor do regimen de
oppresso. Tornava-se imprescindivel liquidar a personificao
individual d'esse mesmo regimen. Esta  a verdade e j explica, de
certo, muitos dos episodios que caracterisaram a tragedia do Terreiro do
Pao.


Quem passasse n'aquelle ponto da cidade na tarde de 1 de fevereiro,
momentos antes do desembarque da familia real, ainda que totalmente
alheio ao que d'ahi a pouco se ia desenrolar, teria a impresso de que a
atmosphera, excessivamente carregada, por fora desabaria em medonha
tempestade. No Terreiro do Pao havia relativamente poucos curiosos a
aguardarem aquelle desembarque. Em compensao, a policia, fardada e 
paisana, mobilisara-se  valentona, circulando desconfiadissima por
entre a assistencia.

O momento era solemne. As creaturas que palpitavam com frequencia a
opinio desde o insuccesso do 28 de janeiro, calculavam com fundamento
que alguma coisa se produziria, quanto mais no fosse uma manifestao
platonica de desagrado ao monarcha e ao seu primeiro ministro. Outras,
pelo contrario, no acreditavam n'uma exploso do odio popular e sorriam
desdenhosamente perante as menores apprehenses. Acreditavam demasiado
na indolencia do povo escravisado e no falso prestigio do soberano.

[Ilustrao: Misso do Directorio no estrangeiro]

A policia, repetimos, a propria policia, que conhecia sufficientemente a
extenso do trama revolucionario, que afinal se no desfizera ao
mallogro da projectada revoluo, tambem no tinha a noo do perigo que
ameaava o throno. Esse perigo, voltamos a insistir, no derivava
simplesmente de uma combinao prvia feita entre meia duzia de homens
desejosos de reintegrar o paiz na normalidade. Nascera e progredira na
consciencia da maioria dos revolucionarios e at dos que no commungavam
nos segredos da revolta. Era uma coisa acceite em principio e se toda a
grande massa de povo soffredor possuisse a energia, a deciso prompta
dos poucos homens que collaboraram no regicidio, este acontecimento
teria sido da responsabilidade directa, no de cinco, como se affirma,
mas de cincoenta, de quinhentos, de cinco mil...


Ha um relatorio policial, elaborado tempos depois da morte de D. Carlos
e de seu filho, que pretende filial-a n'uma conjura mais radical nos
seus meios de aco do que a que preparou o 28 de janeiro. Fala-se ahi
de varios individuos, amigos do professor Buia e de Alfredo Costa, como
implicados n'essa conjura e at quasi se assegura que o grupo decidido a
executar o monarcha e o principe comprehendia duas ou tres duzias de
homens, escalonados desde o Terreiro do Pao s Necessidades para a
execuo d'essa sentena lavrada em conciliabulo tenebroso.

Na realidade, para a nossa phantasia de meridionaes, no se percebia que
um acto de tanta repercusso mundial fosse praticado sem o apparato
scenico de muitas reunies secretas, com as indispensaveis capas de
embuados e o juramento terrivel prestado em meio d'um silencio
aterrador. E a policia influenciou-se d'essa phantasia, apesar de uma
das suas averiguaes consignar claramente um facto que reputou
verdadeiro e de grande importancia para o esclarecimento do regicidio: o
cavaco animado travado entre cinco homens na madrugada de 1 de fevereiro
 esquina do Caf Suisso. N'esses cinco homens contavam-se o professor
Buia e Alfredo Costa. Os restantes, quem eram? Vivem ainda? A policia
chegou a conhecel-os? E que projectavam n'essa madrugada celebre?
Decidiam ali, em plena rua, o plano do regicidio, ou apromptavam-se para
um acto bem diverso?

O sr. Jos de Alpoim, que se occupou do assumpto pouco depois de
implantada a Republica Portugueza, procurando expurgal-o das falsidades
e das invenes dos reaccionarios, que durante dois annos o exploraram
sem pudor pela verdade, parece inclinar-se para esta hypothese, embora o
no diga claramente:

Os cinco revolucionarios que na madrugada de 1 de fevereiro um espio
policial surprehendeu em conciliabulo  esquina do Caf Suisso (ou
outros cinco, mas comprehendendo tambem o Buia e o Costa) projectavam
simplesmente eliminar o dictador. Subiram a Avenida com esse intuito,
esperando poder executal-o  sahida da casa onde elle morava. Por
qualquer circumstancia que no vale a pena mencionar, esse designio
falhou. Os cinco revolucionarios desceram novamente a Avenida,
dispersaram-se durante um pequeno espao de tempo e voltaram a reunir-se
no Terreiro do Pao, ainda com a inteno de desfecharem as armas de que
estavam munidos sobre o primeiro ministro de D. Carlos. Essa tentativa
foi, como a antecedente, mal succedida; e elles ento, no vendo o
dictador mas vendo chegar o rei, _resolveram n'um lance impulsivo
descarregar_ sobre a carruagem do monarcha.

Por outro lado, Alfredo Costa, vinte e quatro horas antes de consumado o
regicidio, dissera a alguem que no dia immediato se abalanaria a ir
_para a cabea do touro_. Que quereria elle dizer com essa phrase
pittoresca? Referir se-hia j n'essa altura  probabilidade do rei
Carlos ser attingido pela sua Browning, ou pensava apenas no primeiro
ministro que submettera  assignatura do rei o famoso decreto da _morte
civil_ de dissidentes revolucionarios e republicanos? No emtanto, ha uma
coisa que o sr. Alpoim registou no artigo a que n'outro logar alludimos
e que  digno de relevo n'uma narrativa em que se fale do regicidio: o
acto no foi combinado antes do 28 de janeiro, pelo motivo bem simples
de que a revolta devia rebentar estando a familia real em Villa Viosa;
a carabina utilisada pelo professor Buia, comprada em casa do armeiro
Heitor Ferreira por um rapaz que no era o professor, s entrou na posse
d'aquelle revolucionario depois de reconhecido o mallogro do movimento
em que entravam republicanos e dissidentes.

Por ultimo, se  certo que o professor Buia se dispoz antecipadamente a
morrer em prol da liberdade--prova-o o seu testamento, que a imprensa
publicou--se  geralmente sabido que no seu espirito fulgurou mais do
que uma vez a ideia de se exterminar o rei dos adeantamentos, idea
acceite no s por Alfredo Costa mas por outros tres homens fundamente
exaltados contra o regimen de absolutismo, no  menos certo que at o
momento do desembarque da familia real no Terreiro do Pao esse grupo de
destemidos tinha em mira liquidar o chefe do governo e, se este escapou
da chacina, a um quasi milagre o deve. Com um pouco menos de sorte, o
dictador teria perecido sob a fusilaria do grupo, a policia teria
despertado da molleza com que vigiava a integridade do monarcha, e a
tarde de 1 de fevereiro, longe de marcar uma _tape_ formidavel de
revoluo, ficaria limitada  queda do gabinete Joo Franco, pela queda
mortal da sua cabea dirigente.


Vejamos agora outro ponto do regicidio muito discutido at pelas
proprias testemunhas do acto: quem atirou primeiro sobre a carruagem
real? Foi Alfredo Costa ou o professor Buia? Tentemos esmiual-o.


Assim que a familia real, vinda de Villa Viosa, desembarcou na ponte
dos vapores do Sul e Sueste, o rei Carlos approximou-se do
tenente-coronel Dias, que dirigia no local o servio da policia fardada,
e perguntou-lhe  queima roupa:

--_Isto_... como vae?

(_Isto_ era a situao da populao lisbonense, o estado da opinio
publica aps o famoso decreto de _morte civil_).

O tenente-coronel Dias hesitou um momento antes de responder, mas,
quando se decidiu a fazel-o, disse peremptoriamente ao monarcha:

--Meu senhor, _isto_ vae muito mal!...

D. Carlos encolheu os hombros n'um significativo desdem e foi falar ao
primeiro ministro que, dir-se-hia, esfregava as mos de contente pelo
que a publicao do tal decreto representava de fora do ministerio e de
provocao altiva, ironica, de desafio insolente  _ral insubordinada_.
No sabemos o teor d'essa conversa; mas  de crer que o monarcha
houvesse interrogado o dictador de modo identico ao do tenente-coronel
Dias, e que o dictador, emphatico, lhe tivesse respondido de modo
differente do do mesmo tenente-coronel. O primeiro ministro, n'essa
altura, ainda desprezava a _agitao da escumalha_, considerando-a
incapaz de ferir o poder real, que elle procurava engrandecer.

D'ahi a instantes, a familia real sahiu da estao do Sul e Sueste e
tomou logar n'uma carruagem descoberta. A multido formava alas pouco
compactas para a ver passar. Em frente das arcadas do ministerio da
fazenda, um homem que at ento se conservara immovel e sereno do lado
da Praa do Commercio, olhou para um outro que se especra mais aquem e
transmittiu-lhe um imperceptivel signal de cabea. O segundo fez um
gesto affirmativo e o primeiro, saltando para o meio da rua,
desembaraou-se do varino que tinha dependurado dos hombros e, apontando
uma carabina  capota da carruagem real, desfechou-a. Esse homem, o
professor Buia, fizera tudo isso n'um relampago. O rei Carlos
agonisou... Quasi ao mesmo tempo, a carruagem real era atacada de flanco
pelo outro homem empunhando uma pistola Browning. Alfredo Costa,
correndo por diante d'um antigo kiosque da Praa do Commercio,
conseguira alcanal-a na volta para a rua do Arsenal. O principe Luiz
Filippe ergueu meio corpo no vehiculo e, tambem de pistola em punho,
tentou attingir o regicida. Mas feriram-n'o de morte como ao rei Carlos.
A rainha Amelia, vendo a curta distancia da carruagem um terceiro
individuo em attitude hostil, quiz sacudil-o, ameaando-o com o ramo de
flores que tinha na mo, mas n'esse momento o panico j era enorme e,
dentro de segundos, o Terreiro do Pao transformava-se em verdadeiro
campo de batalha, onde os defensores do regimen disparavam  ta e a
maioria dos populares fugia em diversas direces, confusos, medrosos,
sem atinar com a importancia do facto que acabavam de presenciar.

O resto  sabido. A carruagem real, depois de ter parado uns momentos,
hesitante, seguiu apressadamente para o Arsenal, emquanto a policia e
uns officiaes do exercito, n'uma furia extranha de exterminar
revolucionarios, espadeiravam, disparavam tiros e cevavam um odio
inconcebivel no s sobre os dois homens que realmente tinham atacado a
carruagem real, como sobre creaturas inoffensivas, que, por curiosidade,
haviam comparecido ao desembarque do rei e da sua familia. N'esse lapso
de tempo decorrido entre a morte do monarcha e a installao dos dois
corpos, o d'elle e o do filho, no Arsenal da Marinha, a policia
commetteu brutalidades sem nome. D'uma d'ellas resultou a morte de
Alfredo Costa e d'um modesto empregado de ourives, Joo Sabino da Costa.
Alfredo Costa vivia ainda quando o transportaram para a esquadra da
Camara Municipal. Dentro d'essa mesma esquadra, a piedade de um guarda
impediu que uma duzia de selvagens massacrasse varios populares
capturados no momento do regicidio e que, repetimos, no tinham
responsabilidades effectivas na execuo do monarcha dos adeantamentos.




CAPITULO VIII

Os regicidas calcularam que a Revoluo rebentaria imediatamente ao seu
acto


 natural que o leitor d'estas narrativas, chegado a este ponto da
chacina de 1 de fevereiro, deseje saber os nomes dos tres companheiros
de Buia e Costa. O mysterio tem attractivos poderosissimos e no 
facil contentar em absoluto o publico apenas com a promessa vaga de que
o futuro desvendar o que o presente no permitte conhecer em todos os
seus pormenores.

N'este caso especial, porm, o mysterio no pode ser, no deve ser
profundado. De resto, mesmo que o quizessemos fazer por um impulso de
furiosa _reportage_, esbarravamos com esta muralha impenetravel: o
segredo dos conspiradores. A quem no andou implicado em qualquer
movimento revolucionario  difficil affirmar que as cousas se passaram
de tal ou tal modo. Ha naturalmente quem possua informaes precisas
sobre o regicidio; entre o muito de phantastico e de tendencioso que a
esse respeito se disse na imprensa, ha, evidentemente, uma nesga da
verdade; mas d'ahi a garantir a narrativa completa do facto vae uma
distancia consideravel, que poucos ousariam transpr.

Durante muito tempo disse-se que o individuo que a rainha Amelia, no
instante da tragedia, sacudira com um ramo de flres era um dos filhos
do visconde da Ribeira Brava. Lembra-nos perfeitamente que, tendo
recebido n'essa tarde ordem de ir ao Terreiro do Pao e ao Arsenal
verificar a exactido das noticias alarmantes que o telephone
transmittira  redaco do _Seculo_ (onde trabalhavamos), o primeiro
pormenor que alcanmos, repetido por meia duzia de pessoas, foi o de
que um dos regicidas era o sr. Francisco Heredia. Um popular asseverava
at que esse _sportsman_  que disparara primeiro que qualquer outro uma
carabina sobre a carruagem real. Mais tarde, julgando-se insubsistente
esse boato malevolo, engendrou-se um outro: o de que o sr. Francisco
Heredia emprestara um varino ao professor Buia e lhe offerecera a
famosa arma, instrumento da execuo. A propria policia, orientada no
mesmo sentido, fez varias tentativas para enredar no regicidio aquelle
nome to citado pelos reaccionarios  bocca pequena. E mais do que uma
vez pelas redaces dos jornaes se affirmou discretamente que o juiz de
instruco criminal passara um mandato de captura contra o pretendido
regicida. O sr. Alpoim, referindo-se ao caso, commenta-o deste modo:


Nenhum dos tres filhos do sr. visconde da Ribeira Brava, _nenhum_,
tomra parte no movimento; _nenhum_ se inscrevera; seu pae no os
implicara em qualquer facto revolucionario; sobre nenhum d'elles incidia
qualquer responsabilidade, como incidia sobre o tenente Bernardo
d'Alpoim que, de combinao com seu pae, collaboraria n'um dos factos
mais graves da Revoluo. Valentissimos, lealissimos, mas casados e com
filhos, seu pae sequestrara-os a todas as responsabilidades. Pois foi um
d'esses bons, admiraveis rapazes, que a gente do Pao e a escoria
clerical escolheram para alvo dos seus odios e accusaes! Chegou-se a
comprar policias para falarem no seu nome; e o sr. visconde da Ribeira
Brava procurou o ultimo juiz de Instruco Criminal para lhe communicar
factos gravissimos a tal respeito!

Aconteceu que o sr. D. Francisco Heredia,  hora em que o attentado se
commettia, estava com pessoas respeitabilissimas que depozeram. E--o que
ninguem sabe!--a pessoa mais indignada foi a rainha sr. D. Amelia, que
recebeu sempre no Pao, com todo o affecto, o sr. D. Francisco e sua
esposa. Ao chefe dissidente contou aquella senhora que era uma infamia
semelhante accusao e que ella propria dissera ao juiz de Instruco
Criminal que, conhecendo muito bem o sr. D. Francisco Heredia, estava
prompta a affirmar que no se achara entre os que assaltaram o coche
real e sobre elle dispararam. Garantimos esta affirmao, estas palavras
da rainha; e, comtudo, ellas no desarmaram gente da crte e politicos
que tinham todo o empenho em envolver o nome d'um dissidente, ou de
pessoa que lhe fosse proxima, no tragico acontecimento do Terreiro do
Pao!

[Ilustrao: Luz d'Almeida Chefe da Carbonaria]

Mas no foi s o sr. Francisco Heredia que a opinio desvairada apontou
como tendo tomado parte no regicidio. Na tarde de 1 de fevereiro de
1908, a policia prendeu, como suspeitos, varios individuos, entre elles
um de nacionalidade hespanhola. Durante oito dias, approximadamente,
teve-os incommunicaveis no governo civil e findo esse periodo de
clausura libertou-os. O hespanhol sahiu logo de Lisboa e foi para San
Sebastian. Passados mezes, quando a policia voltou a proceder a
investigaes minuciosas sobre a morte do rei Carlos e do principe Luiz
Filippe, teve denuncia de que o hespanhol realmente atirra sobre um e
outro, e um dos agentes do juiz de instruco encaminhou-se para o paiz
visinho na peugada do supposto companheiro do professor Buia. Baldado
empenho: o hespanhol j no vivia em San Sebastian e o seu rasto
perdera-se completamente. Seria, com effeito, esse homem o tal que a
rainha Amelia viu atirar sobre o marido e o filho e de quem, d'ahi a
semanas, fez um _croquis_, fixando-o bem nos seus traos physionomicos?
No  possivel dizel-o com segurana. Pessoas que se nos affiguram bem
informadas desmentem redondamente esse boato, como antes j tinham
egualmente desmentido o que incidia sobre o sr. Francisco Heredia. E uma
d'ellas declarou-nos terminantemente, assim que o juiz Silva Monteiro
recomeou a respectiva indagao policial:


--O X... que o juiz procura no  nem o filho do Visconde da Ribeira
Brava nem o hespanhol de S. Carlos (o individuo suspeito fra musico no
nosso theatro lyrico). Tambem no , como para ahi se disse, o estudante
preso por causa da exploso na rua do Carrio, que ao tempo se achava
escondido em Lisboa (Aquilino Ribeiro). Pelo pouco que sei do regicidio
creio que o X...  outro rapaz bem differente d'esses tres, pouco
conhecido como revolucionario, mas dispondo d'uma energia capaz de um
acto semelhante  execuo do monarcha dos adeantamentos.

Cousa curiosa... Ia jurar que a policia teve em seu poder durante
alguns mezes o X... do regicidio. No por esse facto... Capturou-o,
conservou-o por semanas incommunicavel, mas sem suspeitar sequer ao de
leve que aferrolhava nos seus calabouos um authentico companheiro do
Buia e do Costa, o tal regicida de quem a rainha Amelia fez um
_croquis_ elucidativo. Eram cinco os do _complot_... Alfredo Costa, o
professor Buia, o X..., o Y... e o Z. Os dois primeiros morreram na
tragedia; os restantes escaparam...


Vamos concluir este capitulo da historia contemporanea, mas antes
faremos referencia a uma conversa trocada entre o professor Buia e
Alfredo Costa  1 e 30 da tarde de 1 de fevereiro de 1908. Foi no _Caf
do Gelo_, a conhecida cervejaria que desde tempos immemoraveis tem
servido a _rendez-vous_ de estudantes e... estudantes de idas avanadas.

Na vespera do regicidio, o professor Buia, que tinha no caf do Gelo o
seu quartel-general de propaganda libertaria, apareceu ali, acompanhado
de Alfredo Costa e d'um outro rapaz, e abancou a uma das mezas. Os tres
conversaram demoradamente e ha todas as razes para crr que s se
separaram na manh de 1.  1 e 30 da tarde d'esse dia, o professor Buia
e Alfredo Costa voltaram ao Gelo e tomaram logar n'uma das mezas da sala
que deita para a rua do Principe. O professor Buia bebeu uma cerveja e
Alfredo Costa serviu-se d'uma _omolette_. Na mesma sala, alem dos dois
revolucionarios, encontravam-se apenas o dr. Maximo Brou e um cadete da
Escola do Exercito. O professor Buia desenvolveu um plano qualquer ao
seu companheiro e fel-o sem reservas, alto e bom som, completando a
palavra com gestos expressivos:

--A carruagem avana, disse elle, a carroa apparece, esbarra e eu
intervenho...

E ao affirmar a sua _interveno_, o professor Buia moveu os dois
braos de modo significativo, como se mettesse uma espingarda  cara.

--E ns? perguntou-lhe Alfredo Costa... O que fazemos?

--Vocs... procedero como a opportunidade indicar.

O outro calou-se e continuou a comer a _omolette_. O professor Buia
piscou um olho ao dr. Maximo Brou e disse lentamente e ironico:

--Estamos aqui, estamos em Timor...

O dr. Maximo Brou procurou desfazer essa apprehenso, argumentando
risonho com a belleza do dia-- 1 e 30 da tarde o sol inundava a cidade
de luz faiscante--mas o professor Buia insistiu na previso e d'ahi a
pouco um silencio melancholico amortalhou o ambiente. s 5 e tal, quando
o dr. Maximo Brou soube no Martinho que o rei Carlos fra alvejado no
Terreiro do Pao, no poude conter-se, e recordando o que ouvira no
Gelo, exclamou para uns amigos:

--O Buia no errou a pontaria!...


E no errara, com effeito. At ha pouco, ainda se asseverava
convictamente que o primeiro regicida a atacar a carruagem real fra o
Alfredo Costa e que o Buia se limitara a secundar-lhe o gesto. No
succedeu assim. O professor  que atirou primeiro, collocando-se no meio
da rua e visando serenamente o pescoo do rei Carlos que emergia da
capota do vehiculo. Depois, a policia postada do lado das arcadas do
ministerio da fazenda disparou sobre elle varios tiros de revolver,
emquanto mais adiante Alfredo Costa investia contra o lado direito da
carruagem.

No admira, por isso, que o Buia ficasse na chronica da execuo como o
principal dos regicidas e que a opinio extrangeira o houvesse
immediatamente collocado em plano superior ao dos seus companheiros. De
resto, o nome do professor soou logo no dia 2 de fevereiro de modo
bastante suggestivo para o grande publico. Por outro lado, a
circumstancia de ter empunhado e desfechado uma carabina--arma que
exige, na sua utilisao, sangue-frio extraordinario; e a aureola que um
jornalista extrangeiro lhe teceu, evocando deante do seu cadaver na
Morgue uma vida de apostolado e de martyrio, o sacrificio da familia,
dos filhos votados  orphandade por amor da libertao do paiz; uma e
outra coisa concorreram egualmente para que elle alcanasse uma
supremacia de heroicidade que a historia futura indubitavelmente
conservar.

Mas, pergunta-se agora: os cinco homens que na tarde de 1 de fevereiro
se abalanaram ao regicidio tinham unicamente em mira supprimir um dos
seus semelhantes--o rei ou o dictador? O que previam afinal sobre as
consequencias do seu acto? Admittindo a hypothese de que pensavam apenas
em matar o dictador (e essa hypothese, repetimos,  a mais verosimil)
diremos que obedeciam naturalmente ao seguinte raciocinio:

[Ilustrao: O Directorio da Revoluo]

Attingido o primeiro ministro do rei Carlos, a policia, se os apanhasse
em flagrante, procuraria logicamente poupar-lhes as existencias,
esperanada em que qualquer d'elles, succumbindo cedo ou tarde ante o
juiz investigador, revelaria todos os pormenores do _complot_. Apoz a
suppresso de Joo Franco, rebentaria irremissivelmente a revolta e a
Republica, uma vez triumphante, veria com olhos differentes dos dos
monarchicos o arrojo e deciso de quem lhe facilitara a proclamao por
uma maneira to notavel. O proprio Buia, como n'outro logar registamos,
contava em que o degredo de Timor seria o mais provavel dos castigos que
sobre elle incidiria no momento opportuno.




CAPITULO IX

As iniciaes na carbonaria augmentam consideravelmente


Falemos da carbonaria, a grande organisao secreta que representou um
papel importante na revolta de 4 e 5 de outubro. To importante, que
d'ella sahiram todos os grupos de populares armados que auxiliaram o
triumpho e um dos seus membros, da mais elevada cathegoria dentro da
associao vinculou indelevelmente o nome e os feitos  implantao da
Republica Portugueza.

A Carbonaria vinha de longe. Ha quem supponha, talvez, que ella nasceu
propositadamente para a preparao do 28 de janeiro. No  exacto. Em
1893 j se falava vagamente na existencia d'essa organisao e em 1894
um bom nucleo de estudantes conimbricenses realisava nas margens do
Mondego, pela calada da noite, reunies secretas com todo o cerimonial
mysterioso das chamadas _lojas revolucionarias_, independentes da
maonaria regular.

A _grve do grelo_, occorrida em Coimbra ahi por alturas de 1905-1906,
revelou pela primeira vez ao publico o funccionamento da Carbonaria
n'aquella cidade. Um jornal de Lisboa teve a ida de entrevistar um dos
estudantes mandados sahir de Coimbra por essa occasio e elle, com uma
franqueza digna de nota, pz a questo tal qual se lhe affigurava
veridica e irrefutavel. Explicou a interferencia que a Carbonaria
certamente poderia ter tido na agitao da populao conimbricense, a
frequencia das reunies no Choupal, estrada da Beira e para os lados de
Santa Clara, em recantos ignorados da policia e dos espies monarchicos
e explicou... outras coisas mais. No dia seguinte, um grupo de
estudantes, alheio a essa organisao de insubmissos, apressou-se a
desmentir na imprensa as affirmaes d'esse seu collega. A Carbonaria
sorriu, encolheu os hombros e o incidente no tardou a esquecer. E foi
bom que assim succedesse, para no reavivar as diligencias policiaes
effectuadas a proposito do apedrejamento proximo de Coimbra, do comboio
que transportava a Lisboa o negociador d'um famigerado convenio financeiro.


Mais tarde, Lisboa v despontar _officialmente_ a Carbonaria para as
luctas politicas, embalada pela f ardente, a tenaz propaganda de Luz
d'Almeida.  o momento em que a ida inicial d'um nucleo forte,
aguerrido, de aco immediata e directa contra as instituies
monarchicas, apparece tomando corpo, adquirindo um relevo fra do
commum. Da maonaria regular, a que Luz d'Almeida j dava, n'essa poca,
o melhor do seu esforo intelligente, sahe como que um filamento, que 
o rastilho a applicar a uma bomba monumental. Esse filamento avulta,
insinua-se vagarosamente na camada popular, contorce-se em evolues
cautelosas e discretas e a Associao Carbonaria Portugueza, at ento
uma sombra de resistencia nacional ao despotismo,  tyrannia do throno e
dos governantes deshonestos, comea a illuminar o futuro, projectando
sobre a treva que o envolve uma luz viva e inapagavel. A nova
aggremiao secreta no tem ainda aquelle nome. Tem outro bem differente
e no tarda a ser apadrinhada por um dos mais populares caudilhos
republicanos.

Luz d'Almeida multiplica-se na conquista de elementos revolucionarios. E
 curioso observar como esse homem calmo, d'uma calma que se confunde
com a indolencia, desenvolve uma energia rara, uma actividade
incomparavel. Conhecemol-o ha quinze annos, quando, ao lado d'um
companheiro inseparavel, Ferreira Manso, elle se demorava todas as
noites pelo Gelo em propaganda discreta, mas infatigavel. Sempre sereno,
sempre conciso, vagaroso no andar, conservando no rosto uma
impassibilidade caracteristica, o olhar incidindo certeiramente sobre o
pensamento de qualquer dos seus interlocutores, Luz d'Almeida  o typo
por excellencia do homem de aco que, uma vez lanado n'uma ida de
combate, vae direito ao fim sem hesitaes, sem pressas inuteis, sem
medo, sem precipitao. O gesto  sobrio e o vestuario tambem. No faz
alarde da sua deciso nem da sua palavra persuasiva.  methodico,
correcto e cauteloso e, dentro d'essa couraa de apparente indifferena,
esboa os planos mais audaciosos, resolve as situaes as mais difficeis.

Na primeira phase da Carbonaria  com o dr. Antonio Jos d'Almeida que
elle collabora assiduamente. A _Floresta_--o nome por que  ento
conhecida a poderosa aggremiao secreta--conta a breve trecho milhares
de adeptos. Luz d'Almeida inicia-os dia a dia n'uma progresso
assombrosa. De sorte que, antes do 28 de janeiro, elle e o dr. Antonio
Jos d'Almeida adquirem a certeza absoluta de que  justificado confiar
ao elemento popular uma boa parte da execuo da revolta. E se  certo
que na preparao d'aquelle movimento os grupos organisados de civis no
apparecem ainda, como na preparao do 4 e 5 d'outubro, totalmente
filiados na Carbonaria, no o  menos que a expanso da associao
secreta j  to vasta e tende to nitidamente a augmentar que Luz
d'Almeida, tres dias aps o regicidio, inicia d'uma assentada cerca de
cincoenta conjurados.

Por essa altura, ao lado do vigoroso e tenaz propagandista, figuram
tambem dois revolucionarios de temperamento bem diverso, mas
devotadissimos ambos  causa da liberdade: Machado dos Santos e o
engenheiro Antonio Maria da Silva. As suas primeiras entrevistas
realisam-se no jardim de S. Pedro d'Alcantara.  ahi que esses tres
homens combinam de comeo a forma de dar uma orientao absolutamente
pratica  Carbonaria, formando entre si o _Comit Alta Venda_ ou,
melhor, a cabea dirigente da organisao secreta. Depois passam a
reunir em casa de Machado dos Santos, na rua Jos Estevo, casa que a
policia assalta uma bella noite, disfarando esse assalto com uma proeza
de gatunos, e decidem levar aos quarteis a semente revolucionaria. ,
repetimos, no periodo de maior agitao popular provocada pela politica
nefasta do regimen monarchico. Rara  a noite em que se no inicia na
Carbonaria uma duzia de adeptos pelo menos.

[Ilustrao: Innocencio Camacho
Membro substituto do Directorio, em effectividade]

As iniciaes divergem no cerimonial. Ha iniciaes rigorosas, com todos
os pormenores que constituem a bem dizer uma apertada _fieira_ e tambem
as ha _pr forma_, quando o adepto  sobejamente conhecido e inspira
absuluta confiana. Em qualquer dos casos, porm, o iniciado  sujeito a
um interrogatorio sobre as suas ideias politicas e aquillo de que se
julga capaz de executar no momento propicio. Muitos d'elles affirmam
desde logo as suas disposies para uma aco directa e individual;
outros limitam-se a prometter concurso efficaz n'uma aco collectiva. A
Carbonaria no repelle os que se declaram francamente incapazes d'um
acto isolado, mas que juram--o juramento  obrigatorio para
todos--auxiliar a communidade uma vez chegado o ensejo de luctar contra
a monarchia ou a tyrannia.


Em dado momento surge uma contrariedade. Machado dos Santos, tendo
escripto um artigo violento no _Radical_--jornal fundado e dirigido por
Marinha de Campos--, dado o seu posto de commissario naval, levado a
conselho de guerra. Os juizes absolvem-no, mas como os inimigos dos
revolucionarios no descansam, conseguem em breve afastal-o de Lisboa,
desterrando-o para o ultramar. Esta contrariedade, porm, no impede que
a Carbonaria progrida a olhos vistos. O _comit Alta Venda_ decide abrir
a primeira _choa_ em Alcantara, bairro que sempre se evidenciou pelo
grande amor  causa, bairro revolucionario por excellencia.

O _comit_ recebe adheses valiosas e a propaganda fructifica.
Marinheiros, contra-mestres, cabos, sargentos, artifices, operarios,
tudo acode  iniciao. Na conquista d'esses adeptos distinguem-se dois
homens: o _cabo Antonio_ (alis sargento) e o artifice Carlos Freitas,
que um zelo excepcional caracterisa. Este revolucionario toma sobre os
hombros a ardua tarefa de desdobrar a _choa_ de Alcantara e funda outra
em Valle do Zebro, fornecendo ao _comit_ um plano da escola de torpedos
e varia documentao topographica.

Na _choa_ d'Alcantara, a direco superior da Carbonaria possue
egualmente elementos civis de modelar actividade: entre muitos, Augusto
Rodrigues, chefe de _barraca_, e Jos Madeira. Da _choa_ de marinha
sahem elementos de propaganda para junto dos quarteis de infantaria 2 e
caadores 2.  curiosa a forma por que esses elementos entram nos quarteis:


A principio--reportamo-nos a uma informao do engenheiro Antonio Maria
da Silva--cada carbonario tinha um _primo_ no quartel; depois, conforme
a necessidade de repetir as entradas, assim ia augmentando o numero de
_primos_. Carbonario houve que, em pouco tempo, se tornou _primo_ de
toda a soldadesca. Naturalmente surgiram desconfianas por parte dos
officiaes, e estas avolumaram-se com a coincidencia do apparecimento
d'um folheto de Luz d'Almeida, intitulado _Dialogo entre um medico
militar e um magala_, que foi largamente distribuido pelos elementos
militares.


Principiam ento as buscas nos quarteis, buscas rigorosas que lanam o
sobresalto no _comit Alta Venda_ por causa da dureza do castigo que os
iniciados certamente soffrem quando descobertos. Mas a dedicao dos
carbonarios  to grande que os maiores escolhos so transpostos com
exito. Um exemplo: d'uma vez, o official de certo regimento revista a
caixa d'um _magala_ e o clarim que o acompanha na busca descobre o
interessante folheto de Luz d'Almeida. No hesita; disfara como pode a
comprometedora descoberta, apanha o folheto e occulta-o no
instrumento... O clarim tambem era carbonario. E assim se consegue que
esse _Dialogo_, d'uma propaganda utilissima, continue a espalhar pelas
foras militares a ideia da revolta, apesar da campanha que os jornaes
reaccionarios lhe movem sem treguas, apontando-o dia a dia s attenes
e  revindicta do governo monarchico.


Tratando-se da Carbonaria e da sua aco nos movimentos revolucionarios
que caracterisam o ultimo periodo da vida monarchica portugueza, 
necessario, antes de proseguirmos na narrativa que vimos fazendo, abrir
um parenthesis que fixa um ponto de historia. J dissemos que Coimbra
antecedeu Lisboa na organisao d'essa fora mysteriosa, que devia no 4
e 5 de outubro representar um papel importante. Podemos talvez falar do
assumpto ainda com maior preciso. A Carbonaria de Coimbra teve o seu
periodo aureo--digamos assim--de 1892 a 1894; a de Lisboa soltou os
primeiros vagidos em 1897, fundada por Heliodoro Salgado, Benjamim Jos
Rebello, Julio Dias, Sebastio Eugenio, Jos do Valle e varios
democratas de Alcantara, que constituiam o nucleo de resistencia da
chamada _Aliana Revolucionaria_. Pouco depois, a Alliana cedia o passo
 _loja irregular_ Obreiros do Futuro, installada na Rocha do Conde
d'Obidos n'uma casa pertencente ao Credito Predial e que foi alugada a
um dos carbonarios--a Jos do Valle se no estamos em erro--pelo sr.
Jos Bello, ao tempo administrador das propriedades d'aquella companhia.

Essa _loja irregular_ congregou durante largo tempo tudo o que Lisboa
possuia n'essa occasio de elementos avanados, radicalissimos. A ella
pertenceram os homens que mais tarde o juiz de instruco criminal devia
encarcerar como implicados em incidentes da politica interna (que o
grande publico conheceu vagamente sob a designao de attentados
anarchistas) e d'ella sahiram resolues vigorosas cuja descoberta o
_ex-irmo Hoche_ d'essa epoca pagaria por bom preo. Facto digno de nota
e que nos no canaremos de repetir: a policia teve por vezes nas mos,
fechados a sete chaves, os meios de esclarecer certos mysterios, de pr
a nu intrincadas meadas revolucionarias. E no o fez porque? Porque,
para alcanar exito completo, bastava-lhe concatenar habilmente certas
informaes. Tinha as informaes, recebia denuncias que borboleteavam
em volta da verdade, mas como no dispunha de sangue-frio e de esperteza
sufficientes para as reunir, para as methodisar, disparatava
horrivelmente e, disparatando no comeo, ia at final, cega, estupida,
laborando sempre no erro.

Occorre-nos n'este momento um incidente curioso a que  interessante
fazer referencia. A policia um dia--e quem diz policia diz juiz de
instruco porque de certa altura por diante, desde que o Cyro e os seus
superiores hierarchicos se convenceram de que a engrenagem
revolucionaria no andava resumida aos tantos anarchistas que
enfileiravam na famosa _lista negra_, as diligencias importantes
passaram a ser encaminhadas com o auxilio de _personagens de
cathegoria_--a policia um dia, insistimos, ouviu falar em que um homem
de determinado appellido tomara parte saliente n'um facto que alarmou
Lisboa. No quiz saber de mais nada. Lanou-se na pista d'um rapaz,
ento ausente de Portugal, que usava do mesmo appellido, e forcejou
imbecilmente por trazel-o s mos, sem procurar obter a confirmao
absoluta da vaga denuncia. E to cega, to absorvida n'essa orientao
errada, que ainda pouco antes de ser implantada a Republica tentava
arrancar d'um prisioneiro politico a confisso de que esse tal rapaz
realmente preponderara na execuo do facto alludido... O appellido
denunciado  policia era, effectivamente, o de um revolucionario ligado
intimamente a esse facto; o rapaz que a policia perseguia, embora de
appellido identico e amigo d'um outro que planeara o _complot_ de exito
indiscutivel, no entrara n'esse _complot_ e s d'elle tivera
conhecimento apoz a consumao do facto!  um pouco sybillino, mas  a
verdade...

[Ilustrao: Jos Barbosa
Membro substituto do Directorio, em effectividade]

Outro caso pittoresco revelador da _argucia policial_: Certo dia os
espies da _Bastilha_ descobriram a existencia d'um deposito de bombas
n'uma casa da Baixa. Prises, buscas, etc., o juiz de instruco poz em
scena todo o reportorio do costume. D'ahi a quarenta e oito horas, o
mesmo juiz, por effeito d'uma denuncia, mandou capturar um operario
extrangeiro, que se suspeitava ter no predio onde morava alguns
explosivos devidamente aprestados para uma aco decisiva. A noticia
d'essa captura lanou o alarme nos carbonarios que ainda andavam 
solta. A denuncia era fundada e d'esta vez a policia ia,
indubitavelmente, realisar uma diligencia de absoluto successo.
Tornava-se necessario afastar do predio suspeito as bombas
comprometedoras. Um grupo de homens decididos tomou sobre os hombros tal
encargo e, meia hora antes da policia passar a busca do estylo  casa do
operario, as bombas em questo eram transportadas para logar mais
seguro, atravessando impunemente diversas ruas de Lisboa.

No dia seguinte, o _ex-irmo Hoche_ chamou  sua presena o prisioneiro
e quasi lhe pediu desculpa de o ter incommodado _sem motivo_.

--Eu sempre me quiz parecer--disse o juiz ao operario anarchista--que o
senhor nada tinha com este caso das bombas... V descanado e trate de
no se misturar com os incidentes da nossa politica interna. A minha
opinio a seu respeito est formada.

O operario cumprimentou amavelmente o juiz e o juiz esfregou as mos de
contente, murmurando para o _Sota da praa_:

--Eu bem dizia... este rapaz nada tem com o caso das bombas...




CAPITULO X

Os estudantes militares offerecem o seu concurso  Revoluo


A exploso da rua de Santo Antonio  Estrella fez desapparecer a loja
Obreiros do Futuro, porque quasi todos os elementos que a compunham
deram entrada nos calabouos policiaes. Mas assim que a justia libertou
esses carbonarios, a aggremiao secreta reviveu mais forte do que nunca
e ao lado da Associao Carbonaria Portugueza surgiu uma outra
associao retintamente anarchista, tendendo  certo para o mesmo fim
revolucionario, mas divergindo um pouco nos meios de aco e na
preparao e iniciao dos seus adeptos.


A carbonaria anarchista deu um contingente precioso para a revoluo de
4 e 5 de outubro. E justo  dizel-o: _trabalhava_ quasi s claras.
Alguns dos seus adeptos falavam de bombas e de dynamite como quem se
referia a objectos de uso corrente, a artigos de primeira necessidade. A
policia, entretanto, no ouvia nenhuma d'essas conversas e roava pelo
perigo com uma inconsciencia extraordinaria. Uma noite,  meza de
determinado caf de Lisboa que a tradico popular apontava como _rendez
vous_ infallivel de exaltados, um anarchista conhecido propoz-se zombar
da espionagem da _Bastilha_. Sacou do bolso do casaco um rolo cr de
chocolate, mostrou-o aos convivas com o ar mais natural d'este mundo e
disse em voz alta, de modo a ser ouvido por um _bufo_ que abancra proximo:

--Sabem o que isto ?  _massa_ para um _foguinho de sala_.

Um dos assistentes duvidou e elle, ento, exclamou a sorrir:

--Ah! sim, pois agora vou dizer a verdade... Isto  dynamite!...

Os convivas entreolharam-se receiosos, o _bufo_ espertou as orelhas e
durante alguns segundos fez-se o silencio das grandes occasies. O
anarchista voltou  carga:

--Querem experimentar?...

O panico augmentou. Os assistentes, como movidos por uma unica mola,
recuaram os bancos d'um metro... O _bufo_ procurou abrigo n'uma outra
meza. O silencio e a anciedade eram de esmagar o mais animoso.
Percebia-se claramente que toda a freguezia do caf queria pr-se a
salvo, mas que toda ella tambem no queria passar por medrosa. O _bufo_,
esse, pingava suor por todos os pros.

O anarchista, sempre risonho e zombeteiro, pegou cautelosamente no rolo
de chocolate, raspou-o com a unha e destacando uma particula
insignificante collocou-a na pedra da meza. Depois accendeu um phosphoro
e approximou a chamma d'essa minuscula substancia ameaadora. Houve uma
ligeira crepitao, a chamma lambeu por completo o ingrediente e em seu
logar ficou apenas um p amarellado que o anarchista sacudiu com um
guardanapo. Nada mais... nem ruido, nem fumo, nem cheiro que se
percebesse sequer ao de leve.

A assistencia readquiriu a tranquilidade, o _bufo_ permitiu se um
sorriso de troa pelo medo que antes experimentra e toda a gente se
convenceu de que o anarchista mystificra o publico do caf,
impingindo-lhe qualquer coisa inoffensiva por um dos mais terriveis
explosivos da actualidade. Toda a gente, sem exceptuar o _bufo_... E, no
emtanto, presados leitores, o rolo cr de chocolate era mais do que
sufficiente, quando applicado em circumstancias especiaes, para fazer
voar, feito em migalhas, um quarteiro da rua do Ouro!


Mas... prosigamos na narrativa da propaganda exercida pela Associao
Carbonaria Portugueza. O _comit Alta Venda_, uma vez bem minado o
bairro de Alcantara, passa a Belem e delega no pharmaceutico Abrantes o
encargo de reunir proselytos em infantaria 1, lanceiros 2 e cavallaria
4. As iniciaes so s dezenas entre soldados, cabos e sargentos. Os
officiaes, mais difficeis de conquistar, representam-se na Carbonaria em
reduzido numero. Os de cavallaria, ento, possuem tal fama de
_thalassas_ que, durante um largo periodo, ninguem se atreve a
_palpital-os_. Em lanceiros 2 a organisao revolucionaria conta apenas
com um; em cavallaria 4 com dois e um d'elles em commisso fra do
regimento. O resto permanece fiel  monarchia e ao monarcha.

Aps Belem, funda-se uma _barraca_ exclusivamente destinada aos alumnos
militares--cadetes e aspirantes.  uma fora disciplinada, consciente,
conhecendo bem o manejo das armas e que tem o merecimento especial de
ser o processo mais facil e seguro de alliciar futuros officiaes. Muitos
dos officiaes novos que mais tarde apparecem implicados na revolta de 4
e 5 de outubro procedem d'essa _barraca_ para onde haviam entrado quando
alumnos da Escola do Exercito. As entrevistas d'esses carbonarios com os
chefes do movimento realisam-se em regra no jardim do Campo de Sant'Anna
ou no jardim do Matadouro. Os alumnos da Escola do Exercito entendem-se
directamente com o ajudante de instructor, tenente de cavallaria Jos
Ricardo Cabral, e devem constituir, no momento opportuno, um batalho de
_lite_ armado com as Mausers-Vergueiro existentes na Escola em numero
de quatrocentas. Os da Polytechnica entendem-se com um cadete que, por
seu turno, se relaciona intimamente com o tenente David Ferreira. Este
official distingue os conjurados pela maneira especial como elles lhe
fazem a continencia.

[Ilustrao: A barricada na Rotunda]

Um episodio curioso: o maior numero de iniciaes de estudantes
militares  feito n'uma casa da rua Paschoal de Mello, residencia d'um
guarda fiscal, dedicadissimo  ideia. N'esse predio a policia captura
tres paisanos filiados na Carbonaria e o irmo do dono da casa; mas no
fareja convenientemente essa _pepinire_ de revolucionarios e os briosos
estudantes que ali se reunem para conspirar conseguem escapar ao rigor
da _Bastilha_.

O plano de aco esboado para essa legio ardente e generosa  simples,
mas arriscado. s tantas da noite marcada para o inicio do movimento, um
automovel deve levar  Escola do Exercito as munies de que os
estudantes necessitam; a chegada do vehiculo corresponder para os
revolucionarios ao signal da insubordinao. Os audaciosos rapazes teem
que arrombar a casa das armas e conter quietos e calados os officiaes de
servio e alguns estudantes reaccionarios; teem que proceder com cautela
para no despertar antes de tempo a ateno da guarda municipal
aquartelada em Cabeo de Bola; os estudantes da Polytechnica e do
Instituto Industrial aguardaro nas immediaes da Escola do Exercito o
momento de se juntarem aos seus collegas...


Na tarde de 15 de julho de 1910--em que se suppe azado o ensejo de
fazer rebentar a _bomba_--um grande nucleo de estudantes militares
organisa uma reunio no Jardim Botanico. Um d'elles, delegado pelos
restantes, recebe a incumbencia de ir falar ao almirante Candido dos
Reis e declarar-lhe que esto todos promptos a iniciar o movimento,
sahindo  rua ainda que isolados.  primeira vista, talvez esta
declarao parea uma fanfarronada. Mas no . Os estudantes
revolucionarios teem parentes, paes, irmos, etc., em todos os corpos da
guarnio de Lisboa e no julgam crivel que a dedicao a um principio
absurdo conduza ao sacrificio dos entes mais queridos... O delegado dos
estudantes ao falar a Candido dos Reis nota que o almirante o escuta com
as lagrimas nos olhos. Candido dos Reis ouve a declarao peremptoria e
energica do delegado e depois exclama commovido:

--E assim se perde este povo! O que o senhor me diz agora, j m'o
repetiram hoje dezenas de creaturas!...

 que o almirante no supporta em 15 de julho de 1910 o adiamento da
revolta, como de resto o j no tinha supportado em 28 de janeiro de
1908. Convencido em absoluto de que a Revoluo conta suficientes
elementos para triumphar, no comprehende como, possuindo-se esses
elementos, alguem hesite em lanar fogo ao rastilho da _bomba_...


Para a _barraca_ organisada com estudantes militares, o revolucionario
de _elite_ que  Pinto de Lima contribue com uma grande parcella do seu
esforo individual. Esse rapaz modesto, em cujo olhar scintilla a f
viva do propagandista incanavel, apparece-nos pela primeira vez
collocado no plano que justamente lhe compete, por effeito de uma phrase
elogiosa de Joo Chagas. O eminente publicista acaba de nos resumir por
uma frma brilhante, clara e suggestiva, o prologo do movimento de 4 e 5
de outubro, quando o seu olhar, fixando-se em Pinto de Lima, que ao
nosso lado o escuta, toma uma expresso inilludivel.  preciso
salientar o papel que elle assumiu na revoluo, diz-nos Joo Chagas,
trabalhou como poucos e a Republica deve-lhe muito.

Estas palavras na bocca d'um homem que, como Joo Chagas, as no
prodigalisa sem sinceridade, so o melhor diploma a qualificar a
actividade e a energia do valente rapaz. De resto, Pinto de Lima no
exerceu apenas a sua aco junto dos estudantes militares. Conquistou
para a boa causa dezenas de soldados, cabos e sargentos, entrou nos
quarteis a arranjar proselytos e ainda na madrugada de 5 de outubro,
quando entre as foras acampadas no Rocio lavrava a mais perigosa
incerteza, elle por l andou animando, encorajando e preparando o
terreno para um desenlace victorioso.


Com o regresso de Machado Santos do ultramar, o aspecto e a frma da
propaganda da Carbonaria mudam por completo. Machado Santos substitue o
engenheiro Antonio Maria da Silva nos trabalhos de Alcantara,
disciplinando fortemente esses elementos, imprimindo-lhes toda a fora
da sua f e da sua coragem. O numero de adheses cresce de maneira
assombrosa. Machado Santos faz prodigios; no descana, no trepida, no
hesita. Chega a expr-se... Auxiliam-no Augusto Rodrigues e Franklin
Lamas. Aps esse grandioso trabalho de Alcantara, examinados os
relatorios, o _comit Alta Venda_ conclue que esse bairro constitue um
baluarte inexpugnavel.  tempo de lanar as vistas para outros pontos.
Cabe a honra  infantaria 16. Machado Santos toma a seu cargo a tarefa,
auxiliado por Antonio Meyrelles e o soldado Jos, hoje sargento por
distinco, e faz comicios, verdadeiros comicios aos soldados, na Serra
de Monsanto, a que assistem dezenas de homens de artilharia 1 e
d'aquelle regimento. Em artilharia 1  auxiliado por Armando Porphirio
Rodrigues, enfermeiro do hospital inglez, onde o engenheiro Antonio
Maria da Silva inicia o 2. tenente Jos Carlos da Maia e varios outros.
Em engenharia, a propaganda  feita pelo alfaiate Antonio dos Santos e
pelo Oliveira dos _bonnets_. Em infantaria 5  o cabo Benevides; na
guarda-fiscal o soldado Domingues e, em todos os regimentos, a
Carbonaria conta dentro em pouco com elementos de superior valia. O
numero  assombroso e a qualidade  fina, excepcionalmente corajosa e
dedicada.


Fra de Lisboa a propaganda da Carbonaria tambem  intensissima. Malva
do Valle, Carlos Amaro, Carlos Olavo, Pires de Carvalho, Manuel Alegre,
Mario Malheiros e outros formam a _Junta Carbonaria da Regio Central_
que abrange Aveiro, Coimbra e Vizeu. Por esse tempo tambem j existem
nucleos poderosos em Vianna do Castello, Braga e Villa Real de
Traz-os-Montes, distinguindo-se n'este ultimo os revolucionarios Adelino
Samardan e Antonio Granjo. Ao sul forma-se o nucleo de Evora, merc dos
esforos de Estevo Pimentel que no tarda a trocar o conforto da sua
casa abastada pelas sensaes e perigos do proselytismo; auxiliam-no
n'esse trabalho insano de todas as horas o dr. Feliciano Caeiro e o
sargento Andrade, um bravo do Cuamato. Em Beja, distingue-se na
propaganda revolucionaria o dr. Pereira Coelho; no Algarve, em Faro, o
tenente Stockler, o tenente Cerqueira e o dr. Gil. Mas, soccorramo-nos
mais uma vez das informaes do engenheiro Antonio Maria da Silva:

[Ilustrao: Jos Nunes
Auctor de diversas bombas explosivas]


Ainda no Norte  o caixeiro viajante Alvaro Mendes que estabelece 20
_choas_ carbonarias, entre as quaes se destaca a do Entroncamento, por
causa dos elementos da Escola Pratica de cavallaria que inicia. Em
Santarem  o capito de artilharia 3, Figueiredo, o agronomo Veiga e o
dr. Queiroz, secretario geral do governo civil.  Malva do Valle quem
impulsiona fortemente a Carbonaria Central. Em Estremoz  tambem Estevo
Pimentel que inicia varios sargentos de cavallaria 3 que foram
denunciados por um camarada, sendo transferidos. Em Lisboa organisa-se o
_comit_ dos correios e telegraphos, sendo meu auxiliar Amandio
Junqueiro. Distingue-se o carbonario Lameiras, telegraphista, auxiliado
por Balduino da Matta, Jacintho Henriques, Moyss Teixeira, Lorena
Queiroz e Gualberto Pires. Merece tambem especial meno a _barraca_
Garibaldi, onde trabalham Antonio Francisco dos Santos e o publicista
Ribeiro de Carvalho, iniciando um numero consideravel de empregados dos
electricos.


Surge a difficultar a marcha do proselytismo o famoso caso de Cascaes. 
esse caso que pe inesperadamente o juiz de instruco criminal na pista
dos trabalhos da Associao Carbonaria Portugueza;  elle egualmente que
contribue para que na imprensa appaream pela primeira vez vagas
indicaes sobre a constituio organica das associaes secretas. Vem a
proposito pormenorisal-o.




CAPITULO XI

Os dynamitistas preparam a artilharia civil


O caso de Cascaes veiu a publico em meiados de outubro de 1909. Um
incidente sem importancia fez descobrir o cadaver de Nunes Pedro sobre
uns rochedos da Bocca do Inferno. Ao principio suppz-se que esse homem
se suicidara, atirando-se de grande altura; mas a breve trecho
percebeu-se que o cadaver apresentava signaes d'uma aggresso violenta e
as auctoridades locaes apressaram-se a communicar a descoberta ao juizo
de instruco criminal. Por outro lado, o ento administrador do
concelho de Cascaes, sr. Fernando Castello Branco, tendo encontrado no
fato do morto uns papeis que alludiam s relaes da victima com varios
carbonarios, metteu-se logo no comboio e veiu a Lisboa conferenciar com
a policia. Horas depois, a policia ia de Lisboa a Cascaes investigar o
caso e iniciava uma serie de prises, tendentes a demonstrar que a morte
do Nunes Pedro fra planeada e executada por uma terrivel associao
secreta inexoravel para todos os que a atraioavam.

A primeira d'essas prises, a do empregado do commercio Domingos
Guimares, foi effectuada em Villar Formoso por um agente da policia
repressiva da emigrao clandestina. Uma vez realisada, espalhou-se: 1.
que o Nunes Pedro estava implicado no desapparecimento de cartuchame
armazenado na Alfandega de Lisboa; 2. que esse desapparecimento fra
provocado por uma indicao de varios republicanos, que assim se
preparavam e armavam para um proximo movimento revolucionario; 3. que,
apenas descoberta a falta de cartuchame, esses republicanos, tinham
compellido o Nunes Pedro a fugir para Badajoz, e que elle dias depois de
se ter acoitado n'essa cidade hespanhola escrevera duas cartas uma a
Domingos Guimares e outra ao armeiro Heitor Ferreira, pedindo-lhes
dinheiro e ameaando-os de denunciar  policia portugueza a falta do
cartuchame; 4. que, em face d'essa ameaa, o Domingos Guimares partira
para Badajoz a socegar o Nunes Pedro, que o trouxera a Lisboa disposto a
fazel-o embarcar para a Africa, mas que depois de se encontrarem os dois
na capital, o Nunes Pedro renovara a ameaa, decidindo ento os
carbonarios supprimil-o.

Isto, repetimos, foi o que se espalhou ou melhor foi o que a policia
espalhou, mal teve nas mos o empregado do commercio amigo da victima e
denunciado como um dos principaes fautores do famoso caso. Aps Domingos
Guimares, o juizo de instruco criminal capturou outro empregado do
commercio chamado Manuel Martins Pereira Ribeiro, accusando-o de ter
acompanhado o Guimares e o Nunes Pedro a Cascaes e de ter cumplicidade
na morte do segundo. Affirmou-se at n'essa occasio que o Nunes Pedro
fra violentamente aggredido com uma bengala pertencente ao Ribeiro e
que este e o Guimares haviam declarado  policia:


_... terem deliberado fazer desapparecer o Manuel Nunes Pedro, visto
este ser prejudicial, pois podia revelar o segredo das associaes
revolucionarias segundo as ameaas de denuncia que j tinha feito..._


Outra informao policial entregue  imprensa periodica disse tambem que
o Pereira Ribeiro reconhecera como sua a bengala acima referida, que o
Nunes Pedro soffrera primeiro a aggresso dos seus companheiros de
passeio a Cascaes e a seguir  que fora precipitado sobre os rochedos da
Bocca do Inferno. Calculavam os aggressores que o mar, lambendo os
rochedos, afastaria o cadaver para bem longe, mas o plano falhara e o
cadaver l tinha ficado no local, a compromettel-os e a comprometter a
vasta organisao secreta a que elles pertenciam... Isto, tornamos a
insistir, dizia a policia com o ar sorridente e orgulhoso de quem
descobre uma boa pista e se dispe a esclarecer um mysterio de alto
cothurno.


Uma nova priso veiu complicar ainda mais o romance da Bastilha: a d'um
outro empregado do commercio, Adelino Luiz Fernandes, primo em segundo
grau de Manuel Nunes Pedro. A policia teve-o enclausurado,
incommunicavel, durante 92 dias, interrogou-o altas horas da noite,
exerceu sobre elle varias violencias e, no entanto, as suas declaraes
em nada depuzeram contra os revolucionarios que o juizo de instruo
apontava teimosamente como os eliminadores d'aquelle seu parente.
Adelino Luiz Fernandes confirmava o facto do Nunes Pedro ter fugido para
Badajoz a fim de se eximir a qualquer responsabilidade no
desapparecimento do cartuchame; confirmava o ter elle escripto de
Badajoz ao Domingos Guimares e ao armeiro Heitor Ferreira, pedindo-lhes
dinheiro e envolvendo esse pedido n'uma ameaa clara; dizia mais--que
Nunes Pedro regressara de Badajoz a Lisboa em 16 de outubro de 1909,
indo para um armazem do Poo do Bispo, onde se conservara dois dias; que
sabendo que o primo era socio do Centro Antonio Jos d'Almeida, falara
ao presidente do Centro, o professor Camello Neves expondo-lhe as
difficeis circumstancias em que se encontrava a viuva do Nunes Pedro e
que o professor, condoido da sorte da infeliz, lhe dera uma pequena
quantia, uns cinco mil ris. Mas se o Adelino Luiz Fernandes affirmava
tudo isto, dizia egualmente que nunca percebera nos accusados a inteno
de eliminarem o primo, nunca relacionara a sua morte com a ameaa que
elle enviara de Badajoz e que o Nunes Pedro, por mais do que uma vez,
lhe significara o desejo ardente de sahir de Lisboa com destino  Africa
Portugueza.

[Ilustrao: Dr. Miguel Bombarda e Vice Almirante Candido dos Reis]

A policia, porm, enlevada na descoberta d'um fio tenuissimo que a
collocara na pista da Carbonaria, torceu a seu talante essas declaraes
e desatou a prender mais gente: o commerciante Jorge Francisco de
Carvalho, que sabia da estada do Nunes Pedro no armazem do Poo do
Bispo; o commerciante Joaquim Francisco e o vendedor de leite Joaquim
Adrio Alves, compadre do Domingos Guimares. Este ultimo declarou no
juizo de instruco que o compadre, sendo seu hospede desde o comeo de
outubro de 1909, sahira de Lisboa no dia 13, que regressara no dia 16,
que passara fra de casa a noite de 18 (a noite do celebre caso), que no
dia 19 fra procurado por tres individuos e que no dia 21 fra preso em
Villar Formoso.

Ainda outra priso: a do professor do Instituto Brigantino Artur Alvaro
Pereira de Sousa. A policia implicou com elle e tentou ligal-o  morte
do Nunes Pedro apenas pelo seguinte:

O professor estava a ler os jornaes que relatavam o caso e ao ver que os
suppostos criminosos, no dizer dos mesmos jornaes, tinham deixado no
fato do morto uns papeis compromettedores, exclamou: Deram _bota_!.
Foi o sufficiente. D'ahi a pouco era preso e fortemente assediado pelo
juiz de instruco.

Por ultimo, a policia ainda enclausurou um antigo cobrador do Centro
Antonio Jos d'Almeida, Manuel Jos do Espirito Santo Amaro. Com este
accusado succedeu um episodio interessante. O juiz, prevenindo-o de que
o ia confrontar com o professor Camello Neves, insinuou-lhe:

--Quando eu o acarear com esse homem, affirme que elle o encarregou de
comprar pistolas automaticas e de guardar alguns cartuchos de dynamite.

Mas o antigo cobrador, chegado o momento da confrontao, no
representou o papel que o juiz lhe distribuira e a policia, indignada,
perdendo a cabea, expulsou o Amaro do gabinete do _ex-irmo Hoche_.


De toda esta trapalhada de averiguaes, de capturas a esmo, de clausura
rigorosa, de incommunicabilidade por largos periodos ao sabor da
_Bastilha_, resultou serem enviados ao tribunal como intromettidos no
caso de Cascaes apenas estes individuos: Domingos Guimares, Manuel
Martins Pereira Ribeiro, o professor Camello Neves, o commerciante
Pereira de Sousa, o vidraceiro Agapito Vieira e Silva, o alfaiate
Eduardo Filippe Amores e o commerciante Manuel Mendes. Todos esses
homens foram julgados dias depois de proclamada a Republica e todos
elles foram absolvidos. E apesar de que, n'esse julgamento, o delegado
se esforou por demonstrar que o Domingos Guimares  que assassinara o
Nunes Pedro e que os outros accusados tinham sido seus cumplices, a
defeza, apreciando o caso  luz d'um criterio desapaixonado, evidenciou
sem hesitao que o processo fra simplesmente um _vomito negro_ do
antigo juiz de instruco e que n'elle no se devia tocar pelo receio do
contagio. O processo, accrescentou a defeza, no podia merecer a menor
confiana; forjado na _Bastilha_, que a Republica destruiu, n'elle
figuravam como testemunhas individuos que tinham estado presos durante
largos dias de regimen inquisitorial e n'elle existiam declaraes
arrancadas aos accusados por meio de torturas que um moderno Scarpia
puzera em pratica a altas horas da noite. A um d'esses accusados o juiz
de instruco dissera at uma vez, insurgindo-se contra a negativa
formal que elle oppunha a certas affirmaes de accusao:

--Ah! voc no confessa!... Pois emquanto no confessar no lhe dou cama
nem comida, nem consinto que sua mulher o visite!...


Mas se o caso de Cascaes, espremido at ao maximo pelo juiz de
instruco, deu simplesmente a embrulhada, que j assignalmos e que o
julgamento em fins de 1910 liquidou n'um sopro, serviu, no emtanto, 
policia para arrancar com furia extranha sobre a Associao Carbonaria
Portugueza. As chamadas diligencias sobre aggremiaes secretas
constituem um documento interessante e bem elucidativo da argucia do
_ex-irmo Hoche_ e dos seus sequazes. Cada _primo_ que entrava nos
calabouos da _Bastilha_ soffria um interrogatorio cerrado, que
degenerava a breve trecho n'umas insinuaes capciosas, n'umas falinhas
mansas destinadas a seduzir a victima.

--Ora vamos l, dizia o juiz pondo nos labios o seu melhor sorriso...
confesse, diga tudo o que sabe.  melhor para si porque beneficia d'uma
esplendida attenuante quando chegar ao tribunal e  melhor para mim,
porque termino mais rapidamente as minhas indagaes. Confesse...
porque, se o fizer, levanto-lhe a incommunicabilidade...

A sereia policial envolvia assim o carbonario n'uma rede de encantos, de
miragens deliciosas, babujava-o d'uma peonha que o _Sota da Praa_
tambem distillava ao tocar-lhe a vez de _palpar_ o paciente. Em regra, o
carbonario resistia. E ento os dois, reassumindo toda a ferocidade que
os caracterisava, soccorriam-se das ameaas, das violencias, para obter
a tal confisso que, no seu acanhado entender, _simplificava tudo_. Um
dia, o presidente do conselho de ministros, espicaado certamente pelas
referencias dos jornaes que qualificavam de inutil o supremo esforo do
_ex-irmo Hoche_, e se insurgiam contra o largo periodo de clausura
rigorosa em que elle encerrava os presos das associaes secretas,
chamou o juiz ao seu gabinete e inquiriu d'elle o estado do famoso
processo e quaes os resultados alcanados pela averiguao da
_Bastilha_. O _ex-irmo Hoche_, suppondo ingenuamente que o trabalho j
feito era merecedor d'um elogio dispensado pelo chefe do governo,
desentranhou-se logo em pormenores do que sabia sobre a organisao da
Carbonaria.

O ministro ouviu-o attento, fel-o repetir a affirmao de que a
vastissima organisao revolucionaria comprehendia muitos milhares de
homens e, assim que elle acabou, perguntou-lhe quantos dos filiados nas
associaes secretas conseguira prender em trez mezes de diligencia
policial. O _ex-irmo Hoche_ citou um numero: duas ou tres duzias de
carbonarios... O ministro deu um pulo na cadeira:

--O que? Pois o senhor tem a pretenso de capturar toda a gente que
pertence a essas associaes?... Convence-se que pode metter na cadeia
muitos milhares de homens?... Pare l com isso!... Mande para o tribunal
os que j conseguiu enclausurar e d por concluida a investigao!...

[Ilustrao: Dr. Malva do Valle
Membro substituto do Directorio em effectividade]

O juiz assim fez. No evitou o fiasco, mas livrou-se de ser
surprehendido pela implantao da Republica, ainda a prender e a
interrogar os revolucionarios da Associao Carbonaria Portugueza. Para
mais, n'essa altura das suas diligencias, j um bom nucleo de
aggremiados sob a direco do _comit Alta Venda_ tinha esboado uma
diverso aos cuidados e s attenes da _Bastilha_ com a exploso de um
petardo na egreja de S. Luiz e promettia continuar a srie at que o
_ex-irmo Hoche_ se capacitasse da improficuidade das suas tentativas.


Disse-se por mais do que uma vez que muitos dos individuos capturados
por causa dos trabalhos da Carbonaria, apenas chegados s mos do juiz,
se _descosiam_ sem a menor hesitao e procuravam com uma denuncia
completa readquirir a liberdade sob fiana. O engenheiro Antonio Maria
da Silva, interrogado a tal respeito dias depois da Revoluo, oppoz um
desmentido formal a esses boatos:

Effectuadas as primeiras prises, vimos logo que os chefes das _choas_
e _cabanas_ eram poupados--systematicamente poupados. Isto significava
que se os presos no tinham frma de resistir  presso inquisitorial do
Scarpia azul e branco e se viam arrastados, como unica soluo, at 
denuncia, escolhiam de preferencia os camaradas de menor
responsabilidade. De resto, j tinhamos previsto que esse meio era o
unico para forar a sahida do _cul de sac_ asphyxiante constituido pela
instruco criminal. Esses homens no foram delatores: foram martyres. E
quizera poder, n'esta hora de resgate, abraal-os como bons camaradas
que sempre foram e que tiveram a honra de occupar a vanguarda do
sacrificio.

Encarando essas prises sobre outro aspecto: o juiz, effectuando-as,
tinha a impresso de que dava assim um golpe bem fundo na organisao
revolucionaria. Pois succedia exactamente o contrario. A Carbonaria
fortaleceu-se de maneira consideravel logo que o _ex-irmo Hoche_
desatou a perseguir os seus filiados. A cada noticia de tortura
inflingida aos carbonarios encerrados na _Bastilha_ correspondia, por
parte da vastissima aggremiao, um impeto irreprimivel de
solidariedade. E assim se explica como, decorridos tres mezes de
sobresaltos, de anciedade, provocados pelas _dmarches_ da policia e
apezar do exilio necessario de Luz d'Almeida e de alguns dos seus mais
valiosos collaboradores, a Carbonaria, longe de vr diminuida a sua
expanso, tinha alargado tanto a sua rde de iniciaes que os
dirigentes suppunham attingido o maximo grau de propaganda util e
efficaz e julgavam desnecessario proseguir na conquista de novos adeptos.


Passemos a outro capitulo da historia revolucionaria: a priso de Joo
Borges no _armazem_ de bombas da rua dos Correeiros, priso que
patenteou  policia o auxilio que os dynamitistas deviam prestar aos
republicanos revolucionarios. Passadas algumas horas sobre ella, que na
tarde d'um _domingo morto_, fez despertar, curiosa e receiosa, uma boa
parte da populao lisboeta, recebeu-se na redaco d'um jornal
republicano esta missiva, que  opportuno recordar e transcrever:


    _Sr. redactor._--Como v. naturalmente sabe, o caso das _bombas_ 
    mais uma fantochada preparada ad hoc, para inglez ver e surtir um
    effeito, que ainda ninguem attingiu, mas que innegavelmente d
    tolice. Para mim  ponto assente que o Joo Borges e o juiz de
    instruco vo feitos na manigancia; nem d'outra frma se explica o
    sangue frio e a confiana de que est investido o tal Borges. Se no
    vae feito com o juiz, _um valente_ que pega assim em bombas  mo
    como se mexesse em batatas, ento vae feito com elementos
    reaccionarios para fins que ninguem percebe.

    O facto do juiz de instruco criminal pegar assim em bombas  unha,
    d a nota de que sabia muito bem o quanto ellas tinham de
    inoffensivas.

    Se v., sr. redactor, fosse juiz d'instruco, se fosse um Cyro, um
    _Sota da Praa_, ou outro qualquer Sherlock Holmes de fancaria, j
    teria perguntado ao tal Borges quem  que lhe offereceu 6 contos
    para desempenhar aquelle papel e quem  que lhe dava 1$500 ris por
    dia a elle e a algum outro dos que elle andou a convidar para a tal
    farada.

    Em quanto o governo consentir um juiz d'aquella fora e os
    reaccionarios dentro do paiz, ha de haver destas scenas. Quem  que
    come que na travessa da Palha, n'uma casa de meretrizes, se
    fabricavam bombas? Aquella s do _ex-irmo Hoche_...

    Se fossem bombas verdadeiras, aonde estava elle j?

    Que paiz este!... Quando veremos ns isto s direitas?--De v.
    etc--_X_.


Commentemos esta carta, porque ella d ensejo a desfazer umas _teias de
aranha_ que ainda velam o olhar indeciso de muito patriota.




CAPITULO XII

As bombas de Joo Borges eram pagas pela Joven Portugal


Em primeiro logar, rememoremos os factos... Foi, como j dissmos, na
tarde d'um _domingo morto_ que a policia commandada pelo juiz de
instruco pz em alvoroo a rua dos Correeiros, investindo contra o
deposito de explosivos que Joo Borges ali estabelecera. O juiz tinha ido
ao cemiterio acompanhar um enterro. Em meio da cerimonia funebre,
appareceu-lhe um guarda da judiciaria, enviado pelo chefe Ferreira, e
disse-lhe qualquer coisa ao ouvido. O juiz surpreendido, chamou o Cyro,
que andava proximo, e, largando o enterro, veiu at  travessa da Palha
com o ar preoccupado de quem trazia um mysterio na consciencia.

No _local do crime_, procedeu com o mais completo alheiamento da
gravidade das circumstancias. Subiu a escada do predio suspeito e teria
ido at ao quarto de Joo Borges sem dar por coisa alguma, quando o Cyro
lhe indicou o _criminoso_, que tambem caminhava em direco ao aposento,
placido, sorridente, com aquelle ar de desimportado que to nitidamente
o caracterisa. O juiz mandou-o prender e, assim que se encontrou dentro
do _deposito_, olhou em volta e teve um gesto de receio. As bombas
accumulavam-se em grande quantidade--eram s duzias. Mas o Joo Borges,
que lhe seguia ironico os movimentos, apressou-se a socegal-o:

--No tenha medo... esto descarregadas.

O mais modesto dos policias teria desconfiado n'esta altura que o
deposito dos explosivos tentava liquidal-o, deixando que elle proprio
provocasse a aco destruidora d'um d'esses engenhos. Mas o juiz no
pensou em tal. Para provar que era homem sem medo, sorriu-se como o Joo
Borges e, pegando n'uma bomba, revirou-a cuidadosamente nos dedos.
Depois ainda fez umas consideraes de caracter philosophico sobre a
propaganda libertaria que o Cyro, valha a verdade, no percebeu, e sahiu
da rua dos Correeiros para se internar no seu gabinete da Bastilha, a
reflectir maduramente na descoberta, que, segundo confessou logo no dia
seguinte, lhe fra indicada pelo presidente do conselho, pelo chefe do
governo.

A noticia da diligencia espalhou-se ao comeo da noite por uma frma
extraordinaria. A seguir  priso de Joo Borges, a policia fez outras
capturas, quasi todas no mesmo local da primeira, e a _Bastilha_
principiou a trabalhar, avida e tenazmente, na descoberta dos cumplices
do proprietario de tanto cylindro metallico destruidor. Para os que
estavam no segredo do caso, a priso de Joo Borges era uma consequencia
natural da sua _insouciance_. Desimportado como sempre fra, admirava
at que ha mais tempo a policia o no tivesse incommodado e chamado a
capitulo. Mas, para a maioria, a diligencia policial envolvia um ponto
de interrogao que a carta n'outro logar reproduzida assignala por
maneira inilludivel.

[Ilustrao: As foras revolucionarias na Rotunda]

No domingo  noite, nos centros de cavaco, o caso foi discutidissimo. E
como o juiz, n'uma nota para a imprensa, affirmasse que Joo Borges lhe
confessara ter fabricado explosivos para os utilisar logo que ao governo
Teixeira de Sousa succedesse um governo reaccionario, estabeleceu-se
immediatamente uma corrente de opinio que um dos commentadores
eventuaes do caso resumia d'este modo:

--A scena passou-se assim... O Teixeira de Sousa, por intermedio do
Alpoim e este por intermedio de um dos seus antigos companheiros de
lucta no 28 de janeiro, conseguiu que o Joo Borges, de boa f,
arranjasse as bombas. Logo que soube que ellas estavam prestes a servir,
denunciou o fabricante ao juiz de instruo e com a declarao
attribuida ao Joo Borges de que as bombas s rebentariam sob as patas
de um ministerio reaccionario, faz o seu jogo no pao e consegue
facilmente convencer o rei D. Manuel de que, emquanto elle estiver no
poder, nada tem a receiar por parte dos elementos mais avanados;

Outra verso dava o Joo Borges identificado com a policia para armar
uma _pavorosa_ e d'essa, por influencia de diversos libertarios, se fez
echo a maioria dos jornaes. Mas em todas ellas surgia sempre esta
pergunta maliciosa que, no simples enunciado, lanava immenso veneno nas
intenes do revolucionario preso:

--Quem lhe deu o dinheiro para o fabrico das bombas? _Aquillo_ custa
caro... O Joo Borges no tem _cheta_...

Por outro lado, a maneira serena e at chocarreira como o preso encarava
a sua priso, a attitude quasi de desafio que elle, ironico e
desdenhoso, lanava  policia, quando esta, atormentada e preoccupada, o
arrancava  esquadra do Caminho Novo para os interrogatorios no juizo de
instruco, tudo isso chocava a opinio _seria_ e _pacata_,
predispunha-a pessimamente contra a victima da _Bastilha_. Se Joo
Borges, ao atravessar as ruas de Lisboa n'essa peregrinao estopante,
longe de se sorrir para os amigos e conhecidos, bem disposto, com o ar
de quem no teme as garras da auctoridade, evidenciasse uma gravidade de
compostura equivalente  gravidade da sua situao, ento, sim, ento 
que a opinio _seria_ e _pacata_ o olharia como um martyr da Ideia e o
lastimaria por no haver chegado ao fim da sua obra demolidora.

Ninguem ou quasi ninguem se recordava de que Joo Borges evidenciara
desde a sua appario nos centros revolucionarios essa _insouciance_ do
perigo a que j nos referimos; ninguem ou quasi ninguem fazia reviver na
memoria esse trao nitido da sua individualidade e que Joo Borges, para
explicar ao primeiro curioso que o defrontasse o funccionamento de uma
bomba, raras vezes olhava primeiro em volta a verificar se algum _bufo_
o espreitava. E como no era natural que a pessoa ou pessoas que o
tinham auxiliado monetariamente no fabrico das bombas viessem n'essa
altura proclamar em publico e raso a verdadeira proveniencia do dinheiro
que a opinio _seria_ e _pacata_ via constantemente ao lado do tal ponto
de interrogao, as entrelinhas sobre Joo Borges, as phrases reservadas
a respeito do seu procedimento esvoaavam de grupo em grupo, creando-lhe
uma atmosphera antipathica.

Ia longe o tempo em que a descoberta d'um deposito de bombas
correspondia ao silencio receioso da grande maioria e revestia um tal
caracter de coisa sensacional que poucos, muito poucos mesmo, se
atreviam a referir-se-lhe sem palavras de condemnao. Mas se esse tempo
j ia distante, o certo  que s uma infima parcella de revoltados
encarava desassombradamente a priso de Joo Borges. O resto encolhia-se
n'uma prudente apreciao, vaga e indefinida... no fosse a historia
futura revelar que o dinheiro utilisado na compra dos materiaes
indispensaveis  confeco dos engenhos sahira do cofre da _Bastilha_,
da burra do sr. Antonio Centeno ou da caixa do Quelhas...

Dois ou tres jornaes acabaram por dissipar taes receios e desconfianas.
Dois ou tres artigos, um d'elles escripto por Jos Barbosa--um dos
membros do Directorio do Partido Republicano--rehabilitaram na grande
massa o fabrico dos explosivos e salientaram a coragem dos fabricantes.
E era justo que isso se fizesse. No se comprehendia que, uma vez
lanados no caminho da actividade revolucionaria todos os homens que se
dicidiam em dado momento a auxiliar a implantao da Republica, os que
promoviam essa implantao na cupula d'uma chefia organisadora os
abandonassem  ferocidade da _Bastilha_ e os no soccorressem com o
incentivo de um elogio, que, at certo ponto, lhes podia dulcificar as
agruras do carcere. Se n'outras epocas de preparao da Revolta, os
acontecimentos se no desenrolaram com a mesma logica e os dirigentes
d'essa preparao procuraram, antes de se solidarisarem com graves
responsabilidades, afastar do seu campo de aco o menor indicio de
convivencia com libertarios, no caso de Joo Borges--justo 
consignal-o--a honestidade de consciencia sacrificou quaesquer
pensamentos de cobardia e os _bombistas_ tiveram a seu lado alguns dos
homens que lhes haviam solicitado a necessaria collaborao. E um
d'esses homens, assim que teve ensejo de transpr triumphante os
humbraes da _Bastilha_, a sua primeira _dmarche_ consistiu exactamente
em libertar as victimas do juiz de instruco, os revolucionarios que
elle enclausurara por effeito do fabrico de explosivos. Tinha essa
divida a saldar e saldou-a primeiro que a qualquer outra.


Afinal, quem forneceu dinheiro ao Joo Borges para o fabrico das
bombas?... A _Joven Portugal_ (fraco da Carbonaria) por intermedio de
Manuel Bravo. As bombas, importadas do estrangeiro, durante a
organisao do 28, tinham _provado_ mal--eram verdadeiras bombas de
fancaria--e necessitava-se, para o novo movimento, de explosivos que
_cumprissem_. Recorrera-se ento  industria nacional, em que se
occupavam no s aquelle revolucionario como outro de grande relevo em
toda a agitao politica comprehendida no periodo de 1907 a 1910--o
operario Jos Nunes. Falemos d'elle com alguma minucia, porque o merece.


Obrigado em 1908 a exilar-se em Africa para no cahir nas garras da
policia, por l andou algum tempo, luctando desesperadamente contra o
clima, mas sem perder a confiana cega que possuia n'um proximo advento
da Republica. Assim, logo que poude regressar a Lisboa e foi readmittido
na Imprensa Nacional, continuou a trabalhar dedicadamente no fabrico de
explosivos, aperfeioando-se n'uma _arte_ que, para elle, j no tinha
segredos.

Um dia o actor Vieira Marques procurou-o e convidou-o a fazer parte d'um
grupo que se destinava a auxiliar _praticamente_ a Junta Liberal na sua
campanha de exterminio das ordens religiosas. Esse grupo, porm, no
tinha a menor ligao com a Junta, que ignorava, em absoluto, a sua
existencia. A Junta fazia a propaganda pela palavra e pela escripta; o
grupo em questo propunha-se fazel-a pelo facto. Jos Nunes, que alis
no pertencia a nenhuma das divises da Carbonaria, acceitou o convite e
assim nasceram os _Mineiros_ (seis individuos) dirigidos pelo
photographo Virgilio de S.

[Ilustrao: Machado Santos]

As attenes do grupo fixaram-se principalmente em dois dos focos
occupados pela reaco: o convento do Quelhas e a capella da travessa
das Mercs. Tornava-se urgente destruil-os a ambos. Jos Nunes recebeu a
incumbencia de preparar os apparelhos indispensaveis a essa destruio.
O _engenheiro_ dos _Mineiros_ fabricou uma bomba enorme que mais tarde
esteve exposta no Museu da Revoluo--bomba que, sendo destinada ao
Quelhas, devia, apoz a exploso, espalhar no ambiente grande quantidade
de gazes deleterios. O actor Vieira Marques, tres noites consecutivas,
aventurou-se a entrar na cerca do famoso convento, afim de escolher o
local mais apropriado  collocao do engenho destruidor--visto que os
_Mineiros_ queriam poupar  tragica sentena as numerosas creanas ali
internadas.

Para o ataque  capella da travessa das Mercs, Jos Nunes tambem
principiou a confeccionar outro apparelho de identico poder combativo. E
foi elle proprio que uma noite de novena entrou no templo, onde os
frades da Aldeia da Ponte haviam estabelecido o seu quartel-general, e
_reconheceu o terreno_. Mas nenhum dos dois projectos foi por deante,
porque n'esta altura do periodo revolucionario, o _engenheiro_ dos
_Mineiros_ recebeu convite do grupo _Vedeta_ (filiado na Carbonaria)
para lhe fabricar uma certa poro de bombas. O grupo _Vedeta_ era
dirigido por Carlos Kopke e Roque de Miranda. Jos Nunes devotou-se com
enthusiasmo  satisfao da encommenda e a Revoluo triumphante
surprehendeu-o em meio do seu perigoso trabalho.




CAPITULO XIII

O comit executivo de Lisboa procede a um inquerito


Entramos agora no periodo preparatorio do movimento que implantou a
Republica. Esse periodo comea precisamente com o congresso republicano
reunido em 1908 em Setubal. No intervallo entre essa reunio e o
regicidio, o ministerio Ferreira do Amaral procurara consolidar as
instituies monarchicas conservando a politica interna n'uma inercia
caracteristica. O Directorio, calculando que a liquidao do dia 1 de
fevereiro actuara desfavoravelmente no espirito de muita gente e
suppondo que o momento no era azado para se iniciar um movimento serio
em favor da Ideia, aconselhava uma phase de tranquilidade e de treguas
que no podia servir de estimulo aos verdadeiros revolucionarios.

No Congresso de Setubal, a eleio do Directorio constituiu, como outras
deliberaes da assembla, uma grande surpreza para o publico. Na lista
vencedora incluiam-se nomes que poucos esperavam vr proclamados. O
_comit Alta Venda_, tendo effectuado antes do congresso uma reunio
preliminar, decidira influir no acto eleitoral de modo que no Directorio
entrassem elementos de aco nitidamente revolucionaria e assim
succedeu. Como effectivos, a Carbonaria conseguiu vr eleitos Bazilio
Telles e Euzebio Leo e como substitutos Malva do Valle, Leo Azedo,
Innocencio Camacho e Jos Barboza. Feita a eleio, Joo Chagas propoz e
o congresso approvou a nomeao d'um organismo incumbido de, junto do
Directorio, proceder aos trabalhos de preparao revolucionaria. Findo o
congresso, Innocencio Camacho e Jos Barboza entraram logo, por
circumstancias occasionaes, na effectividade dos cargos, e o organismo
acima referido ficou constituido por Joo Chagas, Antonio Jos d'Almeida
e Affonso Costa.

Antonio Jos d'Almeida, ento ligado  Carbonaria, vasta rede de bons
elementos a que--como j tivemos ensejo de alludir--Luz d'Almeida
dedicara um esforo de gigante, assumiu a direco dos trabalhos
revolucionarios entre a classe civil, trabalhos que no eram mais do que
a sequencia natural d'outros anteriormente effectuados, e, dentro em
pouco, comeou a funccionar um _comit_ especial que alis teve curta
existencia, porque Antonio Jos de Almeida, doente, foi forado a partir
para Carlsbad e Luz d'Almeida, perseguido por causa das associaes
secretas, expatriou-se. Da aco exercida pelo _comit executivo de
Lisboa_--o _comit_ nomeado em virtude da resoluo do congresso de
Setubal--fala Joo Chagas n'estes termos:


Uma vez constituido, o _comit_ procurou dar aos seus trabalhos um
caracter absolutamente pratico e passar em revista, digamos assim, os
elementos com que era possivel contar para o momento opportuno.

No primeiro semestre de 1908 fizemos um inquerito minucioso s foras
militares, para avaliar do estado da ideia republicana dentro dos
quarteis e dos navios de guerra. Necessitavamos ter uma noo nitida e
clara da situao, para proseguir com confiana na propaganda da
revolta. Esse inquerito resumi-o n'um relatorio que apresentmos ao
Directorio do partido e cujos topicos  interessante registar. Antes de
mais nada devo dizer que se notava por essa occasio no exercito uma
certa acalmia, uma tal ou qual espectativa, que embaraava o
proseguimento dos nossos trabalhos. O ministerio Ferreira do Amaral
lanara no espirito de muitos officiaes a ideia de que a monarchia ia
variar de processos e que era provavel ou possivel a entrada do regimen
n'um caminho de regenerao patriotica. Esperava-se, esperavam elles, os
espiritos hesitantes, que um governo honrado puzesse termo  serie de
crimes commettidos desde longa data e no houvesse necessidade de mudar
de instituies para obter, para a vida nacional, a paz e a felicidade
que todos ambicionavam.

No emtanto, a ideia republicana contava adeptos em todos os corpos da
capital e em muitos das provincias. At no grupo de Queluz, que a
monarchia suppunha ser um dos seus fortes esteios, havia officiaes
decididos  revolta. Caadores 5 e caadores 2 estavam bem minados pela
ideia republicana. Artilharia e o estado maior, em summa o campo
entrincheirado, apresentavam muitos officiaes francamente democratas,
que s aguardavam o ensejo propicio de se manifestarem. E se nos
officiaes a semente fructificara lindamente, nos sargentos, nos cabos e
nos soldados a expanso do ideal assumira propores extraordinarias.
Apenas os corpos de cavallaria se mostravam refractarios  boa doutrina,
conservando um respeito idolatra pela reaco, que s difficilmente se
podia remover. Mas repito: ainda n'esses tinhamos elementos de confiana.

Na armada escuso dizer que, mais do que no exercito de terra,
encontravamos dedicaes sincerissimas, verdadeiros heroes dispostos a
tudo para a victoria da Republica. Acode-me o nome d'um official, o
tenente Carlos da Maia, que, sendo immediato da _Limpopo_, empregada no
servio da fiscalisao de pesca nas costas de Portugal, combinara
comigo telegraphar-me de todos os pontos onde o navio ia tocando, para
eu o poder prevenir a tempo do dia marcado para a revoluo. E outros...

[Ilustrao: O acampamento na Rotunda]

Afastados de Lisboa Antonio Jos d'Almeida e Luz d'Almeida,
encontrando-se Eusebio Leo e Cupertino Ribeiro no estrangeiro,
Theophilo Braga e Basilio Telles no norte e Jos Relvas em Alpiara
entregue aos trabalhos agricolas nas suas propriedades, o Directorio
apparece reduzido a Jos Barbosa e Innocencio Camacho e o _Comit
executivo de Lisboa_ a Joo Chagas e Candido Reis, visto que Affonso
Costa tambem sahira da capital por motivo de doena. Mas isso no impede
que a propaganda revolucionaria prosiga activamente. Sobe ao poder o
ministerio Teixeira de Sousa e esse facto, longe de provocar nos
organisadores da revolta pensamentos de tregua, intensifica-lhes a aco.

O pseudo liberalismo do ministerio regenerador, do ultimo ministerio da
monarchia, longe de contrariar a propaganda revolucionaria, favorece-a.
O sr. Teixeira de Sousa, por mais anodyno que se mostre  populao
republicana,  sempre um inimigo, porque  sempre um defensor do throno,
um serventuario do velho regimen. Ninguem o julga capaz d'um _gesto_
formidavel, que obrigue o monarcha reinante a desprender-se dos braos
setinosos da reaco, a libertar-se d'essa influencia perniciosa que o
sr. Ferreira do Amaral mezes antes assignalara como emmaranhando a crte
portugueza n'uma teia de fanatismo e despotismo. O sr. Teixeira de
Sousa, muito embora reconhea a necessidade de modificar o existente,
no  estadista para fazer a Republica. Tem de cuidar, antes de tudo, da
sustentao d'uma clientella partidaria, tem de procurar, n'um embate de
politica mesquinha, a liquidao absoluta dos seus adversarios
monarchicos e no  certamente com o cultivo sincero da massa popular
que elle se dispor a investir contra o clericalismo triumphante, a
satisfazer as justas aspiraes dos liberaes.


Antes de 15 de setembro de 1909, produz-se um facto que determina uma
nova _pousse_ do movimento organisador da revolta. Em certa noite,
apparecem no Centro de S. Carlos onze tripulantes d'um navio de guerra
portuguez, manifestando desejos de falar a qualquer dos membros do
Directorio. So recebidos pelos srs. Guilherme de Sousa, vice-presidente
do Centro e Cordeiro Junior e Julio Maria de Sousa, da commisso
municipal republicana. Um d'esses homens fala sem rebuo: elle e os seus
camaradas tencionam insubordinar-se a bordo do _D. Carlos_, j estudaram
e adoptaram um plano de revolta e querem saber se o Directorio lhes
sancciona e apoia a tentativa. O sr. Guilherme de Sousa convida-os a
voltarem ao Centro no dia immediato e apressa-se a communicar o facto
aos dois membros do Directorio que n'essa altura servem assiduamente a
Revoluo: Jos Barbosa e Innocencio Camacho.

A principio, um e outro d'esses republicanos receiam que a _dmarche_
dos onze marinheiros constitua uma cilada. Mas como no seria de boa
pratica abandonal-os inteiramente  execuo de qualquer projecto
sedicioso e o almirante Candido dos Reis j tinha posto Machado Santos
em contacto com os dois membros do Directorio, Jos Barbosa e Innocencio
Camacho resolvem: 1. attender os marinheiros que expontaneamente veem
ao encontro dos seus planos revolucionarios; 2. pedir a Machado Santos
que os assista no contacto com esses patriotas para lhes reconhecer a
identidade.

Tomam, para isso, certas medidas de precauo e combinam com o almirante
Candido dos Reis o avistarem-se com Machado Santos em determinada noite
na praa Luiz de Cames. D'ahi seguiro depois a estabelecer contacto
com os marinheiros. Mas para que ninguem suspeite da gravidade da
_dmarche_, esse encontro com Machado Santos  feito com o ar
desembaraado de velhos conhecimentos. Machado Santos  acompanhado at
o local por Luz d'Almeida para que tanto Innocencio Camacho como Jos
Barbosa reconheam n'elle o enviado de Candido dos Reis. Os marinheiros
que surgem n'essa occasio a insistir n'uma tentativa de revolta j no
so apenas os representantes da guarnio do _D. Carlos_; teem, sim, a
delegao das guarnies de todos os navios surtos no Tejo. Da praa
Luiz de Cames, Machado Santos, Jos Barbosa e Innocencio Camacho e os
marinheiros seguem para casa d'um d'estes, no Conde Baro. Durante o
trajecto, Machado Santos, para obter a certeza de que elle e os dois
membros do Directorio no sero victimas d'um _guet-apens_, interroga
habilmente os marinheiros sobre os navios a que pertencem, o armamento
de que dispe cada um dos barcos, etc., e pelas informaes colhidas
convence-se e convence Jos Barbosa e Innocencio Camacho de que no ha
duvida em tratar lealmente com esses commissionados das foras navaes.

Uma vez entrados na tal casa do Conde Baro e prevenida a hypothese
d'uma surpreza policial, os marinheiros expem o seu plano,
accrescentando que o tencionam pr em execuo d'ahi a poucas horas.
Contam poder sublevar 1.000 dos seus camaradas: 500 d'elles
desembarcaro a um signal dado e apoderar-se-ho do Arsenal do Exercito
para terem immediatamente  sua disposio armas e munies. (Diga-se
entre parenthesis: ao contrario do que o governo monarchico espalha com
insistencia, o _comit_ da Revoluo tem a certeza, por informaes
seguras de officiaes republicanos, de que as armas em deposito no
Arsenal no esto provisoriamente inutilisadas, mas possuem os
percutores e servem admiravelmente na primeira opportunidade). Os
marinheiros contam tambem, para os auxiliar na sua tentativa, com o
nucleo de civis formado pela Carbonaria e que comprehende 6.000 homens,
antigos soldados e marinheiros, aptos a manejar com acerto uma arma de
fogo.

[Ilustrao: Ladislau Parreira]

Feito o ataque ao Arsenal, occuparo o palacio das Necessidades e,
tomando o rei e a familia como refens, obrigam d'esse modo as foras
fieis a conservar-se inactivas.  este o plano dos audaciosos patriotas,
que elles desenvolvem perante Machado Santos e os representantes do
Directorio com a mesma serena tranquillidade com que outros dos seus
camaradas propem mais tarde a um dos dirigentes republicanos aprisionar
o sr. D. Manuel n'uma annunciada visita do soberano ao quartel
d'Alcantara. A tentativa, porm,  arriscada e torna-se necessario, para
que se no repita uma scena identica  da insubordinao de 1906, evitar
que os marinheiros a ponham em pratica, como elles dizem, no curto prazo
de vinte e quatro horas. Jos Barbosa e Innocencio Camacho falam, n'esse
sentido, aos briosos rapazes. Machado Santos impe-se-lhes energicamente
e ao cabo de longa discusso os tres obteem a promessa de que o projecto
revolucionario ser addiado para melhor ensejo, isto  para quando
estiverem concluidos os trabalhos encetados sob a gide do Directorio.
Mas tomam o compromisso formal de lhes preparar rapidamente o advento da
Republica, para que no supportem por muito tempo ainda o regimen de
suspeio e de incerteza de que se queixam amargamente. De caminho,
allude-se  _sabotage_ como um meio de modificar a situao em que os
marinheiros se encontram a bordo e por duas ou tres vezes o Directorio
recebe a noticia de que elles a praticam com exito.


Decorrem alguns dias e, tendo regressado a Lisboa os membros ausentes
d'aquelle organismo republicano e do _comit_ executivo de Lisboa, Jos
Barbosa e Innocencio Camacho narram-lhes o succedido e todos concordam
na urgencia da preparao decisiva do movimento. Entra-se a fundo na
materia. A propaganda do lado do elemento militar toma aspecto
differente n'um impulso energico e resoluto; a Associao Carbonaria
Portugueza alarga a esphera da sua interveno junto dos grupos
revolucionarios civis.

Em 14 de junho de 1909 a Maonaria effectua uma sesso magna, convocada
expressamente para se deliberar sobre a opportunidade d'uma obra, que se
esboa vagamente ser a Republica, mas que no  revelada nos seus traos
intimos  quasi totalidade dos irmos. N'essa reunio, fala o
gro-mestre, o sr. dr. Jos de Castro, para propr a nomeao d'um
_comit_ incumbido de executar ou, melhor, de preparar a execuo da
obra citada. A assembla toma conhecimento da proposta e o gro-mestre
reserva-se o direito de nomear elle proprio o _comit_ cuja formao
deve at ao ultimo momento constituir assumpto da maior reserva.
Impe-se o segredo rigoroso, porque, a dentro da Maonaria, existem
elementos de pouca confiana n'um to grave emprehendimento.

O _comit_, que toma o nome de Commisso de Resistencia, fica composto,
alm do dr. Jos de Castro, por Simes Raposo, Machado Santos, Miguel
Bombarda, Francisco Grandella e Cordeiro Junior. O seu primeiro cuidado
 o de approximar-se do Directorio do partido republicano, o de
estabelecer contacto com esse organismo para conjugar com elle os
esforos tendentes ao derrubar da monarchia. O Directorio acceita sem
restrices a interveno do Grande Oriente, e, prvio accordo, o
_comit_ maonico trata de agrupar, de disciplinar, de aproveitar os
organismos revolucionarios j ento creados e que trabalham n'um
isolamento de pouca ou nenhuma proficuidade. Essa aggregao  feita com
extrema cautela. O _comit_ chama ao seu ambiente os elementos de que o
proprio Directorio dispe, os da Carbonaria, representada pelo
engenheiro Antonio Maria da Silva, os do grupo Accacia, representado por
Martins Cardoso e os da Joven Portugal, a que pertence, entre outros, o
dr. Carlos Amaro. E uma vez combinada a aco commum, diligenciam passar
 fieira todos os individuos que se lhes affiguram capazes d'um esforo
em prol da Republica.


Ventila-se depois a questo do dinheiro. Uma revoluo, nos tempos
modernos, no se faz sem essa mla imprescindivel. Ha necessidade de
comprar armamento e de subvencionar outras despezas e o cofre do
Directorio republicano no tem o sufficiente para tal empreza. Logo que
se pensa a srio na realisao do movimento, constitue-se uma commisso
financeira, inteiramente separada da commisso administrativa do partido
e formada por Antonio Jos d'Almeida, Bernardino Machado, Magalhes
Basto e Jos Barbosa. Constituida a commissso, trata-se de calcular o
que custar o movimento.

Quinhentos contos? Quatrocentos contos? Trezentos?...

As opinies variam e um dia em que isso se discute com um certo calor,
Affonso Costa apresenta uma base oramental um pouco mais modesta:
setenta contos. Faz um calculo identico ou approximado aos de Joo
Chagas e almirante Candido dos Reis. Setenta contos, na opinio de
qualquer d'elles, deve chegar para as despezas da Revoluo. Falta fixar
o modo de obter essa quantia. Como? Sacando antecipadamente sobre a
Republica?  processo que no encontra quem o defenda. Um emprestimo? De
todos os alvitres estudados  este, afinal, o que concita um maior
numero de adheses. Mas, ainda assim, a ida no tarda a ser posta de
parte e a commisso financeira assenta que ser relativamente facil
reunir cem contos por intermedio de 25 correligionarios dedicados, cada
um d'elles procurando obter quatro contos entre os seus amigos pessoais.

A commisso financeira, porm, nunca funcciona regularmente e, aps
diversas hesitaes, Eusebio Leo, Jos Relvas, Jos Barbosa e
Innocencio Camacho deliberam formar o cofre revolucionario apenas com os
donativos secretos. Essa deliberao obedece talvez  velha ida de que
_dinheiro no falta_. E como _dinheiro no falta_, Jos Barbosa,
Innocencio Camacho, Machado Santos e o engenheiro Antonio Maria da
Silva, reunindo-se frequentemente no escriptorio do _Estado de S.
Paulo_, occupam-se dedicadamente da acquisio de espingardas, pistolas
e revolvers. Machado Santos e o engenheiro Antonio Maria da Silva
descobrem a breve trecho o que elles chamam a soluo do problema.
Encontra-se  venda um lote de 33:000 espingardas de bom modelo que a
Suissa acaba de substituir no armamento do seu exercito. Cada uma sahe
pelo preo de 3$000 ris.  de graa... Pelos calculos feitos a
Revoluo Portugueza necessita de 5:000 armas, o que equivale a uma
somma approximada de dezeseis contos de ris. Toca a comprar. _Dinheiro
no falta_... Innocencio Camacho e Jos Barbosa escrevem a Antonio Jos
d'Almeida, solicitando-lhe a incumbencia de effectuar a transaco.
Antonio Jos d'Almeida accede de bom grado e aguarda n'uma capital
europeia que em Lisboa se reuna o dinheiro indispensavel.

Mas os dias passam, o dinheiro no apparece e a transaco no se
effectua. Uma parte do lote suisso vae para o Paraguay, onde d'ahi a
mezes serve n'uma revolta de caracter partidarista, e Antonio Jos
d'Almeida regressa a Lisboa sem ter conseguido remediar de qualquer modo
o _fiasco_. Isto, comtudo, no entrava seriamente a organisao do
movimento. Mantendo-se a ideia de alimentar o cofre revolucionario com
os donativos secretos, os organisadores tratam de, com a maior reserva,
expedir umas cartas aos elementos republicanos de reconhecida abnegao
e, dentro de semanas, de dias at, comeam a affluir diversas quantias
que Eusebio Leo, como thesoureiro, escriptura de maneira symbolica. O
cofre-forte da Revolta  uma mala de viagem que Eusebio Lio, cauteloso
e meticuloso, faz guardar todos os dias no estabelecimento de modas de
seu irmo Ramiro e sem que este o saiba...  medida que o dinheiro
afflue, vae-se realisando a compra de armamento, por pequenas pores,
ficando depositario do material o negociante Martins Cardoso.

[Ilustrao: A Bandeira da Revoluo]

Esta colheita secreta de dinheiro d origem a varios incidentes
curiosos. Jos Barbosa narra d'este modo um d'esses incidentes:


Um dia Manuel Bravo foi ao meu escriptorio confiar-me para a Revoluo
200$000 ris do negociante Alves de Mattos. No dia immediato procurou-me
o socio d'esse negociante, Alexandre Paes, e, falando com animao
desusada, queixou-se de que Alves de Mattos desdenhara do proposito em
que estava de contribuir para o cofre revolucionario e que, para provar
ao socio que tambem possuia bens de fortuna, subscreveria para o mesmo
cofre com 1:000$000 de ris. Mas, na realidade, s me confiou, deante do
socio, a decima parte d'essa quantia e sahiu do meu escriptorio
agitadissimo e monologando cousas phantasticas.  noite tive noticia de
que enlouquecera. Dias depois succedeu-me ir s 10 e 50  estao do
Rocio aguardar, na companhia de Joo Chagas, a chegada d'um
correligionario que vinha do Porto. Mal o comboio parou, vejo o Paes
sahir alvoroado d'uma das carruagens e, defrontando-me, desatou a
alludir, em altos gritos, ao supposto donativo de 1:000$000 ris que
queria fazer ao cofre revolucionario. Perto andava um cabo de policia e,
segundo me contaram depois, o infeliz j dentro do comboio havia
affirmado em alto e bom som essa contribuio generosa. A imprudencia do
louco podia custar-nos cara.


A provincia tambem se desentranha em dedicaes extraordinarias para
alimentar o cofre revolucionario. Estevo Pimentel, Manuel Alegre, Malva
do Valle, Ricardo Paes e os republicanos de Alhandra, Villa Franca,
Portalegre, Porto e do Algarve tambem fornecem muitas armas.
Independentemente da actividade de todos esses correligionarios, muitos
outros se armam  sua custa e armam os amigos, comprando revolvers e
pistolas em Hespanha, passando-as para Portugal dentro de malas de mo,
arriscando descuidosamente a liberdade. Do Brazil os organisadores do
movimento recebem, por egual, valioso auxilio monetario e ainda j
depois de proclamada a Republica vem a caminho de Lisboa determinada
quantia ali angariada por intimos de Jos Barbosa.

N'um determinado momento, o almirante Candido dos Reis foi percorrer a
provincia para avaliar com segurana da situao creada pela organisao
revolucionaria Acompanhou-o n'essa misso o official de caadores sr.
Pires Pereira. No regresso, a impresso do illustre marinheiro era to
favoravel ao desenlace feliz do movimento que foi decidido desde logo
apressal-o e sahir  rua dentro de breve espao de tempo. Ninguem
duvidava do exito. Tudo corria s mil maravilhas. Os elementos
revolucionarios manifestavam um ardor que era impossivel conter.




CAPITULO XIV

Nas barbas da policia realisam-se diversas revistas revolucionarias


O _comit_ de resistencia formado pela Maonaria reunia, no emtanto, em
casa e no escriptorio do dr. Jos de Castro, nos Makavencos, no Gremio
Lusitano, no Centro de S. Carlos, em casa do sr. Francisco Grandella,
etc. Dos trabalhos d'esse _comit_, conta-nos o sr. Simes Raposo o
seguinte:


A partir de determinado momento, as reunies do _comit_ de resistencia
e seus adherentes passaram a effectuar-se diariamente no centro de S.
Carlos, presididas pelo dr. Miguel Bombarda que, diga-se desde j, foi
sempre d'uma assiduidade notavel, d'uma dedicao sem limites.

Ao cabo d'algum tempo de preparao o _comit_ principiou a organisar
as suas foras de combate, distribuindo-as segundo um plano
cuidadosamente traado e marcando bem nitidamente o papel que cada um
dos grupos de revoltosos devia desempenhar no momento propicio. No
emtanto, as adheses chegavam-nos, sempre no meio de caloroso
enthusiasmo, e todas as noites, n'um gabinete do Centro de S. Carlos,
soldados, cabos e sargentos, populares  mistura, affirmavam
peremptoriamente a necessidade da Revoluo, dispostos at a verdadeiros
actos de loucura. Candido dos Reis no assistia a essas vibraes da
alma revolucionaria mas palpitava-as atravez d'uma porta que separava
duas salas do centro e assim andava perfeitamente orientado sobre a
marcha crescente da nossa propaganda.


N'essa altura j estava constituido o _sub-comit_ militar formado por
Candido dos Reis, Fontes Pereira de Mello, coronel Ramos da Costa e
capito Palla. Fixou-se uma data para a Revoluo: a de 15 de julho de
1910. Mas, chegado o momento soube-se com alvoroo que o segredo dos
conspiradores fra descoberto e que as auctoridades militares iam tomar
providencias para impedir que a revolta estalasse. O movimento foi adiado.


O adiamento--refere-nos o sr. Jos Barbosa--impressionou
desagradavelmente os officiaes que estavam no segredo do _complot_. No
dia immediato, vi alguns d'elles arrepelarem-se com sinceridade,
verterem at lagrimas de raiva por se ter contra-mandado a revolta.
Carlos da Maia, official de rara valentia, entrou no meu escriptorio
agitadissimo e colerico, disposto, apesar de tudo, a tentar uma
sublevao de marinheiros. Estes, por seu lado, tambem no cessavam de
solicitar, de pedir que apressassemos o inicio do movimento, do
contrario suicidar-se-hiam n'uma tentativa de exito improvavel, sahindo
 rua contra todas as indicaes dos organisadores da Revoluo. A
propaganda de alguns mezes aquecera-os ao rubro.


Depois de 15 de julho, multiplicaram-se as reunies de officiaes em
diversos pontos da cidade--na redaco das _Cartas Politicas_ no Arco do
Bandeira juntaram-se por vezes vinte e mais representantes da guarnio
de Lisboa--fez-se outra compra de armamento e, aproveitando-se a energia
do nucleo de militares que desde o comeo haviam mantido a mais completa
adheso  Republica, produziu-se um trabalho galopante que fatalmente
devia aluir com rapidez as instituies monarchicas.


A primeira quinzena de agosto--affirma Joo Chagas--foi empregada
n'essa corrida veloz para a revoluo. E to bem e to utilmente ou
proficuamente se trabalhou que tornmos a fixar data para o desenrolar
do movimento: a noite de 19 para 20 d'esse mez. E fixmol-a, porque,
segundo a opinio dos officiaes de marinha que nos acompanhavam, era a
noite em que a bordo do _D. Carlos_ se dava um conjuncto de
circumstancias absolutamente vantajoso para a revolta. N'essa noite tudo
concorreria para que a victoria fosse alcanada sem grandes difficuldades.

Comtudo,  ultima hora, alguem denunciou o movimento ao chefe do
gabinete regenerador. E succedeu o que todos sabem: ordem aos navios de
guerra para sahirem a barra, prevenes nos quarteis, a policia vigiando
rigorosamente a cidade, etc. O Teixeira de Sousa teve perfeito e
minucioso conhecimento do _complot_ e informaram-no com verdade do
caracter que o revestia. Mas, para no desmentir os boatos postos em
circulao de que o governo contava n'esse momento com um falso apoio
dos republicanos, calou-se e habilmente attribuiu as medidas de rigor
que tomra  necessidade de suffocar uma _intentona_ reaccionaria.


Este segundo adiamento, longe de fazer esmorecer os organisadores da
revolta, produziu effeito diametralmente opposto. N'uma reunio especial
no Centro de S. Carlos, levada a effeito no domingo 25 de setembro, a
que assistiram, entre outros, Candido dos Reis, o capito S Cardoso e o
tenente Helder Ribeiro, o _comit_ de resistencia submetteu  apreciao
dos representantes do _comit_ militar um resumo das suas foras
disponiveis, com as indicaes dos locaes em que deviam operar e da
funco attribuda a cada grupo de revoltosos, e esses representantes
estudaram minuciosamente o trabalho da organisao civil que, diga-se em
abono da verdade, embora no tivesse sido reproduzido em cifra no papel,
era absolutamente incomprehensivel para os profanos. N'outra reunio
effectuada no consultorio do dr. Eusebio Leo, Candido dos Reis affirmou
aos membros do Directorio que havia elementos em quantidade sufficiente
para tentar a queda da monarchia e em successivas conferencias os
officiaes que a ellas compareceram affirmaram a mesma coisa, dando a
certeza de que a Republica em breve seria proclamada.


Precisamos voltar atraz para registar um pormenor de organisao, que
Jos Barbosa descreve n'estes termos:


Em outubro de 1909 a propaganda tomou maior incremento. Na primeira
reunio do Directorio e da Junta Consultiva, realisada n'esse mez, como
os marinheiros continuassem a affirmar que se sublevariam a breve trecho
e fosse necessario entrar a fundo nos trabalhos de preparao da
revolta, puz a questo com toda a franqueza: o partido republicano, no
caso d'uma insurreio naval, no abandonaria os insurrectos e antes
lhes daria a sua solidariedade moral e material. O assumpto foi
debatido. Affonso Costa apoiou-me energicamente e todos concordmos em
que era indispensavel atacar o regimen monarchico n'um golpe decisivo. A
Junta Consultiva tambem se pronunciou pela aco immediata e d'ahi a
dias tommos conhecimento do inquerito feito pelo _comit_ executivo aos
officiaes republicanos, iniciando-se logo aps esse inquerito as
ligaes entre os elementos que se suppunham isolados. Joo Chagas e
Candido dos Reis trabalharam n'essa altura com uma febre indescriptivel.
Dia a dia, Joo Chagas reunia nas _Cartas Politicas_ tres e mais
officiaes de marinha e do exercito de terra que, ao entrarem em
contacto, se surprehendiam immenso de ver ao lado da Republica camaradas
do mesmo regimento ou do mesmo navio que consideravam monarchicos
retintos ou pelo menos indifferentes.

Essa operao aggregadora representa um esforo extraordinario.
Coincidiu com uma phase activissima da Carbonaria, que contava no seu
seio, por interferencia propagandista do engenheiro Silva, soldados,
cabos e sargentos de toda a guarnio da capital. Precisavamos em cada
regimento, ou em cada navio, relacionar os officiaes republicanos com as
praas adherentes. Procedeu-se cautelosamente a essa ligao, pondo
primeiro em contacto um official com um sargento e depois o sargento com
um determinado numero de cabos e soldados.


O engenheiro Antonio Maria da Silva completa assim o relato de Jos
Barbosa:


Os officiaes passam depois a entender-se directamente com os seus
subalternos e esto permanentemente em contacto com carbonarios, a quem
do indicaes e de quem colhem informaes rigorosas para se
confeccionar o plano da revolta.

Indigitam-se para o elaborar os officiaes: S Cardoso, Helder Ribeiro e
Arago e Mello.  preciso, todavia, dar aos officiaes a certeza material
das foras de que dispomos, e eu fico encarregado de os pr em contacto
com essas foras. Organisam-se, por isso, verdadeiras revistas
militares. Aos soldados so dadas as respectivas senhas. Uma d'ellas :
_pontap na bola_. A _bola_, j se v,  a monarchia com o seu farto
recheio de escandalos: muito _bojuda_, _brigantinamente bojuda_. De uma
vez, Arago e Mello e o carbonario Alberto Meyrelles assistem no jardim
da parada de Campo d'Ourique ao desfile de 150 homens de infantaria 16,
dizendo cada um d'elles ao passar: _pontap na bola_... Alguns at
cantarolavam disfaradamente a senha. Helder Ribeiro fica encantado com
os resultados colhidos. O tenente Jos Ricardo Cabral e o soldado
Domingos passam revista aos postos fiscaes; Helder Ribeiro e o
pharmaceutico Abrantes revistam infantaria 1, lanceiros e cavallaria 4,
o tenente Ocha infantaria 2 e Americo Olavo, caadores 5.

No Rocio realisa-se uma revista em noite de musica. Um verdadeiro
escandalo nas barbas da policia. N'essa noite vo para o largo do Caldas
conferenciar diversos elementos revolucionarios. Arago e Mello passa
ainda em revista engenharia. D'estas experiencias resulta, como no
podia deixar de ser, adquirirem os officiaes a certeza de que, com os
elementos de que dispem, a revoluo tem todas as probabilidades de
triumpho.


Entretanto, os elementos da classe civil prodigalisavam-se em reunies,
em conciliabulos secretos, onde a palavra Revoluo animava, todos os
assistentes, impellindo-os at ao sacrificio da propria vida. A
atmosphera carregava-se dia a dia e de maneira que j ninguem pensava em
adiar o movimento nem em demorar-lhe a marcha fulgurante. Era
absolutamente necessario abrir a valvula, porque, de contrario, a
exploso inevitavel redundaria em prejuizo dos que, com tanto amor e
tanta coragem, haviam projectado a emancipao da nacionalidade. Candido
dos Reis e Miguel Bombarda sustentavam-se corajosamente na brecha. Das
provincias vinham noticias calorosas, que demonstravam a anciedade dos
republicanos pelo rebentar da revolta. Era necessario fixar uma data,
apressar, custasse o que custasse, o advento do novo regimen. O balano
dado pelo _comit_ executivo de Lisboa s foras de que o partido
dispunha garantia a certeza da victoria.

Essa impresso de anciedade era facilmente apprehendida por todos os
organisadores do movimento. At mesmo os temperamentos mais calmos, os
homens cujo sangue-frio repellia imprudencias perigosas, sentiam bem de
perto a necessidade urgente de se fazer _qualquer coisa_, que puzesse
breve termo a uma tal situao.


No dia 25 de setembro, pela 1 hora da tarde, Jos Barbosa e Innocencio
Camacho encontraram-se no campo de Sant'Anna com o general Encarnao
Ribeiro.  primeira pergunta que os dois lhe dirigiram--o movimento 
viavel?--o denodado militar respondeu-lhes com uma affirmao
cathegorica. Restava organisar o plano de combate.

--E em quantos dias se arranja esse plano? inquiriram Jos Barbosa e
Innocencio Camacho.

--O maximo, oito.

[Ilustrao: Bombardeamento do Pao das Necessidades (Janella do quarto
do rei)]

Em face d'esta asseverao nitida, os organisadores do movimento
resolveram incumbir immediatamente a elaborao do plano ao general
Encarnao Ribeiro, capito S Cardoso, official de marinha Arago e
Mello e tenente Helder Ribeiro. Para a aco civil dividiu-se a cidade
de Lisboa em varios sectores, correspondendo essa diviso  importancia
dos diversos nucleos da Carbonaria. O papel d'esses elementos consistia
essencialmente em facilitar a revolta nos quarteis e evitar a
agglomerao da guarda municipal--o tradicional papo dos revoltosos. Os
chefes de grupo eram os srs. Rodrigues Simes, intransigente republicano
de velha data; Antonio Francisco Santos, dr. Carlos Amaro, com larga
folha de servios  causa; professor Antonio Ferro, um conjurado
impenitente; Alberto Meyrelles e um empregado da Companhia das Aguas de
nome Sousa. Todos os chefes eram acompanhados d'um certo numero de
revolucionarios, armados de pistolas, revolvers ou bombas de dynamite e
embora a sua aco parecesse  primeira vista apenas limitada ao
_incendiar do rastilho_, a verdade  que do seu exito dependia o exito
da insurreio e a grande massa de conspiradores assim disseminada pela
cidade arriscava-se, mais facilmente do que qualquer outra, a soffrer as
consequencias funestas de um primeiro embate com as foras fieis 
monarchia.

Ainda havia, segundo o plano elaborado pelos officiaes citados--plano
que se concertava admiravelmente com as indicaes da organisao civil
do movimento--um certo numero de revolucionarios que se entenderiam, na
madrugada propria e nos diversos quarteis, com os elementos
reconhecidamente republicanos ali existentes. Eram elles o tenente Pires
Pereira, o barbeiro Andrade, Jos Madeira, o empreiteiro Oliveira, o
ex-sargento Carvalho, os srs. Godinho e Abrantes e os irmos Lamas, de
Alcantara. Infantaria 5 devia atacar a fora da guarda municipal
aquartelada no Carmo, recebendo de caadores 5 metralhadoras e de
artilharia 1 as peas indispensaveis a um resultado seguro. O ataque
seria feito pelo largo de S. Roque, rua da Trindade e largo da
Abegoaria. Com infantaria 5 cooperaria o regimento de engenharia, que se
esperava sahisse do quartel sob o commando do tenente Alvaro Pope. O
quartel de marinheiros seria invadido pelo 1. tenente Parreira,
acompanhado de alguns officiaes de marinha e d'um grupo de
revolucionarios de Alcantara. O almirante Candido dos Reis iria com
outros officiaes a bordo do _D. Carlos_ e dos outros navios de guerra
para, com a sua presena, a sua coragem e o prestigio do seu nome,
dissipar quaesquer hesitaes de momento.

Os barcos que tinham sahido de Lisboa, ao falhar a tentativa
revolucionaria dos meiados de agosto--por effeito da denuncia que o
chefe do gabinete regenerador recebera de determinado governador civil
fundadamente alarmado com os preparativos de insurreio que
surprehendera na capital do seu districto--voltaram ao fundeadouro no
Tejo em meiados de setembro. Pouco depois, a marinhagem enviava ao
Directorio e ao _comit_ executivo de Lisboa delegados especiaes e
declarava peremptoriamente que no tornava a sair a barra emquanto no
fsse proclamada a Republica ou se procurasse, pelo menos, tentar abalar
o regimen monarchico. Essa resoluo era inadiavel. O cabo Antonio, um
marinheiro decidido e leal, chegou a dizer no Directorio a Jos Barbosa
e Innocencio Camacho:

--Temos que sahir para a revolta custe o que custar. Perseguem-nos a
bordo mais do que nunca e eu e os meus camaradas estamos resolvidos ao
ultimo sacrificio, mesmo a um fuzilamento provavel. No  possivel
prolongar a situao...




CAPITULO XV

Fixa-se a data do movimento e approva-se o plano definitivo


Dias depois, comeou a correr a noticia de que os navios de guerra iriam
para Cascaes no comeo de outubro e o almirante Candido dos Reis,
conferenciando de novo com o Directorio e o _comit_ militar,
ponderou-lhes a urgencia na fixao d'uma data para a revolta. Por outro
lado, o _comit_ de resistencia, conferenciando egualmente com o
Directorio, expz-lhe claramente a situao e a impreterivel necessidade
de a liquidar. O Directorio pensou, e muito bem, que, embora estivesse
prompto a sanccionar a tentativa revolucionaria, precisava obter a
garantia de que o movimento, a realisar-se, no se desenrolaria
anarchicamente, mas sim com uma disciplina e uma ordem honrosas para a
collectividade democratica. Combinou-se ento confiar essa affirmao
decisiva a um arbitro e o Directorio acceitou Candido dos Reis n'esse
posto de enorme responsabilidade moral.  justo accentuar que tal
exigencia do Directorio no representava desconfiana nos trabalhos do
_comit_ de resistencia. Em cada um dos membros d'essa organisao
republicana, como em cada um dos membros do _comit_, havia a convico
inabalavel de que o movimento se iniciaria apesar de tudo e com
probabilidades de exito. A mais rudimentar prudencia, porm, aconselhava
que se averiguasse bem fundamente do estado dos elementos
revolucionarios dispostos ao combate e que n'um balano seguro de foras
se baseasse a resoluo definitiva do assumpto. N'outra reunio
effectuada no Centro de S. Carlos, Candido dos Reis proferiu perante o
Directorio a sua sentena arbitral.

--Individualmente, disse elle, eu, Candido dos Reis, simples soldado da
Revoluo, entendo que mesmo anarchicamente ella deve fazer-se dentro
d'um curto praso. No podemos admittir que a monarchia continue a
achincalhar-nos. Como arbitro, affirmo que, embora o movimento seja mal
succedido, no envergonhar, na derrota, o partido republicano.

Perante esta opinio, expressa energica e categoricamente, o Directorio
decidiu sanccionar a tentativa, dar-lhe, digamos assim, um caracter
official.

 interessante recordar que n'essa occasio em que o almirante Candido
dos Reis manifestava a sua _opinio technica_ ao Directorio do partido
republicano, um dos organisadores do movimento fez-lhe ligeira
observao sobre as probabilidades de triumpho. O almirante endireitou o
busto e n'um tom de voz que no admitia replica exclamou:

--Se me julgasse incapaz de assumir o commando das foras de marinha e
de as conduzir  victoria, dava um tiro na cabea!...

Isto explica at certo ponto o _mysterio_ da sua morte, na madrugada de
4 de outubro,  hora exactamente em que principiava a ferir-se o
primeiro combate serio entre as foras revoltadas e os elementos
militares de que a monarchia at ento ainda dispunha. Mas, no
antecipemos consideraes sobre o fim tragico do almirante, visto que a
elle teremos de fazer referencia parte.


A 30 de setembro, estando j resolvida a tentativa de revolta, um dos
membros do Directorio perguntou a Candido dos Reis qual a data que se
devia escolher para o _estalar da bomba_. Resposta do almirante:

--Os acontecimentos  que ho de fixal-a.

[Ilustrao: Jos Carlos da Maia]

Essa data, no emtanto, no podia ser outra seno a de 4 de outubro, pois
que n'esse dia de manh os barcos de guerra tinham ordem de mudar de
fundeadouro. A madrugada de 4, isto , momentos depois de terminado o
banquete no pao de Belem, offerecido ao marechal Hermes da Fonseca,
estava naturalmente indicada para o comeo da insurreio. De resto,
muito embora Candido dos Reis em 30 de setembro houvesse falado do caso
pela frma vaga que acima registamos, verdade  que, dois dias antes, no
espirito do almirante j tinha perpassado a data de 4, apontando-a at
n'uma reunio a que presidira no dia 28 d'aquelle mez. Essa reunio fra
convocada especialmente para o _comit_ de resistencia ouvir do _comit_
militar as indicaes que, sobre a revolta, se lhe offerecesse apresentar.


No dia 1 de outubro, o engenheiro Antonio Maria da Silva e Machado
Santos reuniram-se no caf Martinho e o primeiro, depois de communicar a
opinio de Candido dos Reis, de que o movimento se devia iniciar quanto
antes, ficou incumbido de prevenir os officiaes de marinha
revolucionarios para uma nova reunio de elementos militares no dia
seguinte, s 4 da tarde, em pleno Chiado, no consultorio do dr. Eusebio
Leo. Era o dia 2, o dia marcado para a grandiosa manifestao que,
diga-se de passagem, no serviu apenas ao presidente dos Estados Unidos
do Brazil para avaliar com nitidez da expanso da ida democratica entre
ns e para desfazer a m impresso provocada,  sua chegada  capital,
pelo _rapto_ imaginado e posto em execuo pelo governo regenerador, mas
tambem para esclarecer os mais scepticos dos conspiradores sobre o
estado d'alma do elemento civil. Os milhares de manifestantes que na
tarde do dia 2 de outubro se agglomeraram em frente do pao de Belem e
nas arterias proximas mostraram bem claramente aos organisadores do
movimento que a Republica Portugueza era um facto e que a monarchia se
equilibrava a custo n'uma base tradicional, roda pela propaganda da
liberdade e pelos vicios inherentes ao antigo regimen.

 reunio do Chiado compareceram uns quarenta officiaes. Entraram 
formiga no consultorio do dr. Eusebio Leo, emquanto, c fora, na rua,
Innocencio Camacho, Jos Barbosa, Simes Raposo e outros revolucionarios
civis vigiavam attentamente pela segurana dos conspiradores militares.
Na reunio, os quarenta officiaes tomaram o compromisso solemne de se
insurreccionar, estabeleceram a _senha_ e o _signal de reconhecimento_,
cuja transmisso aos chefes de grupos populares seria feita por Miguel
Bombarda e depois de terem fixado definitivamente a madrugada de 4 de
outubro para o comeo da Revoluo, assentaram tambem decisivamente no
plano de combate, modificando n'alguns pontos o plano anterior, porque
os militares no queriam fornecer armas aos civis, receando desmandos e
vinganas pessoaes. Ficou por isso entendido o seguinte:

Engenharia, infantaria 5 e caadores 5, sahindo dos seus quarteis,
dirigir-se-hiam para o Rocio, mandando-se depois a infantaria atacar o
quartel do Carmo, para obstar  sahida da municipal. Parte da marinha
desembarcava no Terreiro do Pao, apoderando-se do telegrapho e apoiando
as foras que deveriam estacionar no Rocio. Infantaria 2, caadores 2 e
marinheiros do quartel d'Alcantara e parte da marinha dos navios cercava
o palacio das Necessidade para prender o rei. A artilharia dividia as
suas foras em duas fraces. Uma ia reunir-se a caadores 2, ao palacio
das Necessidades e outra seguia para o largo de S. Roque, apoiando as
foras do Rocio e impedindo a communicao da guarda municipal pela rua
do Alecrim e praa Luiz de Cames. Os grupos civis, por sua vez, com
bombas e granadas de mo impediam em diversas ruas da cidade que as
foras da municipal evolucionassem para o ataque s foras revoltadas.

_A senha_ e o _signal de reconhecimento_ eram _Mandou-me procurar?...
Passe, cidado._ Candido dos Reis insistiu muito em que se adoptasse
_Mandou-me procurar?_ em vez de _Mandou-me chamar?_ por ser menos crivel
que um profano empregasse a primeira phrase de preferencia  segunda.

s 5 da tarde, Innocencio Camacho foi ao consultorio do dr. Eusebio Leo
e, logo que a reunio terminou, crca das 6, fechou a porta do
consultorio e seguiu para o Rocio a encontrar-se com Jos Barbosa afim
de lhe dar conta do que os quarenta officiaes, em ultima analyse, haviam
resolvido. Esqueceu-nos dizer que na mesma reunio se decidira que o
quartel general do _comit_ executivo de Lisboa e dos membros do
Directorio seria installado no estabelecimento de banhos de S. Paulo.


O dia 3 de outubro, uma segunda feira, amanhece prodigamente beijado
pelo sol. Todos os jornaes salientam a imponencia da manifestao da
vespera e o povo republicano prepara-se para repetil-a d'ahi a vinte e
quatro horas, quando o marechal Hermes da Fonseca, encaminhando-se para
bordo do _S. Paulo_, fizer na Camara Municipal as suas despedidas 
cidade de Lisboa. Projecta-se assim uma segunda parada das foras
democraticas, to brilhante como a do dia 2, to enthusiastica, to
vibrante de commoo, to anciosa de liberdade.

Antes do almoo, o marechal Hermes da Fonseca visita a Sociedade de
Geographia.  no regresso do illustre brazileiro ao pao de Belem que a
noticia tragica, a noticia sensacional, comea a circular primeiro nas
redaces dos diarios vespertinos e depois nos cafs, nos ajuntamentos
das ruas. Um attentado contra o dr. Bombarda ... um louco desfechou
sobre elle tres tiros de pistola.... E a opinio alarma-se, a opinio
agita-se, um fremito de espanto e de pavor convulsiona d'um extremo ao
outro a capital, os jornaes so positivamente assaltados por creaturas
desejosas de saber pormenores, e em frente dos _placards_ agglomera-se
uma massa rumorejante, que ao dispersar lamenta sincera e doridamente o
succedido.

A caminho do hospital de S. Jos, para onde o ferido se fizera elle
proprio transportar, vae longa fila de intimos e de correligionarios. Os
primeiros que ouvem do dr. Bombarda a narrao do attentado so, depois
dos seus collegas no corpo docente da Escola Medica, os srs. drs. Brito
Camacho e Joo de Menezes. O mallogrado professor fala-lhes sereno e
tranquillo e descreve sem a menor difficuldade como o caso se deu.
Estava no gabinete de consultas de Rilhafolles e o creado annunciou-lhe
a visita d'um antigo pensionista do hospital, o tenente de estado maior
Apparicio Rebello. Mandou-o entrar e assim que o teve em frente da sua
secretaria, manifestou-lhe, n'uma phrase amavel, a sua surpreza por
vl-o restabelecido. O tenente no disse palavra. Tirou do bolso do
casaco uma Browning--este systema de pistolas vulgarisou-se em Portugal
com o 28 de janeiro e o regicidio--e alvejou o dr. Bombarda primeiro no
peito e a seguir no ventre. O eminente psychiatra ergueu-se
corajosamente da cadeira e ainda conseguiu deitar as mos ao aggressor.
Mas este continuou a desfechar e s quando um dos guardas de Rilhafolles
o subjugou  que o dr. Bombarda poude dirigir-se  porta do hospital e
metter-se no mesmo trem que ali conduzira o tenente, ordenando ao
cocheiro que o levasse sem demora ao banco de S. Jos.


Examinado por tres dos seus collegas, resolve-se a soffrer uma operao
dolorosa.  o ultimo recurso  sciencia, recurso, alis, de successo
problematico. Mas, antes, o dr. Bombarda tira do bolso uns papeis e
queima cuidadosamente um d'elles.  a lista da organisao civil da
revolta que no tarda a estalar, o registo das foras populares que
dentro em pouco sero chamadas a collaborar na implantao da Republica.
Ainda na vespera, ao concluir uma reunio de conspiradores, o grande
propagandista liberal pedira esse papel ao sr. Simes Raposo,
justificando o pedido d'este modo:

[Ilustrao: Embarque da familia real na Ericeira]

--Eu guardo-o, porque estou menos arriscado que voc a ser preso. Mesmo
no caso d'uma busca policial a Rilhafolles, escondo-o facilmente nas
folhas d'um livro da minha bibliotheca.

E o sr. Simes Raposo concordara com o alvitre porque, tendo
secretariado desde o comeo dos trabalhos o _comit_ de resistencia,
conservara de memoria tudo o que o papel dizia e de um instante para o
outro recompol-o-hia sem grande difficuldade. Mas, prosigamos na
narrativa dos tragicos incidentes de 3...

Feito o singelo auto de f, o sabio professor volta-se para os
operadores e colloca-se  sua inteira disposio. O trabalho dos
cirurgies  demorado e extenuante. Dura longos minutos, porque os
projecteisda Browning perfuraram violentamente os intestinos e ha o
justo receio de uma peritonite fatal. C fra, nas immediaes do
hospital e da Escola Medica, a multido de curiosos engrossa a olhos
vistos. Os _placards_ augmentam de momento a momento a anciedade do
publico com as informaes sobre o estado do enfermo.

Ao cahir da tarde, no ha esperanas de o salvar. A opinio corrente 
de que o criminoso foi suggestionado pelo clericalismo. O dr. Bombarda
combatera desde annos distantes a reaco e o fanatismo e aventa-se a
hypothese de que elle succumbe a um manejo cruel d'esses seus dois
inimigos. A excitao popular  to intensa que um padre, no Rocio,
passa um mau bocado, s porque alguem lhe ouviu dizer a respeito do
attentado:

--Foi bem feito!... No se perde nada.

No Chiado e na Avenida da Liberdade ha correrias da policia, tentando
inutilmente abafar essa colera surda que estremece em ondas ameaadoras.
De grupo para grupo, faiscam exclamaes de desespero. Pensa-se
abertamente n'uma desforra retumbante. O povo liberal, que a essa hora
ainda no sabe que um grupo de homens decididos resolveu fazer dentro de
pouco a Revoluo, prepara-se expontaneamente para _qualquer coisa_ que
o attentado decerto provocar. Os mais impulsivos gritam s escancaras:

--Ah! os clericaes querem guerra!... Pois tel-a-ho!

Ninguem duvida. O assassinio do dr. Bombarda vae ser o ponto de partida
para uma lucta sem treguas entre liberaes e reaccionarios, tanto mais
accesa quanto  certo que o governo regenerador anda a burlar a opinio,
fingindo satisfazer-lhe as reclamaes no tocante  expulso dos
congreganistas de Aldeia da Ponte e do Barro.


s seis e minutos, o eminente democrata exhala o ultimo suspiro. Mas,
facto extranho: n'esse momento de verdadeira crise, quando se suppe que
a agitao popular vae assumir um caracter gravissimo, aquecida ao rubro
pela noticia da morte, na atmosphera da cidade como que perpassa uma voz
mysteriosa mas incisiva, recommendando socego e prudencia. Alguns
jornaes republicanos recebem mesmo indicaes n'esse sentido. Nada de
_placards_ que enfuream o povo: nada de titulos berrantes que augmentem
o alarme e a indignao. Calma, muita calma... energia, sim, mas sem
furia. A Revoluo est  porta. E, se o governo monarchico se assusta
com a attitude hostil do povo... toma as suas medidas de precauo e
embaraa, ainda que inconscientemente, a ecloso do movimento.

Entretanto, os organisadores da revolta escoam-se silenciosamente por
entre a multido, dando a ultima demo aos preparativos. Previnem-se
amigos e companheiros do ideal, chamam-se urgentemente a Lisboa os
conspiradores que dias antes se tinham ausentado da cidade, ha
conciliabulos rapidos em diversos pontos, os chefes de grupo so
convocados para o Centro de S. Carlos a receberem armas e instruces. A
esta reunio devia presidir o dr. Bombarda... O dr. Bombarda, estendido
n'um leito de morte,  substituido pelo sr. Simes Raposo. O material
revolucionario, que at ento estivera quasi todo abrigado sob as vistas
cautelosas do sr. Martins Cardoso,  canalisado para aquella
aggremiao, a dois passos da policia e sem que a policia d por isso.
Os massos com revolveres entram, sem recato, sem precaues, no
edificio... Nas salas do Centro allude-se ao movimento em tom to claro
e expressivo que um dos revolucionarios que estaciona no largo, em
frente do theatro lyrico, galga apressadamente as escadas, a recommendar
maior discreo:

--Falem mais baixo!... Na rua ouve-se tudo...




CAPITULO XVI

No momento culminante, o desanimo invade os organisadores da revolta


A ultima reunio dos organisadores do movimento realisou-se na noite de
3 no terceiro andar do predio 106 da rua da Esperana, residencia da me
de Innocencio Camacho, que elle, nas vesperas, transferira para Cintra,
receioso de que os acontecimentos a envolvessem nas suas graves
consequencias.

Na tarde d'esse mesmo dia Innocencio Camacho e Jos Barbosa tinham ido
ao escriptorio do dr. Affonso Costa avisal-o, por incumbencia do
almirante Candido dos Reis, da data fixada para a revolta. O dr. Affonso
Costa ouviu attentamente a communicao ensaiando algumas vezes o
_santo_ e a _senha_ e depois limitou-se a puxar d'um _carnet_ e a
escrever ali o numero do predio da rua da Esperana. Sabia perfeitamente
o que se tramava, mas no calculava que o movimento rebentasse d'ahi a
horas. Marinha de Campos, que Jos Barbosa tambem prevenira do facto,
cumprindo egualmente uma determinao do almirante, metteu-se n'um
automovel com Alfredo Leal e foi a Cintra chamar o dr. Eusebio Leo, que
adoecera na vespera.


s 7 da tarde, emquanto o engenheiro Antonio Maria da Silva ia tratar de
arranjar uns doze automoveis que eram indispensaveis para o servio de
communicaes, Joo Chagas e Jos Barbosa foram jantar a um restaurante
da Baixa, pretendendo dar uma tregua  agitao que os dominava. O que
foi esse jantar no se descreve com facilidade. Decorreu tristemente,
quasi silencioso, pois que at Joo Chagas parecia n'esse momento avaro
da viveza e do espirito de brilhante _causeur_ que o caracterisam. Mal
comemos, contou-nos mais tarde Jos Barbosa; e o pouco que ingerimos no
tinha o menor sabor.

s 8 os conjurados principiaram a affluir  rua da Esperana. Innocencio
Camacho appareceu mais cedo para abrir as portas e fazer as honras da
casa. Os outros eram, alm dos revolucionarios representantes da armada
e de todos os corpos da guarnio da capital, Candido dos Reis, Affonso
Costa, Jos Relvas, Jos Barbosa, Joo Chagas e Antonio Jos d'Almeida.
Eusebio Leo, que viera de Cintra apesar da doena que o affligia, fra
deitado n'um soph e ardia em febre. A sala, onde s cabiam  vontade
dez pessoas, tinha apenas uma meza e sobre ella um candieiro de
petroleo. Em volta da meza perambulavam cerca de cincoenta conjurados. A
atmosphera era irrespiravel. Asphyxiava-se l dentro.

Na reunio, Candido dos Reis falou com rara energia, accentuando
nitidamente que se no fosse capaz de collocar-se  frente dos
marinheiros e de os conduzir  victoria no tinha o direito de viver.
Examinou-se a situao. Os revolucionarios contavam em absoluto com
elementos de lanceiros 2, cavallaria 4, caadores 2, infantaria 5 e
caadores 5. De infantaria 16 comparecera  reunio apenas um alferes e
havia duvidas sobre se o regimento podia entrar desde logo na revolta.
Infantaria 1 no adheria, mas tambem no contrariava a aco conjuncta
dos militares e do povo. Dentro da sala, repetimos, abafava-se... Isso
no impedia, entretanto, que todos os conjurados se mantivessem n'um
estado de espirito que removia mentalmente quaesquer obstaculos que
surgissem ante o projecto de insurreio.

A reunio acabou s 10 e 30, dando-se alguns dos officiaes presentes
_rendez-vous_ na rua do Livramento, depois de se fardarem
convenientemente. O movimento seria iniciado  1 hora da madrugada com
uma salva de 31 tiros dada pelos navios de guerra fundeados no Tejo,
salva que teria o seu echo no quartel de artilharia 1. O Directorio e os
outros elementos de organisao installar-se-hiam, como j dissmos, no
balneario de S. Paulo, d'onde, uma vez iniciada a revolta, sahiriam para
Alcantara e ao encontro do monarcha Joo Chagas, Jos Relvas e Affonso
Costa. Tencionavam, n'essa altura, pegar em D. Manuel e mettel-o a bordo
d'um navio.

Dissolvida a reunio, Jos Barbosa foi ao Centro de S. Carlos,
encontrando ali tres officiaes de marinha que pediam armas. Como lhes
fosse respondido que no momento as no havia, retorquiram immediatamente:

--No ha duvida. Voltaremos, fardados, a buscal-as!...

E voltaram. No Centro tambem estava o engenheiro Oliveira, que em
companhia de Alvaro Pope devia iniciar o ataque ao quartel de
engenharia. De tarde, falaram na necessidade de arranjar um _p de
cabra_ para arrombar a porta d'um edificio militar. O empreiteiro
Oliveira, embora lhe repugnasse usar tal instrumento, tanto forcejou que
o obteve e  noite l estava no Centro com o _p de cabra_,
tranquilisando d'este modo a sua consciencia:

--Como  para servir a boa causa...

Candido dos Reis appareceu no Centro de S. Carlos s 11 e 50. Combinou
com Simes Raposo que este iria a Belem aguardar o inicio da revolta, a
Belem, onde o pharmaceutico Abrantes, como j tivemos ensejo de
registar, organisra um nucleo fortemente combativo e que depois falaria
com elle na Rocha do Conde d'Obidos, dando-lhe Simes Raposo n'essa
occasio conta do que se passasse n'aquelle ponto da cidade. Candido dos
Reis ainda alludiu  morte do dr. Miguel Bombarda e elle e Simes Raposo
assentaram em que esse facto doloroso no influira de modo algum no
projecto da revolta, quer para a adiar, quer apenas para a modificar em
determinado sentido.

Proximo da meia noite, juntaram se no estabelecimento de banhos de S.
Paulo: Affonso Costa, Jos Relvas, Eusebio Leo, Innocencio Camacho,
Jos Barbosa, Antonio Jos d'Almeida, Joo Chagas, Joaquim Pessoa,
Celestino Steffanina, Ricardo Duro, Manuel Duarte, engenheiro Antonio
Maria da Silva, Malva do Valle, Marinha de Campos, Alfredo Leal, Simes
Raposo e Soares Guedes. Este revolucionario e Joaquim Pessoa tinham-se
incumbido de arranjar os barcos necessarios para o embarque de officiaes
e foras de marinha nos caes do Gaz e da Viscondessa. No se faz ideia
da agitao moral que a todos dominou durante a longa hora em que esse
grupo de conjurados esperou que os navios ancorados no Tejo dessem o
signal para o comeo da revolta. Ao soar a 1 hora da madrugada, nada se
percebendo, vindo do exterior, que lhes indicasse o cumprimento do que
momentos antes fra decidido, a anciedade recrudesceu. Vinte minutos
depois, ouviam-se apenas tres tiros de pea; a seguir alguns tiros
isolados que muito pouco podiam significar para a satisfao do seu
espirito... Nada ou quasi nada do que fra combinado se produzia. Os
factos succediam-se por modo a fazer desesperar os mais optimistas. At
o primeiro regimento a sahir  rua era exactamente aquelle com que os
organisadores do movimento menos contavam: infantaria 16.


No constitue segredo para ninguem que os organisadores do movimento
revolucionario tiveram um momento de desanimo, um momento em que
suppozeram tudo perdido. Foi durante o espao de tempo que decorreu
entre a hora anteriormente marcada para o inicio da revolta e o
alvorecer do dia 4, quando um nucleo de republicanos se defrontava j
com uma fraco das foras fieis  monarchia. Esse momento, em que as
melhores energias sentiram um desfallecimento semelhante ao do 28 de
janeiro, marca uma _tape_ curiosissima da Revoluo.

No estabelecimento de banhos de S. Paulo--j o dissemos concentrara-se
proximo da meia noite uma duzia de homens decididos e resolutos, tendo
cada um d'elles uma misso definida a cumprir. D'ahi, d'esse quartel
general, os revolucionarios partiriam ao signal combinado para diversos
pontos da cidade a executar o plano fixado. Aguardavam, portanto, esse
signal com a anciedade precursora dos grandes acontecimentos decisivos.
Mergulhados quasi na treva, dir-se-hia que continham a respirao para
evitar que do exterior surprehendessem o menor symptoma agitador. Um
relogio proximo bateu a uma da madrugada e todos os ouvidos se apuraram.
A incerteza, dominava-os. Escoaram-se alguns minutos que pareceram
seculos. Do grupo destacaram-se ento tres ou quatro que foram percorrer
as immediaes do balneario. Nada se percebia que denotasse o comeo da
refrega e o desalento--uma interrogao insatisfeita--pairava no ambiente.

 uma e vinte, os tiros de pea que soaram no Tejo deram o alarme.
Contaram-nos um a um. No correspondiam ao que fra planeado. Que se
passaria a bordo n'esse instante supremo? Que significava esse troar
d'artilharia que no tranquilisava os espiritos? Alguem aventou a ideia
de que os tiros constituiam um signal pedindo soccorro. Mas soccorro
para qual dos barcos de guerra? Evidentemente, um d'elles fra atacado
pelos outros e solicitava para terra urgente auxilio.

A situao complicava-se. Para mais, logo a seguir a esse alarme tudo
recahira no silencio. A cidade dormia em plena paz. A curta distancia do
balneario vigiavam mollemente tres policias. Affonso Costa, Alfredo Leal
e Malva do Valle tomaram uma resoluo: ir a Alcantara vr o que se
passava. Sahiram de S. Paulo n'um automovel e recommendaram aos que
ficavam:

--Se dentro de vinte minutos no voltarmos, siga para o quartel de
marinheiros outro grupo...

Foi o que succedeu. Affonso Costa, Alfredo Leal e Malva do Valle no
regressaram ao balneario dentro do praso marcado e Joo Chagas e Antonio
Jos d'Almeida, enfiando n'outro automovel, abalaram pelo Aterro
adeante.


O silencio da madrugada ainda se no rompera com os echos do tiroteio. A
meio do Aterro, Joo Chagas e Antonio Jos d'Almeida encontraram um
official de marinha, que assistira, no 3. andar da rua da Esperana, 
ultima reunio dos conjurados. Andava agitadissimo d'um lado para o
outro, como a procurar um ponto de embarque ou quaesquer amigos que j
se lhe deviam ter reunido. Falaram-lhe e elle no occultou a sua
decepo. Falhara tudo... O movimento liquidara n'um pessimo esboo de
insurreio.

O automovel andou mais uns metros e estacou em frente do quartel dos
marinheiros, do lado em que o edificio olha para o Tejo. As janellas do
quartel estavam illuminadas. Um grupo de populares avanou ao encontro
de Joo Chagas.

--Que ha?--perguntou-lhes o grande publicista.

--Nada... Absolutamente nada.

E um dos revolucionarios, apontando para o quartel, accrescentou:

--Ali parece ter havido qualquer coisa, mas agora est tudo em socego.

[Ilustrao: Joo Chagas]

O automovel poz-se de novo em andamento e foi direito ao largo do
Calvario. O regimento de infantaria 1 avanava sobre Alcantara dividido
em duas pores. Os soldados,--disse-nos Joo Chagas recordando os
episodios d'essa madrugada de perfeita desilluso--davam mostras d'um
canao extremo. Vinham derreados, sem ordem na marcha, moviam-se
somnolentamente como se a noticia da revolta lhes tolhesse a vontade.
Tinham o aspecto d'um corpo j derrotado, desfeito, por longos minutos
de ataque renhido.

Do largo do Calvario, o automovel foi  Praa d'Armas. Suppunha--
ainda Joo Chagas que o diz--ir encontrar n'essa altura a reproduco
d'uma d'essas revolues francezas em que um bairro inteiro, iniciando o
movimento, dava abrigo aos elementos insurreccionados. Calculava que
n'esse reducto nos defenderiamos ento at a ultima, depois de bem
barricados contra os ataques do inimigo monarchico. Mas no...
Alcantara, o bairro que eu sonhara para esse papel historico, parecia
dormir serenamente, confiadamente, como se no suspeitasse da imminencia
d'uma grave agitao.

Na Praa d'Armas, estacionava outro grupo de populares. Joo Chagas
formulou a eterna pergunta:

--Que ha?

A resposta foi desanimadora:

--Nada... absolutamente nada. No quartel dos marinheiros houve qualquer
coisa, mas agora est tudo em socego...

Era de desesperar. O socego do quartel dos marinheiros, aps _qualquer
coisa_ de anormal, significava claramente que a revolta no edificio fra
promptamente suffocada. No havia que insistir. O movimento falhara e
quasi sem resistencia, sem um impulso de heroismo que o dignificasse na
agonia. O silencio no local dizia-o melhor que quaesquer outros
depoimentos. A menor tentativa de reaco, a produzir-se, teria sido
assignalada no momento pelo estalar de uma bomba, pela percurso d'um
gatilho, por um grito de triumpho ou de raiva...

O automovel rodou para o balneario de S. Paulo, a confirmar o insucesso
do _complot_.

Joo Chagas mandou parar o vehiculo a certa distancia do edificio para
no despertar suspeitas, mas, antes de entrar, foi abordado por um amigo
que o aconselhou a retirar-se, affirmando que a policia cercava o
balneario.

--E os outros?--inquiriu Joo Chagas, alludindo aos restantes
revolucionarios que tinham ficado no quartel general.

--Os outros sahiram por uma porta das trazeiras... A policia no os
apanhou.

Perfeita _debacle_. O quartel general dissolvia-se inoportunamente,
desaggregando-se de modo a difficultar qualquer aco de conjuncto.
D'ahi por deante no se podia pensar rasoavelmente em estabelecer
communicaes entre os diversos agrupamentos compromettidos na revolta.
A aco individual teria que substituir-se  aco collectiva dos
organisadores do movimento.


Afinal, o desanimo, essa disperso dos elementos dirigentes da revolta,
no tinham verdadeiramente raso de existir.  mesma hora em que o
Directorio do partido republicano, o _comit_ executivo de Lisboa e
outros companheiros de lucta andavam perfeitamente s cegas pelas ruas
da cidade, pousando aqui e ali, indagando anciosamente o que havia,
conjecturando para d'ahi a pouco uma terrivel represso monarchica--um
nucleo de populares, fardados e no fardados, arvorava destemidamente a
bandeira vermelha e verde e caminhava para o triumpho n'uma marcha
desordenada,  certo, mas com a mais intensa f, a f que s por si
basta na maioria dos casos a garantir o exito e a victoria.  mesma hora
tambem Alcantara, o bairro de gloriosas tradies revolucionarias que a
Joo Chagas parecera momentos antes alheiado do movimento, inerme ou
somnolento, derrotava um regimento inteiro de cavallaria e continha em
respeito um outro de infantaria; e d'uma loja da rua do Livramento
sahia, disciplinado e forte, um grupo de officiaes de marinha e de
carbonarios, a iniciar sem hesitaes nem precipitaes um dos feitos
mais brilhantes do ataque  monarchia.




CAPITULO XVII

Uma parte das foras revolucionarias installa-se na Rotunda


J dissemos que o primeiro regimento a insurrecionar-se na madrugada de
4 de outubro foi o de infantaria 16, exactamente aquelle que menos
confiana inspirava aos organisadores da revolta. Esse episodio inicial
do movimento merece que o pormenorisemos.

s 9 horas da noite, logo que no quartel de Campo d'Ourique soou o toque
do silencio, os soldados que sabiam do _complot_ metteram-se na cama
vestidos e equipados, fingindo que dormiam a somno solto para no
despertar a atteno dos camaradas. Entretanto o cabo Correia e um
soldado mais animoso invadiam as arrecadaes das companhias, tiravam
d'ali todo o armamento a que poderam lanar mo e conduziam-no para as
casernas--levando a cabo essa tarefa com grandes precaues e riscos
quasi irremoviveis.

Em certa altura, quando o cabo Correia estava fechado n'uma d'essas
arrecadaes, ouviu bater  porta. Sentiu-se perdido... Quem seria? Um
official? Um amigo? Foi abrir, resolvido a tudo. Era o telegraphista do
regimento que, segundo uma combinao previa, lhe ia mostrar um
telegramma do quartel general recebido n'aquelle mesmo instante e em que
se mandava que infantaria 16 estivesse de preveno. Passava das 9
horas. A ordem chegava, pois, demasiado tarde. O telegramma, seguiu, por
esse motivo, para as mos do official de inspeco e a escolha das armas
e munies continuou, sem interrupo, at final, ao mesmo tempo que o
soldado 1.008, fingindo que estava de guarda, percorria, armado, todas
as casernas, despertando todos os adeptos e avisando os soldados do
servio de policia, tambem no segredo do _complot_, de que no fizessem
fogo contra quem pretendesse entrar no quartel.

s 12 e 45 da madrugada estava tudo a postos, tudo combinado e
preparado. O cabo Correia soltou da sua caserna, que era a mais afastada
da secretaria, um assobio forte e prolongado--o signal da rebellio--e
os soldados revolucionarios juntaram-se immediatamente na parada, onde,
em dado momento, ergueram um cro triumphal de vivas  Republica. Da
parada foram depois  secretaria. Tornava-se indispensavel prender
quanto antes os officiaes no adherentes e abrir as portas do quartel ao
elemento civil--setenta homens armados que, momentos antes, tinham
sahido do Centro de Santa Izabel. N'esse instante, o commandante de
infantaria 16, tendo dado pela revolta, descera  parada e obrigara um
soldado a bradar s armas, ameaando-o de revolver em punho. O soldado
obedeceu, mas em seguida fugiu, indo juntar-se aos camaradas sublevados.
O coronel encaminhou-se para a caserna da 3. companhia do 3. batalho
e estacou  porta. A fusilaria crepitou pela primeira vez. Uma bala
attingiu o commandante, matando-o instantaneamente. O capito Barros,
que se postara  entrada da arrecadao da sua companhia, oppondo-se a
que os soldados se armassem, teve sorte egual...

Os outros officiaes, desvairados ou desorientados, fugiram com medo que
lhes succedesse o mesmo que ao commandante e ao capito Barros. As
chaves dos portes ficavam dentro d'uma barretina e, como no fosse
possivel encontral-as nos primeiros momentos, Machado Santos, que tambem
avanara sobre infantaria 16  frente d'um grupo de homens armados, teve
que esperar alguns momentos na rua sem poder entrar. Entretanto,
apparecia um cabo que, estando de guarda em Valle de Pereiro, abandonara
o servio. Foi elle que abriu caminho a Machado Santos pela porta da
arrecadao regimental, e sem difficuldade, porque a respectiva
sentinella no resistiu. Os sediciosos encaminharam-se ento, j
senhores do quartel, para a sala dos officiaes, onde encontraram o major
Dias, que no quiz adherir, e as chaves dos portes dentro da tal
barretina. O quartel no tardou a ser completamente franqueado aos
revoltosos civis.

Era preciso, no emtanto, ir a artilharia 1, porque demais a mais j
correra uma noticia aterradora, a de que alguns officiaes do 16 tinham
ido  rua da Estrella chamar a guarda municipal. Essa sahida de
infantaria 16 no se fez, porem, sem grande confuso. Machado Santos
gritava, os outros barafustavam e por fim l se conseguiu iniciar a
marcha para Entre-Muros, indo  frente o heroico commissario naval. Por
todo o trajecto, feito a galope, soltaram-se vivas enthusiasticos 
Revoluo e  Republica.  porta do quartel de artilharia 1 estava o
capito S Cardoso. Ouvira repetidos toques de reunir em accelerado e
sahira a esperar as foras revolucionarias de infantaria. Logo que
defrontou Machado Santos, desembainhou a espada e collocou-se a seu
lado. Segundos depois, a porta do quartel de Entre-Muros tambem era
arrombada.

Como ahi o official de inspeco e o major do regimento no quizessem
adherir, o capito S Cardoso convidou-os a afastarem-se do local e os
dois officiaes promptamente obedeceram. Na parada j andava o capito
Palla na faina de preparar as baterias revolucionarias, coadjuvado pelo
alferes Brando, que adherira espontaneamente. O capito S Cardoso
montou a cavallo e, antes de sahir do quartel de Entre-Muros, recebeu a
adheso do tenente Quaresma de infantaria 16, tenente Garcia, que estava
afastado d'esse regimento, como alis de todos os outros, por causa do
28 de janeiro e dos tenentes Santos e Paes, que tinham vindo
expressamente de infantaria 3 para tomar parte no movimento. Infantaria
16--diga-se de passagem--no tinha sargentos; assim os respectivos
logares foram occupados por cabos.

Prompta uma bateria, o capito S Cardoso tomou o commando, coadjuvado
pelo alferes Brando, indo a escoltar a artilharia uma parte de
infantaria 16 commandada pelo tenente Garcia. Essa bateria sahiu do
quartel de artilharia 1 a caminho das Necessidades, mas a meio da rua
Ferreira Borges foi surprehendida pela companhia da guarda municipal,
aquartelada na Estrella, que fez fogo sobre os revolucionarios. Houve da
parte d'estes uma breve hesitao, propria de quem nunca tinha entrado
em fogo; mas a resposta  aggresso no se fez esperar e tres tiros de
pea destroaram os municipaes. Como alguns populares avisassem o
capito S Cardoso de que as foras fieis  monarchia se haviam postado
nas embocaduras das ruas, promptas a fusilal-o e aos seus soldados,
aquelle official resolveu voltar atraz, a juntar-se ao grosso da
columna insurreccionada, que encontrou na rua de S. Joo dos Bemcasados.

Ahi, os officiaes conferenciaram e decidiram, aps breve discusso, que
a columna marchasse para a Avenida. O capito S Cardoso, na qualidade
de official mais antigo, tomou o commando superior e Machado Santos
passou a dirigir a guarda avanada de infantaria 16 e grupos civis. Na
altura das Amoreiras, a cauda da columna foi atacada d'uns quintaes ou
coisa parecida e respondeu com uma descarga de infantaria. No largo do
Rato houve novo alarme, mas da policia, que rapidamente foi desarmada
por Machado Santos. Na rua Alexandre Herculano, deu-se uma scena que nos
primeiros momentos no foi facil explicar: os revolucionarios foram ali
recebidos com enorme tiroteio e a columna, desmantelando-se, marchou em
debandada at  rua Castilho. N'esta rua, os capites S Cardoso e Palla
e Machado Santos l conseguiram juntar de novo os elementos dispersos e
as foras revolucionarias, ainda que no meio de grande confuso,
conseguiram chegar  Rotunda.

Uma vez no famoso acampamento, o capito Palla arranjou definitivamente
a artilharia e Machado Santos e outros officiaes a infantaria; 
esquerda d'esta formou um peloto de 40 atiradores civis. O capito S
Cardoso fez uma fala aos soldados e populares que estavam ali reunidos,
mostrando bem a responsabilidade que pesava sobre todos. Entretanto, a
fora de policia que estava na feira de Agosto, commandada pelo chefe
Antunes, tinha retirado prudentemente do local; ao acampamento iam
chegando mais populares e entre elles dois guardas municipaes; todos os
individuos que passavam na Rotunda eram obrigados a pegar em armas. s 4
da manh, a cavallaria da guarda municipal tentou um ataque pela frente
do acampamento. No fra completamente destroada na Avenida pelo grupo
civil incumbido de o fazer, muito embora Silva Passos e outros
conjurados arriscassem a vida n'essa denodada investida--e assim
conseguira chegar a cincoenta metros das foras sublevadas. Mas estas
responderam logo com fusilaria e tres granadas e os cavalleiros fieis ao
antigo regimen tiveram que retroceder com algumas perdas.


Passemos agora da Rotunda a Alcantara e vejamos o que succedia n'esse
bairro de verdadeiras tradies revolucionarias. O quartel general dos
elementos que estavam no segredo do _complot_ era a typographia da rua
do Livramento, pertencente ao industrial sr. Franklin Lamas. Ninguem
dir ao vr esse modesto artifice da revolta que a sua pallida e
rachitica figura de anemico disfara, alm d'uma vontade de ferro, uma
tenacidade organisadora fra do commum. E, no emtanto, Alcantara
deve-lhe assignalados servios de aco republicana, em que a ousadia e
a f inquebrantavel venceram multiplos obstaculos  propaganda do Ideal.

Na noite de 3 de outubro, logo que ao bairro chegou a noticia de que o
movimento seria iniciado d'ahi a poucas horas, os elementos
revolucionarios correram a reunir-se no estabelecimento do sr. Franklin
Lamas, ao tempo em que os centros republicanos da freguezia eram
invadidos por populares que disputavam entre si as poucas armas at
ento ali armazenadas.  1 e 8 da madrugada de 4, reportamo-nos 
preciso mathematica do relatrio do 1. tenente Parreira--sahiram da
typographia, alm d'esse denodado official de marinha, os 2.os tenentes
Sousa Dias e Carlos da Maia, commissarios navaes Costa Gomes e Guilherme
Rodrigues, 1. sargento Gonalves dos Santos, 2.os contra-mestres
Armando Barata e Correia da Silva, 2. sargento Jos Rodrigues, Franklin
Lamas, seu irmo Francisco Lamas, Joaquim Alves, Joaquim Vaz e outros
civis. Este disciplinado nucleo revolucionario encaminhou-se para o
quartel de marinheiros, onde entrou pela chamada porta do jardim.

[Ilustrao: Moyss, o tambor dos revolucionarios]

L dentro, depois de desarmada a sentinella, o grupo arrombou a
arrecadao do armamento, que foi distribuido pelos populares que ainda
o no tinham, preparando-se tudo para a priso dos officiaes que estavam
no edificio. Ainda no jardim do quartel e a caminho da parada de cima, o
grupo defrontou quatro d'esses officiaes que faziam uma ronda. O 1.
tenente Parreira no hesitou. Dirigiu-se-lhes energicamente,
intimando-lhes a rendio e os quatro officiaes entregaram as armas,
dando pouco depois entrada n'um dos calabouos. A seguir o grupo
revolucionario subiu s casernas, o 1. tenente Parreira mandou
levantar e armar todas as praas e como o sargento da guarda se mostrasse
hesitante, o illustre official obrigou-o a entrar na formatura e mais
tarde mandou-o prender, por no lhe merecer confiana. Faltava
aprisionar os dois commandantes do corpo de marinheiros para se
effectivar a posse completa do quartel.

Formou-se ento um nucleo incumbido de defender as sahidas do edificio e
os restantes revolucionarios procederam a varias buscas. O primeiro a
descer--conta o 1. tenente Parreira no seu relatorio--foi o 1.
commandante que vinha s e armado e ficou entre portas  entrada do
corredor da porta principal. O heroico commandante dos revoltosos
intimou-o a render-se. Elle resistiu, primeiro agitando a espada e
depois disparando tiros de pistola, e um grupo desfechou, attingindo-o e
prostrando-o ferido. Acudiram os criados que o transportaram para os
seus aposentos particulares e os contingentes das differentes casernas
principiaram a juntar-se na parada, onde j ento se encontrava o 2.
tenente Tito de Moraes, que tomou logo a iniciativa de activar a
formatura das praas.

D'ahi a momentos os civis empregados nas buscas correram sobre o 2.
commandante do corpo, obrigando-o a fugir at  parada de cima, onde o
1. tenente Parreira o aprisionou, mettendo-o no calabouo com os outros
officiaes suspeitos. Arrombou-se depois o paiol da polvora, os cunhetes
foram trazidos para a parada e, assim que se municiaram cerca de 50
praas, esta fora installou-se nas janellas da frente do quartel sob o
commando do commissario Costa Gomes, recebendo incumbencia de impedir a
sahida do esquadro de cavallaria da municipal e defender essa face do
edificio.

s 2 e meia da madrugada, concluido o municiamento das praas, os
revolucionarios arrombaram a porta sul do quartel e sahiram para a rua
24 de Julho, onde pouco antes tinham formado outras foras e grupos
civis. O nucleo organisado no quartel dos marinheiros, depois de leve
contacto com uma diminuta fora de cavalaria em reconhecimento, que
retrocedeu logo que ouviu dar vivas  Republica, marchou em direco 
rua da Costa, pretendendo assim cumprir uma parte do plano estabelecido
e que consistia em cercar o palacio das Necessidades, conjugando a sua
aco com a da columna de infantaria 16 e artilharia 1 do commando do
capito S Cardoso. J dissemos que essa columna se viu impossibilitada
de exercer tal misso, por ter sido atacada pela municipal na rua Borges
Carneiro. O nucleo do quartel dos marinheiros tambem no poude chegar
at junto do palacio, porque, tendo a sua guarda avanada avistado na
passagem da linha ferrea foras de cavallaria 4 e infantaria 1, o 1.
tenente Parreira mandou fazer alto, encarregando entretanto alguns civis
de explorarem a rua Vieira da Silva.

N'esse mesmo instante, appareceu um capito que as foras fieis ao
antigo regimen haviam destacado como parlamentario. Sahiu a reconhecel-o
uma vedeta revolucionaria commandada pelo 2. tenente Carlos da Maia.

--Que defende? perguntou-lhe esse official de marinha.

Resposta do capito:

--Tenho muita pena, mas sou obrigado a vir aqui...

--Mas que principio defende? insistiu o commandante da vedeta.

--As instituies.

--Mas que instituies? Republica ou monarchia?

--A monarchia.

E logo a seguir, o capito accrescentou, visivelmente embaraado:

--Mas eu vou contar tudo ao meu tenente coronel...


D'ahi a pouco surgiu na frente dos revolucionarios um tenente de
infantaria. Logo que chegou  fala, declarou que tambem ia pedir
instruces ao tenente-coronel; e como as vedetas espalhadas pela rua
Vieira da Silva affirmassem que as foras contrarias estavam egualmente
desenvolvidas para esse lado e a cavallaria e a infantaria fieis 
monarchia tomassem posies de combate, o 1. tenente Parreira desistiu
de avanar sobre o palacio das Necessidades e decidiu preparar as coisas
para um inevitavel recontro sangrento. Mandou arrombar parte do tapume
proximo  passagem de nivel do caminho de ferro de cintura e dividiu as
foras de marinha em dois pelotes. Um, sob o commando do tenente Carlos
da Maia, desenvolveu-se em angulo recto, parte com as costas no tapume e
com as armas dirigidas para a passagem de nivel, e outra parte dentro da
crca e com a frente para oeste. O outro peloto dividiu-se em duas
fraces commandadas respectivamente pelos tenentes Sousa Dias e Tito de
Moraes e formou com as costas para a parede norte da rua 24 de Julho,
dirigindo as armas obliquamente para a passagem de nivel, cruzando, por
conseguinte, os fogos com as foras que lhe ficavam fronteiras.

O 1. tenente Parreira, tomadas estas disposies, ainda esperou um
pouco antes de abrir as hostilidades. Mas, continuando a notar
movimentos na cavallaria e infantaria adversas, resolveu tomar a
offensiva e deu a voz de fogo. A fusilaria crepitou com energia e
violencia durante minutos. Do lado opposto, responderam ao ataque com
umas descargas que causaram algumas baixas nas foras revolucionarias. A
seguir, como a cavallaria inimiga, desembocando na rua Fradesso da
Silveira, desobedecesse  intimativa do 1. tenente Parreira para fazer
alto, os revolucionarios e os populares atacaram-na rudemente,
secundados pela _artilharia civil_ e a cavallaria, dispersando-se, bateu
em retirada, com crca de 50 baixas entre mortos e feridos. No se
calcula o effeito desmoralisador que n'esse regimento fiel  monarchia
produziu a exploso de varias bombas. Os soldados precipitaram-se
immediatamente das montadas, originando uma confuso enorme, e emquanto
uns se refugiavam aqui e ali buscando abrigo contra aquella arma
poderosa que lhes parecia ser lanada do inferno, outros corriam para
junto dos populares revoltosos, pedindo que os poupassem e declarando
abandonar d'uma vez para sempre o servio do antigo regimen.

Terminado o primeiro combate serio entre republicanos e monarchicos e em
que os revolucionarios de Alcantara dram sobejas provas da sua grande
coragem, o 1. tenente Parreira dividiu a columna em dois pelotes,
recolhendo o primeiro ao quartel de marinheiros, pela rua Baluarte para
o guarnecer e defender, ficando ainda o tenente Carlos da Maia com o
segundo peloto at final da debandada do inimigo. Esta fora recolheu
mais tarde ao quartel pela porta sul, ao tempo em que um automovel que
apparecera no local conduzindo os srs. Antonio Jos de Almeida e Pires
de Carvalho se incumbia de levar ao hospital alguns revolucionarios
feridos e um morto.

[Ilustrao: Brito Camacho]

Uma vez no quartel, o 1. tenente Parreira mandou reforar a defeza da
face do edificio que olhava para a guarda municipal de Alcantara, defeza
que continuou a ser dirigida pelo commissario Costa Gomes, e guarneceu a
parada do sul, de modo a impedir a vinda do inimigo pela rua 24 de
Julho. D'esta frma, o quartel ficou constituido em verdadeiro baluarte,
defendido no s pelas foras de marinha, mas por grande numero de
populares, que n'essa occasio se lhes aggregaram e foram logo armados e
municiados.




CAPITULO XVIII

Os sargentos de artilharia 1 resolvem continuar a lucta


Voltemos  Rotunda. Logo de manh, Machado Santos, que ento commandava
uma fora destinada a proteger o acampamento de qualquer assalto dos
monarchicos pelas avenidas Fontes Pereira de Mello e Duque de Loul,
prendeu o 1. tenente Victor Sepulveda, palaciano de fresca data, e que
pouco antes sahira de casa attrahido pelo estrondear dos canhes.
Machado Santos, que o conhecia dos tempos em que elle, Sepulveda, tambem
conspirava contra a monarchia e se affirmava, pelo menos apparentemente,
d'um radicalismo feroz, perguntou-lhe que fazia ali n'aquelle ponto da
cidade. O 1. tenente Sepulveda illudiu a pergunta e inquiriu por sua vez:

--Ah! s tu?... A marinha est aqui?...

Resposta de Machado Santos:

--No: aqui esto artilharia 1 e infantaria 16. E tu, para onde vaes?

--Ora essa! Vou apresentar-me ao major general da armada. Dizem que ha
barulho...

--Barulho?...

E Machado Santos, desferindo uma gargalhada, accrescentou:

-- a Revoluo que est na rua. E tu, com muita pena minha, s meu
prisioneiro.

O 1. tenente Sepulveda esboou um gesto de resistencia e ameaou:

--V o que fazes! Eu...

--Dois civis armados para levarem este senhor ao commandante da columna!
ordenou Machado Santos.

--Ento, eu...

--Conduzam este senhor ao capito S Cardoso, repetiu Machado Santos, e
digam-lhe que  official de marinha e que acho conveniente conserval-o
preso.

Os dois civis acquiesceram e emquanto o 1. tenente Sepulveda,
formulando nova ameaa, se dispunha a acompanhal-os, Machado Santos,
pondo-lhe a mo no hombro, disse, a sorrir de ironia:

--Adeus, meu irmo da Montanha!...

O palaciano de fresca data estremeceu como se fra tocado por um ferro
em braza. A alluso de Machado Santos era mordente e devia ter-lhe
evocado n'esse momento de lucta sangrenta os seus trabalhos de
conspirador, a sua propaganda d'outros tempos contra o soberano e o
antigo regimen...

Pouco depois, o capito S Cardoso mandava-o pr em liberdade.


Referido este episodio, que no merecia relevo especial se o 1. tenente
Sepulveda no tivesse,  ultima hora, assumido uma attitude de strenuo
paladino da monarchia e o seu nome no houvesse sido citado a proposito
da morte do almirante Candido dos Reis, prosigamos na narrativa do que
occorreu na Rotunda, ao alvorecer do dia 4.

Assim que rompeu a manh, Machado Santos, muito embora as noticias
recebidas no acampamento fossem em extremo desanimadoras, desenvolveu
uma energia sem limites, vigiando tudo, tratando de tudo, sempre
incanavel e inattingivel pelo desalento. Ao contrario do heroico
official, os outros militares agaloados sentiam-se a pouco e pouco
invadidos pelo receio contagioso de que o movimento liquidasse n'um _31
de janeiro_ de peores e mais funestas consequencias.

Um alviareiro dos muitos que irrompem no acampamento, anonymos alguns,
sobejamente conhecidos outros, affirma sem hesitaes que _est tudo
perdido_. Lanceiros 2, infantaria 1 e a guarda municipal, que segundo o
plano revolucionario, no deviam ter sahido dos quarteis sem soffrerem
um ataque rude dos grupos de populares armados, andam pelas ruas de
Lisboa sem que ninguem os incommode e preparam-se, de certo, para
investir com os revoltosos acampados na Rotunda. A marinha no
desembarcou nem tomou conta dos telegraphos; e ha quem diga que acabou
de pr um _ultimatum_: ou as foras de terra se rendem, ou ella
bombardeia a cidade e mette os navios no fundo. Outro alviareiro, que
parece dar um recado de encommenda, confirma tudo isso e aconselha os
officiaes a no prolongarem a resistencia; de contrario, accrescenta, a
represso ser terrivel. Por ultimo, at a figura prestigiosa d'um
antigo combatente pelo ideal republicano manifesta opinio identica e
abandona o acampamento, onde momentos antes se mostrara corajoso e
enthusiasta.


O medo  contagioso, dizemos acima, e no ha duvida: esse contagio ganha
progressivamente os mais animosos e d'ahi a alguns minutos o capito S
Cardoso convoca o conselho de officiaes e expe-lhe a situao, tal como
elle a julga apprehender:

--Contra ns, crca de 3:000 homens, com as baterias a cavallo; a nossa
posio da Rotunda dominada pelas alturas como o Thorel, Graa, Penha,
S. Pedro d'Alcantara, etc. O inimigo tem quinze metralhadoras. Estamos
na imminencia d'um ataque simultaneo por todas as ruas e por todas as
alturas.

Todo o conselho-- o proprio capito S Cardoso que o affirma--a comear
pelo official mais moderno, manifesta o parecer de que a situao 
desesperada e que a lucta provocar uma carnificina horrorosa. Todos os
officiaes esto desanimados. O capito S Cardoso, terminada a reunio,
chama alguns sargentos de artilharia, diz-lhes nitidamente que o
movimento foi mal succedido e aconselha-os a voltar com as foras a
quarteis. As suas responsabilidades, accrescenta, so bem menores do que
as dos officiaes e estes teem que sahir do acampamento por outra frma.
Um dos sargentos ainda lhe pergunta com as lagrimas nos olhos:

--Ento, est tudo perdido?

[Ilustrao: Proclamao da Republica e do governo provisorio na Camara
Municipal de Lisboa em 5 de outubro de 1910]

--Est, responde o capito S Cardoso.

E afasta-se, dominado pela mesma commoo. N'esse instante supremo, em
que o desanimo dos officiaes combatentes podia ter conduzido
irremediavelmenteao insuccesso da tentativa revolucionaria, os civis do
mostras de persistencia e f inquebrantavel. Um dos populares
approxima-se d'um dos militares, que mais desalentado se mostra e
diz-lhe brutal, mas justamente:

--Quem quer chorar, vae para casa!... Mas no esteja aqui a enfraquecer
a coragem dos outros.

O capito S Cardoso e o tenente Jos Ricardo Cabral vestem-se  paisana
e mettem-se n'um automovel. Ento, conta o primeiro d'esses officiaes,
Machado Santos acerca-se de ns, a querer convencer-nos a que fiquemos,
emquanto ns tentamos convencel-o a que nos acompanhe, para evitar uma
chacina. Elle, cheio de enthusiasmo, de bemdita loucura, teima em ficar
e ns partimos tristemente, convencidos de que, dentro em pouco, a
Rotunda ser um horroroso mar de sangue.


A cidade, no emtanto, apesar de ter acordado na manh do dia 4 de
outubro com a Revoluo em plena actividade, conserva um aspecto
relativamente calmo, que  digno de registo. O tiroteio, que desde as
duas da madrugada se faz sentir aqui e ali, produz naturalmente uma
certa commoo e contribue para augmentar a anciedade do momento. Mas a
maioria dos habitantes continua a fazer a vida do costume, apenas
entrecortada pelos muitos boatos que circulam, pelas noticias, umas
falsas, outras verdadeiras, que lanam a confuso no ambiente. s 9 da
manh, excepo feita das casas em cujas proximidades a lucta  accesa,
nas outras o ecco do movimento  fraco. Apparecem  hora habitual o
padeiro, o leiteiro, o homem do talho; a carroa do lixo arrasta-se
vagarosamente e recolhe os caixotes collocados s portas; pelas janellas
ha cabeas curiosas que interrogam, surprehendidas, o azul do ceu.

Os grupos de revolucionarios, que horas antes no conseguiram executar o
programma da insurreio e se dissolveram mal a luz do sol illuminou o
quadro, tendem a reconstituir-se, cautelosa e prudentemente. Ha uma
falta sensivel de armamento; e, sobretudo, nota-se extraordinaria
difficuldade de communicaes. A Rotunda fica no corao da cidade. O
quartel de marinheiros tambem no  muito distante. E no emtanto, pouca
gente sabe de verdade o que se passa n'uma e n'outro e sobre esses dois
fcos de rebeldia correm as mais desencontradas verses. Assim,
affirma-se que na Rotunda o capito Palla commanda a artilharia e
elogia-se a preciso da sua pontaria. No quartel dos marinheiros,
accrescenta-se, est o almirante Candido dos Reis, e  elle quem dirige,
em chefe supremo da marinha revoltada, o ataque s foras monarchicas
que rodeiam o palacio das Necessidades. Puro engano...  hora a que
circulam taes boatos j Candido dos Reis cahiu morto na Azinhaga das
Freiras e o capito Palla abandonou o acampamento da Avenida.


Entretanto, Machado Santos, apoz o abandono da Rotunda pelos outros
officiaes, convoca um conselho de sargentos de artilharia 1 e
pergunta-lhes se acceitam o seu commando.

--Estou decidido, diz elle, a no abandonar esta posio, custe o que
custar!...

Os sargentos respondem-lhe que morrero combatendo at o ultimo momento
pela Republica. Machado Santos pede ento um cavallo, monta e desde esse
instante  elle o unico dirigente dos revolucionarios concentrados no
alto da Avenida.

O sol doura o rio, onde se vem passar, como a medo, pequenos barcos.
Para os lados do Rocio sente-se um movimento de tropas: fileiras de
soldados guarnecem a entrada da praa dos Restauradores. Machado Santos
dispe as peas de artilharia, tomando as embocaduras do Rato, avenida
Fontes Pereira de Mello e avenida da Liberdade e colloca-as tambem no
parque Eduardo VII para defender o acampamento pelo lado norte.
Ao meio dia, n'um momento de treguas, os populares arranjam os
entrincheiramentos, que Machado Santos, elle proprio, considera
_platonicos_, mas que do s foras revoltosas a illuso perfeita d'um
forte abrigo contra as investidas dos monarchicos.

Na Rotunda j esto a essa hora uns quatrocentos homens, exhibindo
variado armamento. Estabelecem-se vedetas. A guarda das crtes,
commandada por um sargento de infantaria 16, vem juntar-se aos
revoltosos. Apparecem outros destacamentos e praas isoladas que fugiram
dos respectivos corpos. Os viveres acodem em abundancia. Grupos de civis
vo de vez em quando ao Matadouro apprehender a carne ali abatida...
para que se no diga que a camara municipal a fornece de bom grado aos
revoltosos e ... seu cumplice.


A disperso do quartel general revolucionario que, na madrugada de 4, se
installara no estabelecimento de banhos de S. Paulo, effectuara-se,
entretanto, por uma forma desanimadora. Joo Chagas e outros elementos
de organisao tinham abalado para os lados do Rocio e at que a manh
clara lhes desse um vago indicio da situao, foram pousando aqui e ali,
hesitantes, indecisos, repugnando-lhes acreditar na derrota completa,
mas desalentados ao mesmo passo pela falta de noticias seguras, com a
ausencia de factos dos quaes dependia uma tal ou qual esperana de
victoria.

Primeiro estiveram n'uma casa da rua dos Correeiros, deposito d'aguas
mineraes; depois voltaram ao terceiro andar da rua da Esperana,
residencia da me de Innocencio Camacho e durante uma boa parte do dia 4
tentaram inutilmente approximar-se do acampamento da Rotunda. Ao cahir
da tarde, porm, Joo Chagas conseguiu passar do Rocio para a avenida
Fontes Pereira de Mello, ir a casa e a seguir quelle fco de
intensissima rebeldia. Mas o trajecto fel-o dominado pela ideia de que,
se os serventuarios da monarchia o reconhecessem, o victimariam sem
complacencia. Uma vez nas garras da municipal ou da policia, Joo Chagas
pagaria com a vida a sua temeridade. Tinha bem presente no espirito a
intranquilidade do sr. Malaquias de Lemos quando antes do 28 de janeiro
o trouxera encerrado no quartel dos Paulistas, e futurava logicamente
que, se o prendessem durante a revolta, lhe dariam destino egual ao de
tres desgraados que no dia 5 appareceram fusilados n'outro quartel da
guarda pretoriana. Antes morrer do estilhao d'uma granada que succumbir
a dentro d'umas grades de ferro, sem lucta, inerme, manietado por
algozes...

[Ilustrao: Joo de Menezes]

Outros dos dirigentes revolucionarios percorreram na madrugada de 4 as
redaces dos jornaes, procurando anciosamente informar-se dos
acontecimentos. Outros ainda, como Jos Barbosa, Celestino Steffanina e
o engenheiro Antonio Maria da Silva, installaram-se no escriptorio do
primeiro  hora em que j havia correrias da municipal pelo Calhariz e o
Loreto e os soldados disparavam tiros para o ar, no tardando a occupar
as embocaduras das ruas, porque os grupos de civis os ameaavam com
bombas. Jos Barbosa conta d'este modo essas horas de tragica anciedade:


A madrugada ia rompendo e continuavamos sem saber positivamente o que
estava succedendo na cidade. Eu conservava em meu poder os papeis com os
nomes das pessoas que deviam constituir o governo provisorio e varias
indicaes a cumprir logo que a Republica fosse proclamada. Relemol-os
at os fixarmos na memoria e preparmo-nos para os inutilisar logo que a
policia invadisse a casa. A anciedade era enorme. De positivo sabiamos
apenas que a guarda municipal cercara o telegrapho e no a marinha, como
fra deliberado ao adoptar-se o plano revolucionario. Na estao do
Terreiro do Pao, todos os empregados que faziam servio na madrugada de
4 eram republicanos e deviam retardar a transmisso dos telegrammas
officiaes. O engenheiro Silva conseguira, por meio d'umas trocas,
afastar n'esse momento os empregados que no tinham adherido ao
_complot_.

De manh, cedo, sahimos  rua a colher noticias. Na rua das Gaveas
encontrmos Jos da Costa Carneiro, que nos deu informaes animadoras.
Mas surgiram outras, contradictorias, e a indeciso era manifesta.
Entrmos depois na pharmacia Duro, onde estacionavam alguns
revolucionarios. Necessitava-se antes de mais nada dar certas ordens,
restabelecer as communicaes com os navios e o alto da Avenida,
reorganisar o quartel general. No Hotel Europe estavam Jos Relvas e
Eusebio Leo. Ambos haviam passado a noite entre os jornaes republicanos
e o consultorio do segundo. Fui ter com elles ao hotel e, depois de
almoarmos, Relvas e eu fomos para a rua e mais tarde, na _Lucta_,
comemos a tomar as providencias que os factos impunham. Brito Camacho
procurava instantemente canalisar os elementos dispersos, impedir a
derrota e com uma calma que pouca gente, de certo, lhe conhece, com uma
coragem serena, imperturbavel, resolvia os problemas que de momento se
nos apresentavam.

Em certa altura, discutimos o caso da morte de Candido dos Reis e
accordmos em mentir, affirmando que o vice-almirante vivia, para evitar
que o desanimo invadisse os elementos revolucionarios. Tratou-se da
interrupo das linhas ferreas e telegraphicas e de prevenir a hypothese
do governo monarchico receber qualquer auxilio da provincia, onde,
diga-se de passagem, a Carbonaria contava uma vasta rde de ligaes.
Silvestre Coelho, por indicao nossa, foi a Sacavem assegurar-se de que
a artilharia do forte estava disposta a obstar a qualquer avano sobre
Lisboa de elementos fieis ao antigo regimen. E como em artilharia 3 os
revolucionarios tinham um camarada dedicado na pessoa do capito
Figueiredo, em caadores 6 havia dois ou tres officiaes declaradamente
republicanos e infantaria 15 estava por nosso lado, socegmos os mais
receiosos de um ataque vindo de fra, explicando que as foras da
Revoluo o no podiam temer e que tudo marchava para um triumpho
redemptor.

Mas no limitmos a nossa aco a estas providencias. No Beato, no
Centro Joo Chagas, tinham-se concentrado 300 homens armados de
espingardas caadeiras e praas da guarda fiscal. Indicmos-lhes a
conveniencia de descerem at ao Rocio, por um itinerario cuidadosamente
escolhido e se no se realisou esse avano sobre as foras acampadas
n'aquella praa foi porque se reparou em dado momento que talvez esse
contingente de revolucionarios tivesse de desempenhar outra misso
importante no local da sua concentrao. Emfim, s quatro da tarde de 4,
a impresso era de que os acontecimentos se desenrolavam muito mais
favoravelmente para a Republica. Continumos, no emtanto, a providenciar
no sentido de no se perder, com uma imprudencia ou um gesto de
desalento, o que at ento fora feito  custa de muita dedicao. Jayme
Teixeira incumbiu-se de levar ao quartel de marinheiros uma communicao
tranquilisadora e outra communicao analoga foi enviada a Machado
Santos. N'uma e n'outra repetiamos que os revolucionarios estivessem
socegados porque no viria de fra de Lisboa auxilio  monarchia. A
Machado Santos tambem o preveniamos da imminencia do ataque effectuado
pelas baterias de Queluz.


No emtanto, Innocencio Camacho fra a bordo dos navios insurreccionados
dar-lhes indicaes seguras sobre o que se estava passando em terra.
Affonso Costa e Antonio Jos d'Almeida, depois de terem errado pelo
Hotel Central, a casa do dr. Augusto de Vasconcellos e outro ponto da
cidade, tinham ido parar a Algs, onde, a bem dizer, mal chegavam os
echos do tiroteio.




CAPITULO XIX

O desespero de Candido dos Reis condul-o ao suicidio


Tem-se dito por vezes, embora com todas as cautelas possiveis, que o
elemento popular _falhou_ na Revoluo de 4 e 5 de outubro. E cita-se,
em abono d'esta assero: 1. o facto de no terem comparecido, na
madrugada de 5, no local previamente designado, os civis que deviam
acompanhar o almirante Candido dos Reis e outros officiaes a bordo dos
navios de guerra; 2. a circumstancia da guarda municipal ter conseguido
sahir dos quarteis, pouco depois de iniciado o movimento, quando, pelo
plano estabelecido, os grupos de paisanos deviam impedir essa sahida ou,
pelo menos, retardal-a e tirar-lhe, por assim dizer, a utilidade do
momento.

A assero no  fundada. O elemento popular no _falhou_. A Revoluo,
se tinha de ser feita com o povo e com a tropa--o povo abrindo o caminho
 tropa--triumphou exactamente porque as melhores energias populares no
trepidaram no instante supremo. Os civis no compareceram,  certo, no
ponto marcado pelo almirante Candido dos Reis; mas no compareceram, e
isso j  do dominio publico, porque receberam na noite de 3 ordens em
contrario. De resto, a sua aco fez-se sentir efficazmente n'outro
ponto de Lisboa e o assalto aos navios de guerra no dependia
absolutamente da sua presena ao lado do almirante. Para obstar  sahida
da guarda municipal, havia escalonados diversos grupos, constituidos
cada um d'elles por uma duzia de homens, uns armados e outros no. Esses
grupos tinham recebido o encargo mais perigoso na distribuio dos
papeis revolucionarios: o de defrontar em _primeira mo_ a furia do
inimigo. Eram verdadeira _chair  canon_ e deviam iniciar o combate 
hora em que ninguem sabia ainda com preciso quaes os regimentos fieis 
monarchia e quaes os que adheriam  Republica.

[Ilustrao: Governo Provisorio da Republica Portugueza]

Esses homens cumpriram o seu dever. No obstaram completamente  sahida
da municipal, porque receberam na hora propria armamento insufficiente e
o itinerario do inimigo soffreu modificaes, mas conservaram-se firmes
no seu posto durante longas horas de espectativa angustiosa, correndo a
todo o instante o risco de se lanarem na lucta antes d'um signal de
esperana e sem saberem se seriam ou no secundados. E uma vez
dispersos, muitos d'elles foram procurar outros sitios de combate, onde
se portaram com inexcedivel coragem e bravura. Falando d'alguns d'esses
homens que foram seus companheiros na primeira noite da revolta, dizia
dias depois do triumpho o dr. Carlos Amaro:

--Deve-se-lhes, principalmente, a fora de f indomavel que foi o
segredo da victoria e no ficar sendo a Revoluo uma obra exclusiva do
heroismo militar.

E com effeito. Os civis estiveram na Rotunda ao lado de Machado Santos,
dando-lhe uma parcella de auxilio que o heroico revolucionario
certamente no desconhece; estiveram em Alcantara investindo contra as
foras organisadas da monarchia; entrincheiraram-se no quartel de
marinheiros e arrostaram o ataque da guarnio do pao das Necessidades;
foi um grupo de paisanos que denodadamente acompanhou um arrojado
official de marinha, o 2. tenente Tito de Moraes, a tomar conta d'um
dos navios de guerra; os civis  que assaltaram o _D. Carlos_; na
madrugada de 5, foram ainda os grupos de populares que incommodaram as
foras militares acampadas no Rocio; e por ultimo, os paisanos
distinguiram-se no arriscado servio de communicaes durante esse
periodo de cruel incerteza em que cada passo dado na area da insurreio
correspondia ao sacrificio de tudo, desde o amor da vida ao amor da
familia.

Contou-nos Jos Barbosa, assim que se dissiparam os fumos do combate: na
madrugada de 4, apoz a disperso do quartel general revolucionario,
quando elle, desalentado, entrava para o seu escriptorio da rua do
Loreto, viu um grupo de homens agitar-se com as armas na mo, em frente
da guarda municipal que guarnecia a Caixa Geral dos Depositos. Esse
grupo de homens no ignorava, decerto, que o seu acto era requerimento
para uma execuo summaria. E comtudo, realisava-o ardorosamente,
enthusiasticamente, desprendendo-se da existencia com um desapego notavel.

Outro caso: Machado Santos estava na Rotunda sem saber o que occorria
nos diversos pontos da cidade. Pensava j em mandar um emissario
dedicadissimo  busca de noticias e no occultava o seu aborrecimento,
provocado pela falta de informaes. De repente, apparecem no
acampamento dois rapazes e elucidam os revoltosos sobre a situao.
Esses dois rapazes tinham ido a p do Dafundo ao Alto da Avenida, e ali
se conservaram, at  proclamao da Republica.

E outros, muitos outros casos poderiamos citar, evidenciando a energia
de que o elemento popular deu provas nos dias 4 e 5 de outubro,
expondo-se s balas com uma coragem que por vezes roou a mais
extraordinaria loucura. Na tropa revoltada houve legitimos heroes; mas
os civis no _falharam_ como se apregoa insistentemente. Foram os
obreiros humildes do movimento e s lhes resta, como premio de tanto
esforo e sacrificio, a orgulhosa consolao de terem sido os primeiros
a correr todos os riscos da aventura.

Folheemos agora uma pagina da Revoluo, que, por muito discutida, nem
por isso deixa de merecer n'estas narrativas um registo especial.
Referimo-nos  aco do almirante Candido dos Reis nas primeiras horas
do movimento, ao desanimo que o invadiu e  sua morte.

O valente official devia embarcar no Caes do Gaz acompanhado por uns dez
militares agaloados e um grupo de civis. Estes no compareceram no
local. Dos militares compareceram oito: o capito de fragata Fontes
Pereira de Mello, o tenente de caadores Helder Ribeiro e os tenentes de
marinha Silva Araujo, Carvalho Araujo, Arago e Mello, Monteiro
Guimares, Sousa Junior e Assis Ferreira. O primeiro a chegar foi o
tenente Carvalho Araujo; Candido dos Reis, que, aps a reunio da rua da
Esperana, fra ao Centro de S. Carlos e de l a casa d'umas pessoas de
familia residentes n'uma rua da Estephania, encontrou-se  meia noite
n'essa casa com o tenente Helder Ribeiro. Depois de breves palavras
sobre o movimento projectado, um e outro trataram de carregar as armas,
dois revolvers, de que estavam munidos.

Falou-se mais tarde, a proposito da morte do almirante, que o ferimento
encontrado na autopsia e a bala alojada dentro do craneo denotavam que
Candido dos Reis se servira para o provavel suicidio d'uma pistola
automatica. O tenente Helder Ribeiro  de opinio que elle no possuia
tal arma. E--diz o arrojado official--a raso  simples: quando quiz
carregar o meu revolver pedi-lhe algumas cargas do revolver que elle
tinha na mo. Cedeu-m'as, mas, como no servissem, trocmos ligeiras
impresses sobre a precipitao com que o armamento fra distribuido aos
revolucionarios. Era natural, portanto, que, se elle tivesse na occasio
outra arma que no esse revolver vulgar, m'a emprestasse para eu no
sahir  rua, como sahi, quasi desarmado.

Pouco depois da meia noite, o almirante Candido dos Reis e o tenente
Helder Ribeiro sahiram da casa da rua da Estephania e encaminharam-se
para o Aterro. Um vapor de pesca devia conduzir os officiaes
revolucionarios a bordo dos navios de guerra. Qual era? Dil-o o 1.
tenente Carvalho Araujo n'uma entrevista que concedeu a um jornal da manh:


Esse vapor era o _Chire_, que eu procurei ao longo da muralha, apenas
ali cheguei. N'esta rapida busca encontrei-me quasi de cara com uns
individuos, gente caracterisadamente de bordo, e eu, julgando tratar-se
de tripulantes do Chire, dirigi-lhes a senha: _Mandou-me procurar?_
Elles, porm, no me responderam o _Passe, cidado!_ que os devia
denunciar como gente nossa... Aquelle mutismo fez-me recolher
prudentemente, e assim me conservei at que chegaram os meus collegas, a
quem o almirante, em breve, mandou embarcar no _Chire_.

N'esse vapor chegaram a entrar alguns d'esses officiaes; lembro-me
muito bem: foram o Silva Araujo e o Sousa Junior, que por signal d'ahi a
pouco voltaram, com esta estranha noticia: o _Chire_ tinha as caldeiras
apagadas... Houve um momento de quasi indignao e,--porque no
dizl-o?--de desanimo... Mas em breve nos refizemos, e, por um excesso
de boa vontade, accordmos em que nos tinhamos enganado no nome do
vapor--e n'este numero estava Candido dos Reis, que no emtanto se
mostrou visivelmente contrariado... Embora! Nem assim se esmoreceu. E,
um pouco ao acaso, fomos caminhando para o _Dinorah_, na esperana de
que fosse aquelle o vapor que nos esperava. Recordo-me de que quem
entrou ali foram Candido dos Reis, Monteiro Guimares e eu...

--Um momento--interrompeu o jornalista entrevistador--Isso realisou-se,
 claro, depois do assalto?...

--Do assalto? Mas se no houve assalto nenhum...

--Parece-me, no emtanto, que me falou n'um assalto, quando ha pouco
fazia a descripo geral d'essa jornada...

--Sim, falei n'um assalto, mas para negar que tal se desse, em
contrario do que parece deprehender-se de varios depoimentos. Ns
entrmos no _Dinorah_ sem que ninguem, fosse quem fosse, nos impedisse o
passo...

--E uma vez l dentro...

--Mal punhamos p no navio, um homem da tripulao veiu ter comnosco e,
sem mais preambulos, com uma grande tranquillidade, que bem se via no
ser a de um iniciado, diz-nos: sabero vv. ss.as que o vapor no est
navegavel... O almirante estacou n'um pasmo e depois disse ao Monteiro
que descesse  casa das caldeiras a certificar-se...

--E era certo?

--Um pouco. O Monteiro trouxe debaixo a noticia de que na verdade o
_Dinorah_ no tinha ainda presso, mas poderia abalar dentro de meia
hora... N'estas circumstancias os officiaes resolveram esperar. E como
os outros collegas tinham ficado no caes, o almirante mandou-me que os
avisasse de que o vapor era o _Dinorah_. Desembarquei, indo pela muralha
adeante, em procura dos officiaes. No estavam j no mesmo ponto onde
pouco antes os deixara. Tinham achado prudente desviar-se um pouco,
porque ali comeava a concentrar-se a guarda fiscal, e tinha os seus
perigos uma tal visinhana... Estavam junto da cancela da linha ferrea,
e, para provar que me no escapou o mais pequeno pormenor d'essa noite,
direi que j l encontrei o Monteiro Guimares, a quem o almirante
mandara com uma ordem identica e que chegou antes de mim, por eu ter
perdido alguns minutos procurando os officiaes na muralha. No momento em
que transmittia a ordem do almirante ouviram-se no rio os primeiros
tiros de pea... Em terra j tinhamos tambem percebido o ruido da
fusilaria.

Quasi ao mesmo tempo ouvia-se, em artilharia 1, nove tiros...
Contmol-os, offegantes, e, n'um grande alvoroo, ficmo-nos depois 
escuta, esperando o resto.... Mas nada mais se ouviu, o que levou um dos
officiaes a exclamar: Dir-se-ia o signal das foras fieis... (Correra
entre os officiaes que o signal das foras monarchicas eram nove tiros
de artilharia...) Mas estava escripto que aquella noite seria para ns
de dolorosas surprezas... No mesmo instante appareceu-nos, vindo de
fra, das ruas, um collega que nos deu noticias vagas, mas muito
desanimadoras...

--Quem era esse official?--perguntou-lhe o jornalista.

--O tenente Arago e Mello, homem que foi a alma revolucionaria dos
navios, no periodo da organisao. Porque, creia isto: no trabalho de
preparao dos espiritos houve muita heroicidade, muita valentia que
mereciam historia. O perigo no existiu apenas dentro das horas de
combate; existiu tambem, e permanentemente, durante a obra de aliciao,
que se fez, dentro dos navios e dos quarteis,  custa de sacrificios
tremendos. O Arago, destacadamente, arriscou tudo, expondo-se
temerariamente, n'uma quasi loucura! Era vigiado, olhado com
desconfiana, e para isso concorria a clara falta de disciplina com que
as praas se lhe dirigiam, n'um quasi tu c, tu l nascido das
reunies... O Arago foi-se do caes, e, incanavel, expondo-se sempre,
andou pelas ruas, entrou nos quarteis, a sondar os acontecimentos; soube
depois que voltou l abaixo, porm em occasio em que j l no estava
nenhum official.

--Essa ultima affirmao vae contra outras, que do o tenente Arago
falando da muralha para Candido dos Reis, e dizendo-lhe: Meu almirante,
basta de sacrificios! Infantaria 16 est fuzilando o povo!

--O Arago no pode ter communicado com o almirante. Pelo menos no o
fez emquanto l estivemos. Quem lhe falou foi o Helder que, a nosso
pedido, se dirigiu ao _Dinorah_ a levar as ultimas noticias, e as
resolues d'um pequeno conselho de officiaes que reunimos n'essa
occasio para apreciar immediatamente os acontecimentos.


Esse conselho decidira adiar o embarque por mais algum tempo at os
officiaes alcanarem noticias exactas sobre o que se estava passando
n'outros pontos de Lisboa. As suas resolues, claro , ficaram, no
emtanto, dependentes do arbitrio do almirante. O tenente Helder, depois
de conferenciar sobre o assumpto com Candido dos Reis, voltou para junto
dos seus camaradas da marinha e communicou-lhes que o almirante desistia
do embarque.  o proprio tenente Helder quem nos refere esse incidente
da revolta:


--Carlos Candido dos Reis desanimara e no meio d'esse desanimo ouvi-o
proferir estas palavras:

--Est tudo perdido... No podemos effectuar o desembarque da marinha,
porque os dois vapores no vo junto dos navios de guerra; infantaria 16
conserva-se fiel  monarchia; artilharia 1 no adheriu; dos outros
regimentos no ha signal de cooperarem na revolta. Falhou a tentativa...
O melhor agora  todos ns voltarmos cada um para sua casa, mas de modo
que a policia no nos surprehenda.

E voltando-se para mim e outros officiaes:

--Os senhores podem desembarcar j. Eu ainda me demoro no vapor alguns
minutos...

Insistimos com elle para que saltasse immediatamente em terra, mas o
almirante teimou em conservar-se a bordo do rebocador, e s sahiu de l
quando dispersmos no Aterro...


Momentos depois, Candido dos Reis, sempre inquieto e desanimado, estava
 porta da casa de banhos em S. Paulo. Sahindo do _Dinorah_, com a
obcesso,--chamemos-lhe assim--de que o movimento abortra, fra at
ali, no esperanado em obter noticias que o reconfortassem, mas para
ouvir os outros revolucionarios e combinar com elles o partido a tomar
em taes circumstancias. Talvez se extranhe que o valoroso almirante
houvesse succumbido logo aps a primeira contrariedade--elle, to
energico, to cheio de f, to dedicado  propaganda republicana, em
summa, to devotado  organisao revolucionaria. Mas, Candido dos Reis
soffrera com o 28 de janeiro uma desilluso profunda e ao perceber que
falhara o assalto aos navios de guerra--esse assalto que elle julgava
indispensavel ao bom exito da revolta--no se conteve e exclamou, fra
de si, n'um arranco de patriotica indignao:

--J no ha portuguezes!...

Em S. Paulo, Alfredo Leal encontrou-o  porta do balneario, ao lado de
Soares Guedes, com os braos cruzados e em attitude pensativa. D'ahi a
pouco, appareceu no local o dr. Affonso Costa, que extranhou vl-o ali,
 hora em que o programma revolucionario o mandava ir a caminho dos
navios de guerra. Candido dos Reis respondeu-lhe contristado:

 verdade, estou aqui porque perdi a esperana no movimento e no sei o
que devo fazer. O meu logar era no caes, ao p da Companhia do Gaz, onde
devia encontrar-me com os officiaes. Mas em vez de preparativos da
revolta eu apenas observei as evolues da policia e da municipal, e
tenho o presentimento de que est tudo perdido.

Todos trataram de o serenar a tal respeito, e o dr. Affonso Costa
aconselhou-o a metter-se no automovel com Alfredo Leal, a fim de
verificarem o que se passava nos principaes pontos revolucionarios.
Foram e nada notaram de animador. Logo adeante de S. Paulo encontraram
dois policias fardados, que pareceram desconfiar do automovel. Proximo
do quartel de marinheiros apenas havia grupos de seis ou sete populares.
No caminho da Estephania e de Arroyos esbarraram com piquetes de policia
e guarda municipal que investigaram o auto com olhares prescrutadores.
N'essa altura, Candido dos Reis voltou a mostrar-se desanimado,
expressando-se, pouco mais ou menos, n'estes termos:

[Ilustrao: General Antonio do Carvalhal
Comandante da 1. Diviso Militar]

--Extranho isto. Em vez de agitao revolucionaria, s se v a policia e
tropas de preveno. Presinto que vamos ser assaltados e que terei de
dar um tiro nos miolos. Voc, Leal, no acha ridiculo que eu v acabar
n'uma esquadra de policia? Isso de forma alguma. Sahi para me bater, e
ou hei de morrer na revoluo ou hei de liquidar a vida pelas minhas
proprias mos.

Alfredo Leal tratou novamente de tranquilisal-o, mas Candido dos Reis
insistiu na ideia do suicidio:

--Para uma esquadra, nunca... antes a morte!...

Como era arriscado andar na rua quella hora, Alfredo Leal aconselhou o
almirante a recolher a casa e esperar ahi noticias do movimento. O
almirante concordou e n'esse sentido dirigiu-se o automovel para a rua
D. Estephania, dizendo Candido dos Reis ao seu companheiro:

--Bem. Eu vou para casa de minha irm, n'esta mesma rua, n. 153. Voc
vae saber o que ha de novo, e, se a revoluo estiver em bom caminho,
mande-me prevenir.

Quando o automovel ia a parar  porta do n. 155, a atteno do
almirante foi despertada por um facto extranho. A porta da rua estava
aberta e um vulto desapparecia, n'esse momento, no limiar. Tanto Candido
dos Reis como Alfredo Leal viram distinctamente esse vulto e ficaram
hesitantes durante algum tempo, conjecturando sobre o que seria. Por
fim, Candido dos Reis, tranquilisando-se, a si proprio, resolveu entrar
em casa. Alfredo Leal ainda esperou que o almirante fechasse a porta
atraz de si e depois metteu-se de novo no automovel, scismando
apprehensivo no vulto que pouco antes vira. Seria um espio da
policia?... Alfredo Leal ficou com a impresso de que se tratava
realmente d'uma creatura assoldadada para vigiar o almirante. O que
succedeu depois, conta-o elle d'este modo:


Como achasse imprudente voltar no automovel  casa de banhos, resolvi
dirigir-me a casa de meu irmo, em Santos, e ali ordenei ao _chauffeur_
que seguisse para o local onde se combinra estacionar. Mal ouvi a
fuzilaria, parti, a p, para uma casa da travessa da Palha em que se
reuniam alguns revolucionarios. No caminho, tive a felicidade de
encontrar o automovel do irmo de Innocencio Camacho, que ia para o
mesmo destino, e tomei logar ao lado d'elle. Apenas chegado, contei a
Joo Chagas e outros o que se tinha passado, e como n'essa altura j o
tiroteio fsse violento em toda a cidade, consultei os outros sobre a
maneira de prevenir Candido dos Reis. Assentou-se em mandar um popular
de confiana, porque, sendo eu conhecido da policia, podia esta deter-me
no caminho e impedir que o recado chegasse ao seu destino. Com effeito
fui procurar um republicano de confiana e encarreguei-o de levar o
recado a Candido dos Reis. Deviam ser, n'essa altura, 3 horas ou 3 e
meia da manh.

Pode calcular-se a anciedade com que ficmos esperando o regresso do
emissario. Mais de duas horas passaram e o homem no chegava. Por fim,
j muito inquieto, resolvi descer  rua e tive a felicidade de esbarrar
com o emissario, que regressava todo afflicto. No tive tempo de lhe
perguntar o motivo da sua enorme demora. O homem desfechou-me
bruscamente a noticia da morte de Candido dos Reis, descrevendo assim
como se desempenhra da sua misso:

--Quando cheguei  rua de D. Estephania, disseram-me ali que o
almirante tinha sahido s 5 horas da manh. Tratei ento de saber onde
era a sua residencia, por calcular que elle tivesse seguido para l.
Passado pouco tempo avistava-me effectivamente com a familia, a quem fui
encontrar no mais completo desolamento. J l tinha chegado a noticia de
que Candido dos Reis apparecera morto e de que o seu cadaver fra
removido para a _Morgue_.


O que se tinha passado durante esse periodo de tempo que medeiou entre a
entrada do almirante no n. 153 da rua de D. Estephania e a appario do
seu cadaver na Azinhaga das Freiras, em Arroyos? O cadaver de Candido
dos Reis, quando uns populares o ergueram do solo, estava estendido ao
comprido e com os ps na direco da estrada de Sacavem. Tinha o brao
direito afastado do corpo e proximo do antebrao uma pistola automatica.
No fato: uma bolsa de cabedal com 500 ris em prata, quatro nikeis de
100 ris e uma moeda de cinco ris nova em folha, e uma carteira com uma
nota de 5$000 ris e varios papeis...

A primeira pessoa que topou na Azinhaga das Freiras com o cadaver do
almirante foi o trabalhador Joo Augusto da Silva. Empregava-se ao tempo
na reconstruco d'um muro proximo e passou no local s 6 e um quarto da
manh. A essa hora, a azinhaga estava deserta. Foi  arrecadao do
material, distante uns quarenta metros, pegou n'uma p e voltou para o
amassadouro da cal, que era mesmo  esquerda. Candido dos Reis j estava
estendido no cho e agonizava. O trabalhador Joo Augusto da Silva
chamou ento outros operarios, um servente requisitou a comparencia de
dois policias da esquadra de Arroyos e, depois de se verificar que o
almirante succumbira ao ferimento recebido na cabea, transportaram o
cadaver para a Morgue. Os dois policias tomaram conta da pistola
automatica, da carteira e da bolsa a que atraz nos referimos.

Coisa curiosa: esse trabalhador, quando interrogado por um _reporter_
sobre os pormenores que acabamos de registar, affirmou peremptoriamente:
1. que s 6 horas e um quarto da manh a Azinhaga das Freiras estava
deserta; 2. que no ouvira nenhuma detonao durante o espao de tempo
que medeiou entre a sua passagem  primeira vez no local e o encontro do
cadaver. Em contrario d'esta affirmao depz a esposa d'um enfermeiro
residente na rua de Arroyos, que disse o seguinte:

--No dia 4 de outubro, cheguei  janella s 6 da manh, esperando a
leiteira. Vi que no passeio, em baixo, passeiava d'um lado para o outro,
n'uma extenso de dez metros, um individuo vestido todo de negro, que,
de quando em quando, me fitava, o que me obrigou a retirar para o
interior da casa. Passados dez minutos, quando novamente  janella, vi
esse individuo sentado n'um marco de pedra. Voltei dentro a buscar
vasilha para o leite, e quando assomei  porta senti um estalido secco,
a que no liguei importancia, tanto mais que s vi fugir alvoroadas
algumas gallinhas. Instantes depois, percebi certo borborinho. Cheguei
novamente  janella, e o sr. Leito, fiscal do hospital d'Arroyos,
disse-me:

--Est ali um homem morto. Parece-me que  tio d'uma empregada. Vou
chamal-a.

No emtanto, emquanto o fiscal se dirigia ao interior do hospital, desci
 rua, e, ao vr o corpo estendido no cho, exclamei:

-- o homem que ainda ha pouco ali passeava defronte...


Mas ou seja o que contou o trabalhador Joo Augusto da Silva, que o
almirante surgiu na Azinhaga das Freiras s 6 e 30 da manh e, mal ali
surgiu, cahiu moribundo, ou como contou a esposa do enfermeiro, isto ,
que Candido dos Reis passeara algum tempo na azinhaga antes de morrer, a
verdade  que parece nitidamente averiguado que n'esse momento de
tragico desespero, no local do doloroso acontecimento, s estava o
almirante. Mais ninguem. E sendo assim,  foroso arredar da narrativa
do caso a hypothese d'um crime. Fica, apenas, de p, a do suicidio. E
ser admissivel essa hypothese? . O almirante, depois de ter entrado na
casa da rua D. Estephania, onde imprudentemente o deixou Alfredo Leal,
recolheu ao quarto de dormir, mas no enfiou logo na cama. Esteve um
pedao a reflectir na situao, a ponderar no insuccesso do
movimento--que elle suppunha absolutamente perdido. Depois deitou-se.
Mas a ida de que tudo liquidra n'uma desastrada aventura no o deixava
pregar olho. s quatro da manh, ouvindo o estrondear do canho,
ergueu-se e vestiu-se. E  natural que, n'esse instante, tendo recebido
a impresso de que n'um determinado ponto de Lisboa os revolucionarios
combatiam corajosamente contra o inimigo monarchico, ao seu espirito
acudiu tambem a ida de que os bravos assim lanados em declarada
rebellio j o tinham talvez considerado, por o no verem a seu lado, um
medroso, um covarde.

E ento, Candido dos Reis, que trabalhara com alma e deciso n'uma longa
preparao revolucionaria, como trabalharam S Cardoso, o capito Palla,
Machado Santos e outros, sacudido por essa ida, magoado porque o
pudessem suppr o que elle nunca tinha sido, achando, certamente, que j
era tarde para enfileirar condignamente com os que luctavam desde a 1 e
30 da madrugada, elle, que estivera inactivo at esse momento, julgou
que desmerecera por completo no conceito dos seus amigos, dos seus
camaradas, dos seus correligionarios e... suicidou-se. Repetimos: isto 
uma hypothese que formulamos. Para ns, como para muita gente que seguiu
de perto a discusso jornalistica que apoz a revoluo se estabeleceu
sobre o assumpto, a hypothese do suicidio  perfeitamente acceitavel.
Para outros no: para outros Candido dos Reis foi victima d'uma cilada
preparada pelos inimigos da Republica e argumentam que seria
coincidencia muito extraordinaria que, a dois passos da victoria,
desapparecessem exactamente duas grandes figuras da preparao
revolucionaria,--uma, Miguel Bombarda, attingido por um doido, a outra,
o valoroso almirante, esmagado pelo desespero.




CAPITULO XX

O rei Manuel abandona o palacio das Necessidades


Deixmos os revolucionarios de posse do quartel de marinheiros na altura
em que, tendo destroado as foras monarchicas em Alcantara, haviam
recolhido ao edificio e ali organisado uma defeza. Pouco depois,
amanheceu. E ento, relata o 1. tenente Parreira, verificou-se que
pelo lado sul infantaria 1 estava occulta com as casas do caminho de
ferro e tapumes, desenvolvendo-se at  rua da Costa, acompanhada tambem
da guarda fiscal e d'alguma cavallaria 4. s 6 horas os navios, ainda a
leste, deram algumas salvas, iando ns no mastro da parada a bandeira
encarnada, para poder ser vista pelos navios. Ao mesmo tempo na rua
estabeleciam-se vedetas, que fizeram a apprehenso de varios artigos,
taes como uma carroa de po da padaria militar e outra de carne que foi
levada para as cozinhas do quartel, bem como uma carroa de refrescos
que passava na occasio.

Pelas 7 horas da manh veiu um dos chefes de um dos grupos civis
informar que o _S. Raphael_ e _Adamastor_ tinham bandeira revolucionaria
iada, mas que a bordo do _Adamastor_ lhe haviam dito ser preciso um
official para commandar o _S. Raphael_, visto l no haver official
algum, e o _Adamastor_ estar apenas commandado pelo tenente Cabeadas
esperando ordens. Esta informao levou o tenente Parreira a ordenar ao
tenente Tito de Moraes que fosse tomar o commando do _S. Raphael_ e
indagasse o que succedera, o que elle fez, seguindo com 4 civis para o
Aterro, na inteno de tomar qualquer embarcao que lhe apparecesse ou
mesmo utilisar-se d'uma falua do Arsenal que ali estava ao servio do
carvo e cujo encarregado se pz  disposio dos revoltosos.

Proximo das 9 horas veiu um sargento, que recolhia de licena,
communicar que tinha recebido ordem do commandante das foras fieis ao
regimen monarchico e que defendiam as Necessidades para da sua parte
intimar o commandante das foras de marinha a render-se no praso de 15
minutos, sob pena de mandar metralhar o corpo de marinheiros, ao que o
tenente Parreira respondeu, mandando armar o sargento e fazendo-o entrar
na linha de fogo.

Algum tempo depois vimos o _S. Raphael_ seguir rio abaixo vindo fundear
em Alcantara em frente do quartel de marinheiros, e desembarcar uma
fora com uma metralhadora e as munies precisas para guarnecer a gente
do quartel, e tambem os officiaes que faziam parte da guarnio do
navio, e que vieram presos para terra, sendo mettidos nos calabouos do
quartel.


Mas, no prosigamos no desenrolar d'esta documentao sem uma referencia
demorada s peripecias que precederam o desembarque dos marinheiros no
quartel de Alcantara e o bombardeamento do Pao das Necessidades. Como
j dissmos, s 7 horas da manh do dia 4, o tenente Parreira recebeu as
primeiras informaes do que occorria a bordo dos navios revoltados: o
_Adamastor_ e o _S. Raphael_. Essas informaes foram-lhe prestadas,
alm de outros civis, por Estevo Pimentel, que j tinha estado a bordo
do _Adamastor_ e falara com o tenente Cabeadas. Era foroso ir tomar o
_S. Raphael_, no s porque o comando do barco devia ser exercido por um
official, mas porque os officiaes prisioneiros dos revoltosos se
esforavam por convencer os seus aprisionadores a desistirem da
insurreio.

O tenente Parreira consultou os officiaes que o acompanhavam. O tenente
Tito de Moraes offereceu-se logo para ir desempenhar essa misso de
confiana e foi ao _Adamastor_, d'onde seguiu mais tarde para o _S.
Raphael_. Tomou conta do barco e quando os seus camaradas monarchicos
lhe manifestaram o receio de qualquer complicao, se o movimento,
porventura, no triumphasse, o distincto official pegou n'um papel e
n'uma penna e redigiu uma declarao honrada e firme que concentrava na
sua pessoa toda a responsabilidade do que de futuro succedesse.

Depois, ordenou aos officiaes do _S. Raphael_--que os marinheiros
revoltados tinham aprisionado--que se conservassem detidos at o momento
de irem para terra, e, assumindo o commando do cruzador, trouxe-o para
Alcantara. O _Adamastor_ preparava-se, no emtanto, para largar da boia e
ir occupar uma posio identica ao lado do _S. Raphael_.  passagem do
_S. Raphael_ junto do _D. Carlos_, que ainda ostentava a bandeira azul e
branca, as poucas praas ento a bordo do segundo d'esses cruzadores
proromperam em vivas  Republica. Um popular ainda lembrou ao tenente
Tito de Moraes:

--E se ns fossemos agora tomar o _D. Carlos_?

O denodado official hesitou uns segundos, mas depois replicou:

--Logo... fica para logo... Agora temos outro servio a fazer.

[Ilustrao: Proclamao da Republica Portugueza pelas Camaras
Constituintes]

Em Alcantara, no momento em que o tenente Tito de Moraes fazia
desembarcar do _S. Raphael_ os officiaes presos, cincoenta marinheiros
revoltados, uma metralhadora e alguns cunhetes de polvora, appareceu-lhe
n'um bote, em mangas de camisa, o commissario naval Marianno Martins,
que, sendo conspirador e no tendo recebido a tempo o aviso de
comparencia, resolvera no dia 4 de manh dirigir-se a bordo d'aquelle
vaso de guerra, despindo a sobrecasaca do uniforme para que da majoria
general o no reconhecessem.

--s suas ordens, meu commandante!--disse Marianno Martins ao tenente
Tito de Moraes. Este agradeceu-lhe a collaborao n'um aperto de mo
cordealissimo e confiou-lhe, entretanto, o comando do cruzador. Marianno
Martins subiu a escada e quando se dispunha a entrar no barco olhou para
a fragata que transportava os seus camaradas prisioneiros e
perguntou-lhes, sem perceber no momento a situao em que todos elles se
encontravam:

--Ento... vocs no ficam?

Um silencio doloroso acolheu a pergunta. Cortou-o um viva enthusiastico
 Republica soltado por um revolucionario e a fragata largou
immediatamente do _S. Rafael_.


No quartel dos marinheiros, porm, no havia a menor informao do que
se passara durante todo esse tempo na Rotunda ou em qualquer outra parte
da cidade. S proximo do meio dia  que ali chegaram um dos membros do
Directorio, o sr. Malva do Valle, e Celestino Steffanina, expondo a
verdadeira situao das foras revolucionarias, que conheciam
pormenorizadamente por terem estado pouco antes no Alto da Avenida.


Logo--conta o tenente Parreira--se impoz a junco com as foras da
Rotunda, e julgando-se necessario inutilisar ou pelo menos enfraquecer,
desmoralisando-a, a brigada que defendia as Necessidades, foi ordenado o
bombardeamento do pao, que demorou algum tempo, e depois do corpo de
marinheiros estar debaixo de um intenso fogo das metralhadoras de
caadores 2 e das restantes foras fieis  monarchia.

O effeito d'este bombardeamento foi surprehendente, porque, levantando
o moral das nossas foras, provocou grande desanimo nas foras
contrarias. Ainda debaixo do fogo das metralhadoras tivemos a alegria de
ver entrar no quartel o medico Vasconcellos e S, cujo papel distribuido
no era ir para o corpo de marinheiros  1 hora da noite, mas sim
esperar com automoveis o desembarque da gente dos navios na Rocha do
Conde de Obidos, s 2 horas da manh, desembarque que no se fez. Este
official, a quem no mandaram automoveis ao hospital da Marinha e que j
tinha feito seguir antes da 1 hora da noite os 4 enfermeiros com
ambulancias portateis para o Aterro e que se apresentaram depois no
corpo--apenas ouviu, no hospital, os tiros de pea, tentou seguir por
sua vez com um enfermeiro, deixando as ambulancias no Hospital da
Marinha e enfermeiros com ordem de as levarem para onde fosse preciso,
caso ainda apparecessem os automoveis promettidos. No conseguindo
passar, em virtude de descargas das foras que a essa hora guarneciam o
Museu de Artilharia, voltou ao Hospital da Marinha, onde comeou a fazer
operaes e os curativos precisos nos feridos que vinham chegando, at
que finalmente, j cheio de impaciencia, conseguiu arranjar um automovel
que conduziu ambulancias, 4 enfermeiros e elle, medico, e, seguindo pelo
Aterro, atravessou as foras da municipal que estavam no Terreiro do
Pao, e, chegando ao quartel de marinheiros, entrou logo no exercicio
das suas funces.

Entretanto, ainda vieram emissarios de Machado Santos insistindo pela
junco e informando que a passagem por terra para as bandas de Leste
seria de pouca segurana, pois as ruas a atravessar estavam guarnecidas
pela municipal e interceptavam a passagem. Ficou ento assente em
principio que seguiriamos por mar, embarcando nos cruzadores, varrendo
as ruas da baixa com bombardeamento do mar e procurando desembarcar a
leste do Terreiro do Pao, no caso que fosse mais accessivel.


O primeiro projectil dos navios revoltados que cahiu no pao das
Necessidades lanou um panico medonho nas creaturas que ento velavam
pela integridade do sr. D. Manuel. O pao estava guarnecido de tropas
que se suppunha fieis ao antigo regimen. O quartel general entendera
que, antes de mais nada, devia proteger a residencia do soberano e
accumulara ali todos os elementos militares que no tinham tido
cabimento no Rocio. Estes defendiam o quartel general; o restante
guardava o palacio do rei. E durante horas esta situao de pura
defensiva manteve-se inalteravel, apenas fracamente entrecortada por um
esboo de ataque ao quartel dos marinheiros delineado como que a medo
pelas tropas acantonadas nas Necessidades.

O panico que o bombardeamento produziu no pao foi enorme. O rei correu
ao oratorio a implorar a interveno divina, e emquanto uma meia duzia
de servidores--dedicados no ha duvida--se conservava lerta, disposta a
acompanhar o monarcha nas suas glorias ou nas suas vicissitudes, os
outros servos--a grande maioria--abandonavam precipitadamente o
edificio, possuidos do mais extraordinario pavor. At as cozinhas do
pao se resentiram da fuga... Como os tiros da artilharia naval
continuassem a incidir sobre as paredes que ainda abrigavam essa crte
em perfeita dissoluo, o rei teve um impulso de deciso. Chamou o
official da guarda e disse-lhe:

--Telephona ao presidente do conselho...

Mas o apparelho no funccionava convenientemente e o sr. D. Manuel,
decerto obcecado pelo que alguns aulicos lhe tinham dito em tempos sobre
um provavel apoio da Gran-Bretanha  dynastia de Bragana, exclamou para
um cortezo:

--Se estiver no Tejo algum _destroyer_ inglez, que metta no fundo os
navios revoltados!...


D'ahi a pouco, os dedicados servidores do palacio tomavam resolues
importantes sobre a situao. Convidaram o soberano a sahir do edificio,
onde j corria grave risco, e acompanharam-no ao extremo da Tapada. Ahi
deviam tomar logar em dois automoveis e partir para Mafra--o unico ponto
de confiana para o antigo regimen e que podia proporcionar-lhe um
reducto de certa consistencia.

[Ilustrao: Candieiro furado pelas balas na Avenida da Liberdade]

Assim se fez. O rei enfiou para o automovel d'uma _garage_ particular,
que haviam chamado  pressa, e no mesmo vehiculo metteram-se tambem os
srs. conde de Sabugosa e marquez do Fayal, o primeiro vestindo ainda a
casaca com que na vespera assistira ao banquete offerecido no pao de
Belem ao marechal Hermes da Fonseca. No outro automovel seguiram os dois
unicos creados que no tinham fugido do pao com os primeiros effeitos
do bombardeamento. At certa altura, os dois vehiculos foram escoltados
por uma fora de cavallaria da municipal. Contou mais tarde o
commandante d'essa fora que por um triz uma granada da artilharia naval
no desfez o automovel que conduzia o sr. D. Manuel. Foi n'um momento em
que esse vehiculo soffreu uma _panne_. Instantes depois da avaria ser
remediada e do automovel ter proseguido de novo a sua marcha, a exploso
do projectil juncou de estilhaos mortiferos precisamente o ponto onde o
rei aguardara, triste e silencioso, o concerto do carro.


As duas rainhas, entretanto, esperavam anciosamente noticias de Lisboa:
a sr. D. Amelia no Castello da Pena e a sr. D. Maria Pia no palacio da
villa de Cintra. No dia 4, s duas horas da madrugada, o telephone havia
annunciado  criadagem da me do monarcha que a Revoluo estalara em
Lisboa. Como ella dormia, ninguem a quiz despertar para to sensacional
noticia. S s oito da manh  que lhe disseram francamente a verdade. A
sr. D. Amelia mandou ligar para o pao da villa e a sr. D. Maria Pia
decidiu logo ir  Pena com a s. marqueza de Unho e o sr. conde de
Mesquitella. Junto da nra, a viuva do sr. D. Luiz procurou mostrar-se
serena, resignada, possuida ainda d'uma energia fra do commum. Mas a
sr. D. Amelia no se conteve e como o telephone para o pao das
Necessidades continuava a funccionar pessimamente, lanou-se n'um
desespero indescriptivel. Deu ordens e contra-ordens, tentou communicar
o mais rapidamente possivel com o chefe do governo e, ao cabo de
inauditos esforos, l conseguiu que de Lisboa lhe dissesem que o rei
tinha sahido de casa, a caminho d'um refugio seguro.

No dia 5 de manh, as duas rainhas partiam de Cintra para Mafra. O sr.
D. Manuel esperava-as no convento, rodeado pelos servidores fieis:
condes de Sabugosa e S. Loureno, marquez do Fayal, tenente coronel
Waddington, Vellez Caldeira e dr. Mello Breyner. Depois do almoo, que
ainda foi servido em Mafra, uns emmissarios que surgiram offegantes
vindos de Cascaes, noticiaram que a Republica j havia triumphado. Logo
a seguir, outro emmissario notificou que o _yacht Amelia_ se encontrava
na Ericeira tendo a bordo o sr. D. Affonso e que a familia real devia
embarcar sem perda de tempo, para evitar que os revoltosos ainda a
surprehendessem em territorio portuguez. Como o _yacht_ tinha poucos
mantimentos, o monarcha, a me e a av arranjaram farneis e puzeram-se a
caminho d'aquella praia.


Antes da partida, a sr. D. Maria Pia mostrou alguma relutancia em
abandonar o paiz sem ter sido primeiro intimada a fazel-o pelo governo
republicano. Mas quando lhe mostraram a inconveniencia d'esse
procedimento, ella mergulhou n'um silencio perturbador, que manteve at 
entrada no _yacht_. No primeiro automovel seguiram para a Ericeira a
sr. D. Amelia, a condessa de Figueir, D. Maria de Menezes e Vasco
Belmonte; no segundo a sr. D. Maria Pia, a marqueza de Unho e o conde
de Mesquitella; no terceiro, o sr. D. Manuel, os condes de Sabugosa e S.
Loureno, marquez do Fayal, Waddington e Mello Breyner. Atraz uma
escolta de cavallaria. Na Ericeira juntaram-se aos fugitivos os srs.
Serro Franco e dr. Eduardo Burnay. O mar estava agitado e o embarque
tornava-se difficil.


Ainda assim, com a promessa d'uma forte recompensa, o sr. Serro Franco
obteve que os tripulantes de dois barcos de pesca se decidissem a
transportar a familia real para bordo do _yacht_. No primeiro embarcaram
as duas rainhas; no segundo o monarcha. A bagagem da sr.a D. Amelia
consistia apenas n'uma mala de folha com alguma roupa branca; a do sr.
D. Manuel n'uma caixa com meia duzia de lenos. A me do monarcha, ao
attentar na pobreza dos dois barcos de pesca que iam servir de
_galeotas_  familia desthronada, ainda exclamou:

--No esperava isto dos portuguezes!... _C'est une infamie_.

O rei, esse, contentou-se em affirmar a sua abnegao pelo povo que at
aquelle momento suppozera governar e, chamando de parte o sr. Serro
Franco, pediu-lhe que entregasse ao presidente do conselho uma carta, em
que asseverava no abdicar mas apenas eximir-se por algum tempo ao
tumultuar da nao. Essa carta, diz-se, nunca chegou ao seu destino. No
emtanto, os telegrammas de Gibraltar para os jornaes de Paris
reproduziram dois dias depois o seu texto quasi na integra.  um
documento sem valor politico e que demonstra simplesmente quanto o rei
andava illudido sobre a situao da monarchia e... dos monarchicos.

Feito o embarque, o _yacht_ poz-se logo em andamento, indo dar a volta
s Berlengas para tomar o rumo. Eram 4 da tarde do dia 5 de outubro de
1910.




CAPITULO XXI

A artilharia revolucionaria repelle o ataque das baterias de Queluz


Entretanto, na Rotunda, dava-se esta circumstancia feliz, que muito
contribuiu para o exito do movimento: o elemento popular, longe de
desanimar com a falta de noticias seguras sobre os episodios da
Revoluo occorridos n'outros pontos de Lisboa, mostrava-se de instante
para instante mais corajoso, mais decidido a combater at  ultima pela
causa republicana. s 7 da manh do dia 4, Pinto de Lima, que estivera
no quartel de marinheiros e fra testemunha do combate de Alcantara,
entrou na Rotunda resolvido a dar noticias d'essa aco triumphante dos
revolucionarios commandados pelo tenente Parreira.

[Ilustrao: A Bandeira Nacional]

No meio do acampamento, S Cardoso, que de madrugada repellira com
energia o primeiro ataque da municipal, dava do alto do cavallo que
montava umas instruces aos outros officiaes que at ali o tinham
acompanhado. Perto andava o capito Palla. Mas como este vestia o
uniforme de servio interno e S Cardoso ostentava o dolman azul-ferrete
com os gales do seu posto, todas as attenes derivavam naturalmente
para o arrojado conspirador, que de resto, como j tivemos ensejo de o
dizer, era, n'aquella occasio, o commandante em chefe da columna
revoltada. Machado Santos dirigia n'outro ponto do acampamento uma fora
mixta de populares e soldados de infantaria 16. A confuso era enorme.
Pairava no ambiente a duvida, a duvida terrivel de que a sahida dos dois
quarteis, o d'aquelle regimento e o de artilharia 1, no fra secundada.
Pinto de Lima abeirou-se de S Cardoso e disse-lhe pormenorisadamente o
que sabia do quartel dos marinheiros, solicitando-lhe ao mesmo tempo uma
nota sobre a situao exacta das foras da Rotunda para a levar ao
tenente Parreira. S Cardoso acquiesceu, pediu um lapis ao capito Palla
e escreveu n'um pedao de papel:


    Estou na Rotunda com os regimentos de infantaria 16 e artilharia 1,
    completos.

                                                          _S Cardoso._


Pinto de Lima desceu a Avenida e l foi a Alcantara communicar ao
tenente Parreira essa informao. Pouco depois, S Cardoso, o capito
Palla e os outros officiaes que os tinham acompanhado  Rotunda,
decidiam no prolongar a resistencia, considerando-a absolutamente
inutil. Essa resoluo, comprehende-se, tem sido apreciada de diverso
modo. Uns vem n'esse acto uma fraqueza moral, resultante da deficiencia
de communicaes entre o acampamento e os diversos focos
revolucionarios. Outros, filiam-n'o no reconhecimento technico por parte
d'esses officiaes de que a posio da Rotunda era insustentavel. Pelo
que ouvimos a creaturas que seguiram bem de perto esses acontecimentos,
o abandono do acampamento foi simplesmente provocado pela falta de
coheso, de unidade de todos os elementos compromettidos na Revolta. O
programma previamente combinado no foi executado nos seus pontos
essenciaes. Querem um exemplo? Ahi vae.

Tres grupos de revolucionarios civis deviam pouco antes de se iniciar a
insurreio cortar em trez pontos differentes os fios telephonicos que
punham em contacto o quartel general da 1. diviso e outros quarteis,
nomeadamente os da guarda municipal. O primeiro grupo, que devia operar
em determinado local da rua de Santo Anto no levou a cabo a sua misso
perigosissima porque esbarrou com uma porta fechada... quando contava,
afinal, vl-a aberta a um signal de conveno. O segundo grupo, operando
no Rocio proximo da rua do Amparo, tambem no poude cumprir o encargo
que espontaneamente assumira, pela falta de meios de accesso a uma certa
dependencia de certo edificio. Faltou-lhe uma chave, em summa. O
terceiro, com posto marcado na rua Augusta, viu-se egualmente
impossibilitado de executar o plano, por um incidente imprevisto, um
d'esses incidentes que, parecendo insignificantes, s vezes mudam por
completo a face das coisas.

Resultado pratico de tudo isto: o quartel-general da 1. diviso que,
pela previso dos revolucionarios, no devia, no momento opportuno,
poder communicar com os outros quarteis e nomeadamente com os da guarda
municipal, teve tempo e tempo de sobejo para dar varias ordens e fazer
sahir  rua os elementos indispensaveis a uma defeza efficaz das
instituies monarchicas. E d'aqui j se deprehende o seguinte: S
Cardoso, o capito Palla e os outros officiaes que s 9 horas da manh
do dia 4 abandonaram a Rotunda no cederam n'esse instante d'uma
psychologia extremamente complicada ao receio de combater, de entrar em
fogo. Quem, como o capito Palla--sem contar o seu infatigavel trabalho
de preparao revolucionaria--se resolve a um acto grave da vida
arrastando para a revolta dezenas de homens confiados ao seu commando;
quem, como S Cardoso se decide a montar a cavallo e sahir para a rua 
frente d'uma massa indomita e sedenta de liberdade; quem faz isso
apoz longos mezes de agitao mal reprimida, d'um balano demorado aos
prs e contras da aventura--no pode succumbir a um arrepio de medo,
muito embora o medo seja uma impresso contagiosa que se propaga com
rapidez e com rapidez se extingue.

S Cardoso, o capito Palla e os outros officiaes abalaram na madrugada
de 4 para a insurreio com a convico profunda de que serviam uma
causa justa. Do quartel de artilharia 1 at  Rotunda, essa abalada foi
vertiginosa, febril, apenas entrecortada por tres escaramuas que os
revolucionarios liquidaram n'um prompto, n'um _elan_ de energia, de
coragem, de deciso. No lhes fez mossa a attitude de muitas
mulhersinhas que, despertadas na tranquilidade domestica pelo fragor
d'essa correria desenfreada, appareceram ento s janellas lamentando em
ais doridos a sorte futura dos revoltosos... Foram para a Rotunda com a
certeza do triumpho e que no tardariam a ser secundados pelos
marinheiros ou pelas foras de outros regimentos affectos  Ideia.
Ainda, mais: com a quasi certeza de que a municipal se veria
impossibilitada nas primeiras horas do movimento de exercer a sua aco
offensiva em favor da monarchia. Mas d'ahi a pouco essa certeza e quasi
certeza eram chocadas pela realidade. A municipal manobrava  vontade
pelas ruas de Lisboa, os marinheiros no tinham desembarcado e os outros
regimentos, se se moviam, mostravam antes hostilidade aos republicanos
do que auxilio  sua iniciativa. Alvorecia a manh de 4 e com os
primeiros raios do sol nascente arrefecia o enthusiasmo dos
conspiradores. Estes, que tinham entrado na Rotunda sob o impulso de uma
f intensa, d'uma confiana cega na victoria, que ali tinham cahido como
uma avalanche imponente, destruidora, comeavam agora a encarar a
situao com a frieza e a calma que se succedem a uma phase, mais ou
menos curta, de excitao e de loucura patrioticas. O mar tempestuoso da
revolta principiava a sentir os effeitos calmantes da reflexo technica,
da apreciao profissional...

O resto d'esta historia  conhecidissimo do publico. Os officiaes,
reunidos em conselho--e custou reunil-os, porque os incidentes que ento
occorriam na Rotunda attrahiam a atteno ora d'um ora d'outro--os
officiaes, repetimos, foram unanimes em concordar que a aventura s por
milagre deixaria de liquidar n'uma verdadeira hecatombe. Decidiram o
abandono do acampamento. N'essa hora de desanimo nenhum d'elles se
recordou que momentos antes praticra actos de bravura e que a logica
lhes aconselhava manter at final a attitude delineada no comeo da
insurreio. Viram apenas isto: a responsabilidade que assumiam,
contribuindo com a sua presena na Rotunda para que os homens, que at
ali haviam arrastado, continuassem a sacrificar-se pelo ideal
republicano. Pensaram que a sua sahida do acampamento corresponderia a
um dispersar immediato do povo fardado e no fardado.

E afinal no succedeu assim. Apoz essa sahida, alguns dos elementos
revolucionarios, que at ento se tinham limitado a executar as ordens
dos chefes, tomaram a iniciativa de preencher a vaga do commandante
supremo da _columna da Rotunda_ e manifestaram a Machado Santos o desejo
de combater _ outrance_. Diziam elles: no acampamento encontram-se
ainda sargentos de artilharia 1 que conhecem o manejo das peas, que so
poderosos instrumentos de guerra; temos, portanto, o necessario para
resistir com vantagem a um ataque serio do inimigo. Machado Santos
concordou e, tendo entrado na Revoluo com o proposito firme de lhe
dedicar a pelle, decidiu queimar o ultimo cartucho na defeza da posio
que o acaso lhe confira.

D'ahi a pouco, algumas das peas de artilharia foram transportadas da
Rotunda para o Parque Eduardo VII, em volta do acampamento levantaram-se
uns modestos obstaculos a fingir de barricadas e os revoltosos
dispozeram-se a morrer dentro d'esse fraco reducto com uma coragem e um
desprendimento da vida dignos do maior elogio. Pode mesmo dizer-se que
n'essa occasio poucos, muito poucos, dos elementos revolucionarios
tinham a noo exacta do valor da posio onde combatiam e
parallelamente do heroismo que a defeza d'essa posio representava.

Poucos, muito poucos, reflectiram que, se a artilharia de Queluz os
atacasse a coberto de qualquer elevao de terreno, a Rotunda soffreria
fatalmente uma _razzia_ sangrenta, difficil de impedir.


Crca do meio dia, alguns populares, que, pelo seu armamento
insignificante, diminuto auxilio podiam prestar aos defensores da
Rotunda, desceram a Avenida, com o intuito de conquistar a adheso das
foras acampadas no Rocio. Machado Santos sabia perfeitamente que
n'essas foras existiam elementos revolucionarios e pretendia
attrahil-os ao seu acampamento. Os populares executaram a manobra ao
abrigo das arvores das ruas lateraes, mas, uma vez chegados  praa dos
Restauradores, as metralhadoras romperam fogo e obrigaram-nos a
retroceder com perdas sensiveis. Desde ento, nunca mais se fez
reconhecimento to arriscado das foras inimigas e todos os elementos de
utilidade  causa revolucionaria julgaram mais prudente conservar-se
dentro da Rotunda, aguardando um _corps--corps_ que, se se produzisse,
provocaria um desastre irreparavel.

 1 e 30 da tarde, um vigia empoleirado n'uma figueira do parque Eduardo
VII surprehendeu dois officiaes que, de espada desembainhada, se
escoavam proximo dos muros da Penitenciaria. O vigia desceu da arvore e
communicou as suas suspeitas a um sargento de artilharia 1, commandante
d'uma das peas. O sargento visou o local e dentro de poucos instantes a
columna do commando do coronel Albuquerque, que comprehendia lanceiros
2, cavallaria 4, a bateria de Queluz e infantaria 2, soffria o primeiro
revez.

Paiva Couceiro, que veraneava ao tempo em Cascaes, tinha apparecido em
Sete Rios, onde estacionava a columna de ataque, pouco antes do meio
dia. O coronel Albuquerque, logo que elle se lhe apresentou,
explicou-lhe que o quartel general o incumbira de investir contra a
Rotunda e o quartel de artilharia 1. Paiva Couceiro extranhou que,
dispondo ainda o quartel general de cinco regimentos de infantaria, de
toda a guarda municipal, da engenharia e da guarda fiscal, destinasse
para o ataque aos revoltosos apenas uma fraco minima dos effectivos e
constituida na sua maior parte com a cavallaria, isto , com a tropa
menos apropriada ao assalto de muros ou barricadas. Mas no expressou
alto e bom som o seu reparo e limitou-se a dizer ao coronel Albuquerque:

--Bem, n'esse caso, temos de escolher primeiro a posio da artilharia.

Lembrou-lhe a Penitenciaria, mas, logo a seguir, outro official informou
que d'uma propriedade  esquerda, entre a Penitenciaria e o _chalet_ do
sr. Henrique de Mendona, se podia fazer fogo, com exito, sobre a
Rotunda. Paiva Couceiro, acompanhado por um official de cavallaria,
reconheceu a posio indicada e, achando-a excellente, para l conduziu
a bateria, apoiada n'uma columna de infantaria 2. Mas quando ia
precisamente iniciar o ataque da artilharia contra o quartel de
Entre-Muros, rebentaram sobre as tropas monarchicas tres granadas
despedidas do Parque Eduardo VII, ficando logo feridos um capito, um
cabo e varios soldados. Cahiram mortas algumas muares, tresmalharam-se
os cavallos e as parelhas dos armes que ainda no tinham descoberto
abrigo e mais de metade da fora de infantaria 2, com umas tantas praas
da bateria, poz-se em fuga desordenada.

O duello de artilharia prolongou-se durante uns tres quartos de hora,
findos os quaes, Paiva Couceiro, suppondo que os revoltosos haviam
desamparado as peas collocadas nas immediaes do quartel de
Entre-Muros, mandou sahir uma fora de infantaria que se estendeu em
atiradores no terreiro livre do lado opposto. No tardou, porm, que
essa fora experimentasse baixas sensiveis. Infantaria 2 j estava ento
reduzida a umas cincoenta praas, que Paiva Couceiro, crca das 3 da
tarde, tentou novamente conduzir ao assalto de artilharia 1. Baldado
empenho. O tiroteio dos revoltosos no abrandava e o commandante do grupo
a cavallo, reconhecendo que com to poucos soldados no lograva o seu
objectivo, mandou pedir ao quartel general que lhe facultasse duas
companhias de infantaria de linha e uma da municipal para produzir novo
ataque  posio de Entre-muros. A resposta do quartel general, levada a
Paiva Couceiro pelo capito Martins de Lima e tenentes Wanzeller e
Ramos, foi que a bateria cessasse immediatamente o fogo e descesse outra
vez  estrada de Sete Rios. Paiva Couceiro obedeceu e mandou seguir as
foras do seu commando pela azinhaga da Fonte, Luz, Campo Grande,
Arroyos, rua Nova da Palma at o Rocio, onde chegou noite fechada.
Depois, indo apresentar-se ao quartel general, Paiva Couceiro recebeu
ordem de collocar duas peas na embocadura da rua Augusta e as outras
duas na embocadura da rua do Ouro para obstar a um possivel ataque da
marinha.


Ao cahir da tarde, resolveu-se que todos os insurrectos que se
encontravam no quartel de Alcantara entrassem no _Adamastor_. Este barco
de guerra, para o embarque se fazer mais rapidamente, atracou ao vapor
_Guin_, da Empreza Nacional, que estava encostado  muralha,
utilisando-se tambem uma falua do Arsenal e o rebocador _Cabinda_.
Apesar d'isso, a operao decorreu com alguma morosidade, pois a columna
comprehendia crca de 1.500 homens e levava outra vez para bordo grande
quantidade de munies e uma metralhadora. Emquanto se effectuava o
embarque, a face da frente do quartel era defendida por umas tantas
praas e civis sob o commando do commissario Costa Gomes; o lado sul era
protegido pelas baterias de bordo.

s 5 horas, o _S. Raphael_ largou pelo rio acima, ficando o _Adamastor_
para defender qualquer invaso do quartel de Alcantara pelas foras
contrarias, mas com ordem de seguir mais tarde para o Terreiro do Pao,
depois de receber a bordo o resto dos combatentes que ainda se
encontravam n'aquelle edificio. O _S. Rafael_ navegou sem ser
hostilisado e at com applauso dos barcos mercantes fundeados entre
Alcantara e a Alfandega. Ao passar no quadro dos navios de guerra, viu
que o _D. Carlos_ e a fragata _D. Fernando_ continuavam a ostentar a
bandeira azul e branca. Os seus tripulantes deram vivas  Republica,
esperando despertar assim a inaco dos tripulantes de aquelles dois
navios, mas essas acclamaes no encontraram echo. E descreve ento o
tenente Parreira:


Sabendo-se que os correios e telegraphos estavam defendidos por foras
da guarda municipal e que o Rocio e quartel general estavam occupados
por um grande nucleo de foras de infantaria 5 e caadores 5, pelo
menos, e que seria necessario desfazer essa barreira para a nossa futura
junco s foras da Rotunda, resolveu-se, embora j proximo da noite,
desalojar primeiro as foras dos correios e telegraphos, o que se fez
com os tiros de artilharia de pequeno calibre e metralhadoras,
seguindo-se-lhe uns tiros sobre o Rocio pela rua do Ouro com pontarias
baixas.

Como j era noite, fundemos em frente da Alfandega para continuarmos o
nosso intuito na manh seguinte, ou n'essa noite, conforme as
circumstancias aconselhassem. Apenas fundemos, foram a terra, no nosso
escaler, um dos chefes dos grupos civis acompanhado do commissario
Marianno Martins, a fim de colher informaes seguras sobre o estado das
foras contrarias, e enviar um emissario ao acampamento da Rotunda,
avisando da nossa posio e do desembarque na madrugada seguinte. Tendo
colhido algumas informaes favoraveis  ida do emissario para a
Rotunda, voltaram para bordo n'um vapor da alfandega, cuja guarnio se
poz  nossa disposio, rebocador este que foi d'um grande auxilio nas
aces que se seguiram.

[Ilustrao: Manoel de Arriaga]


Pouco depois, o _Adamastor_, sahindo de Alcantara, ia fundear proximo do
_S. Rafael_, isto , em frente do Terreiro do Pao. N'esse vapor da
Alfandega a que o tenente Parreira se refere, o commandante do
_Adamastor_, tenente Cabeadas, mandou para bordo do _S. Rafael_ parte
dos marinheiros e populares armados que o pejavam. Quasi a seguir,
quinze tripulantes do _D. Carlos_, que tinham conseguido fugir d'esse
barco n'um escaler, apresentaram-se ao commandante do _Adamastor_ e
pediram-lhe armas para luctar contra os officiaes que ainda se
encontravam a bordo. O tenente Cabeadas armou-os convenientemente e
embarcou os no vapor da Alfandega, acompanhados d'um sargento, d'outras
praas e paisanos, e aconselhou-os a irem no _S. Rafael_, antes de
tentarem o assalto do _D. Carlos_. Assim se fez. O tenente Carlos da
Maia tomou o commando superior de toda a fora e, utilisando-se de novo
o vapor da Alfandega, decidiu-se a entrada violenta no cruzador ainda
no adherente. Como a guarnio do vapor mostrasse n'essa altura receio
de collaborar no assalto, o tenente Maia substituiu-a por praas de
marinha e, crca das 7 e 30 da noite, o barco largou do _S. Rafael_ em
direco ao _D. Carlos_. Os projectores dos dois cruzadores revoltados
evolucionavam, no emtanto, de modo a favorecer a arriscada tentativa.


A atracao--diz o documento official que descreve o assalto--fez-se a
primeira vez mal, e, repetindo-a, logo se avaliou da attitude como os
officiaes receberiam os invasores, porquanto, tendo-se respondido que
era um official que ia atracar, logo o commandante intimou a afastar-se
sob pena de se desfechar, o que bem se notou ser seu proposito por virem
muitos officiaes  borda do cruzador.  claro que se insistiu na
abordagem, subindo tumultuariamente as escadas do portal, e sendo logo
recebidos a tiro, o que foi causa de tiroteio ainda de bordo do
rebocador; e, uma vez a bordo, continuou este, de parte a parte,
terminando rapidamente pela rendio dos officiaes e verificando-se em
seguida que da guarnio do _D. Carlos_ haviam ficado 4 officiaes
feridos, e dos atacantes apenas 2, sendo um civil e uma praa de
marinhagem. Immediatamente se mandaram desembarcar todos os officiaes, 
excepo do tenente Silva Araujo, com quem havia entendimento para a
revoluo. Mandou-se tocar a postos de combate, preparando-se o navio
para a vigilancia da noite, tanto mais necessaria quanto era a bordo do
_D. Carlos_ conhecida a ordem do ataque dos torpedeiros, e sahida do
_Berrio_ para o canal do Barreiro.


Uma vez tomado o _D. Carlos_, de bordo do _Adamastor_ seguiram para ali
mais praas e populares armados e os tres barcos de guerra
insurrecionados no cessaram durante a noite de prescrutar as
immediaes com os seus projectores, sempre com o receio d'um ataque dos
torpedeiros. (Falhara a arrojada tentativa do tenente Stockler para
revolucionar os officiaes e praas destacadas em Valle do Zebro.)




CAPITULO XXII

Os ministros dispersam-se e buscam abrigo em diversas casas


Pouco falta para concluirmos estas narrativas. Aps o ataque da
artilharia de Queluz, as foras revolucionarias installadas na Rotunda
ainda despejaram umas granadas sobre o Rocio, no tanto com o proposito
de investir a valer com as tropas de infantaria que desde a madrugada de
4 ali haviam acampado, mas principalmente para as provocar, para as
obrigar a definir attitudes n'um momento, como esse, de anciosa
espectativa. Os commentarios da opinio teem incidido frequentemente
sobre o procedimento d'essas foras. Sabia-se que entre ellas se
encontravam officiaes dedicados  ideia republicana, como o tenente
Valdez e o alferes Gomes da Silva. E esperava-se a cada instante que
qualquer d'elles se decidisse a um acto corajoso de auxilio ou de
estimulo s foras da Rotunda.

Na manh de 4, ainda o capito S Cardoso tentou realisar a approximao
dos dois nucleos militares escrevendo um bilhete ao tenente Valdez e
dizendo-lhe que esperava infantaria 5 pelo lado oriental da Avenida. Mas
aquelle official respondeu que para acceder ao pedido necessitava passar
com o diminuto numero de homens do seu commando pela frente das
metralhadoras de caadores 5, d'um esquadro da municipal e d'uma outra
companhia do seu regimento e desistiu de effectuar essa marcha
arriscada, aguardando que se produzisse um ataque dos revoltosos para
ento fazer com elles causa commum.

Durante o dia 4, tanto infantaria 5 como caadores 5 evolucionaram
dentro da area da defeza do quartel general. Ao comeo da noite,
caadores estava assim distribuido: na rua Augusta, guarnecendo o
primeiro quarteiro, um peloto do commando do alferes Gomes da Silva,
pertencente  companhia do capito Aguiar; na rua do Arco do Bandeira, a
companhia do capito Penha Coutinho, hoje em servio na policia civica;
na rua do Ouro e na rua do Carmo, a companhia do capito May; na rua da
Betesga, a do capito Reis com a guarda fiscal; na praa dos
Restauradores, o alferes Empis com duas metralhadoras. Era o momento em
que os grupos de populares, j reconstituidos convenientemente--passados
os primeiros instantes de desanimo--tratavam de incommodar as foras
monarchicas ou que suppunham como taes, atirando-lhes bombas, disparando
tiros de pistola, etc. E conta a proposito o tenente Valdez:


No principio da noite fomos atacados por bombas de dois lados.
Estabeleceu-se uma enorme confuso. Em vista da desmoralisao que
reinava entre os soldados, muitos fugiram. Alguns, obedecendo ao plano,
metteram-se nas arcadas. Muitos, por panico, fizeram um tal tiroteio e
to disparatado que eu e os mais officiaes escapmos no sei como. Uma
bala sibilou-me aos ouvidos e roou-me pela face. O largo limpou-se e eu
reconheci com alegria que facilmente qualquer fora entraria no Rocio.
Como julgassem as foras extenuadas, ordenaram que alternassemos com a
guarda fiscal que ento pairava na estao do Rocio. Foi assim que fomos
descanar para as trazeiras da mesma estao. Ali encontrmos um
empregado a quem contmos as nossas torturas e desejos e como lhe
manifestassemos as nossas intenes de fugir para a Rotunda pelo tunel,
d'isso nos dissuadiu por motivo da chegada de um comboio que vinha de
Queluz, avisando-nos tambem de que ali estavamos mal, por ser possivel
virem n'esse comboio revolucionarios que podiam atirar-nos bombas do
pavimento superior. Lembrou-nos fugir pelas escadinhas do Duque, mas,
interrogado por ns sobre a existencia de quaesquer foras no trajecto,
respondeu-nos nada saber. Tambem logo a seguir passava um esquadro para
esses lados.

Posta de parte essa ideia, resolvemos esperar os acontecimentos,
convencidos de que era inevitavel uma coliso entre as nossas foras e
as dos revoltosos. Como fosse manifesta a desmoralisao das nossas
foras, eramos rendidos das dez para as onze da noite por um outro
batalho do regimento, e eu fui com a minha companhia occupar a travessa
de S. Domingos, reparando que alguns soldados tinham desapparecido,
tendo aproveitado naturalmente as varias confuses que se deram. Fingi
no dar por isso. Na nova posio soube que a artilharia de Queluz tinha
collocado uma pea na rua do Ouro, outra na rua Augusta e que estava
dispondo outra no local que deixaramos. As informaes que recebiamos
sobre a marcha dos acontecimentos eram deficientes. Nada de seguro nos
diziam. Falava-se que o rei fugira para Mafra. Affirmava-se que os
revoltosos tinham sido batidos. Realmente, n'essa altura, o tiroteio da
Rotunda parecia diminuido e o facto do ataque da marinha ainda se no
ter dado preoccupava-me immenso.

Nas nossas foras no havia ainda mortos e os feridos eram poucos. O
moral das tropas, especialmente das companhias que tinham estado na
Avenida, era merc dos trabalhos feitos, o mais favoravel a qualquer
ataque. Na minha nova posio tornava-se facil a communicao com os
officiaes, o que at ento me era impossivel, visto achar-me distante
d'elles. Esperanado, como sempre estive, da realisao do meu ideal,
principiei a palpl-os e durante toda a noite, emquanto o canho ecoava
com estrondo no largo de Cames, no os larguei, reparando que quasi
todos desejavam ver terminada uma situao de incerteza, no encontrando
em nenhum d'aquelles a quem falei essa to decantada f monarchica. O
primeiro official a quem falei foi ao tenente Americo Cruz, o qual,
depois das consideraes que lhe fiz sobre a enormidade dos
acontecimentos, fuga do rei, tibieza dos chefes e sobretudo do
sacrificio que ali estavamos cumprindo por um que, a essas horas, estava
so e salvo, me respondeu com igual criterio, accrescentando que tinha
j achado o commandante abalado.


Na Rotunda, Machado Santos passava verdadeiras torturas, porque via
diminuir-se-lhe a proviso de munies e no sentia que de fra o
auxiliassem como elle realmente necessitava. Quem entrasse s dez horas
da noite no acampamento perceberia claramente que se tinha attingido a
culminancia critica do movimento revolucionario. Havia l dentro mais
gente do que na madrugada de 4. Havia mais disciplina, mais silencio
commovedor, mais solemnidade, em summa. De vez em quando a grave
quietude do ambiente era interrompida por uma descarga de fusilaria, a
exploso d'uma granada ou o crepitar enervante das metralhadoras.

Machado Santos tinha entregue ao tenente Pires Pereira o commando da
bateria e das linhas de fogo do lado da Avenida e ficara a vigiar as
posies do norte e leste. De repente um dos predios novos d'aquella
arteria incendiou-se casualmente e o claro da enorme fogueira illuminou
por algum tempo o acampamento revolucionario, at ento immerso na
obscuridade.


E que fazia, entretanto, o governo monarchico? O ministro da guerra
installara-se no Quartel General da 1. diviso e d'ahi seguia absorto
todas as phases da contenda. O presidente do conselho, depois de ter
conferenciado com o general Gorjo e o seu collega da guerra, fra para
casa e antes de entrar no edificio soffrera o ataque de um grupo
revolucionario que o deixou mal ferido. Dos outros ministros podemos
dizer que vagabundearam por diversas casas amigas at o momento solemne
da proclamao da Republica.

Proximo da meia noite, o tiroteio entre os dois nucleos de foras
militares, o do Rocio e o da Rotunda, augmentou de intensidade. A
artilharia monarchica tentou fazer calar a do Alto da Avenida, mas sem
resultado. Adivinhava-se n'essa occasio que a victoria no tardaria a
pertencer aos revoltosos. De todos os lados surgiam novos elementos de
combate. Os organisadores do movimento, que na primeira hora de desanimo
tinham dispersado, principiavam a acercar-se do principal fco da
contenda, procurando assim conservar-se mais em contacto com os seus
adeptos. O Hotel Europa foi um dos pontos escolhidos para essa
concentrao dos vultos em destaque na aco revolucionaria. Para ali
foram, ao comeo da noite de 4, Jos Relvas, Jos Barbosa e outros que
at ento haviam tentado, na redaco da _Lucta_, reatar as ligaes
entre os revoltosos--interrompidas pela _debacle_ do balneario de S. Paulo.


A rua do Carmo, contou-nos mais tarde Jos Barbosa, era, n'essa noite,
um ponto visado pelas tropas fieis ao antigo regimen. Um grupo de doze
populares devidamente equipados protegeu-me e a Jos Relvas mais do que
uma vez, sempre que tentmos vir  rua orientarmo-nos sobre a marcha da
Revoluo. E essa proteco foi tanto mais efficaz quanto  certo que
d'uma das vezes as balas silvaram sobre as nossas cabeas. Depois da
meia noite, installmo-nos no ponto mais alto do hotel. D'ahi viamos
distinctamente as operaes dos navios de guerra e apercebiamos todas as
phases do tiroteio renhido entre as foras do Alto da Avenida e as do
Rocio. Houve um momento em que a batalha assumiu taes propores, que
hesitmos sobre de que lado ia surgir a victoria. A escurido
deixava-nos desnorteados. Chegou Celestino Steffanina e fomos os dois
para o meu quarto. Era preciso descanar; mas era impossivel! Da rua do
Ouro vinham at ns, de mistura, com o fuzilar da infantaria, gritos de
desespero, de agonia, d'uma tortura infinita. A situao, ahi pela 1 e
30 da madrugada, no podia ser mais angustiosa. Celestino Steffanina
sahiu do Hotel Europa a colher informaes.

Entretanto, no Rocio, o elemento popular no cessava de atacar as
foras ali estacionadas. Cabe referir que entre os meios de que a
Revoluo dispunha para triumphar, se salientava notavelmente a chamada
_artilharia civil_, isto , as bombas explosivas. Utilisadas como
verdadeiras granadas de mo, posso affirmar, porque  a expresso da
verdade, que os revolucionarios no praticaram com ellas nenhum acto
inutil, no damnificaram qualquer propriedade, no as empregaram para
satisfazer rancores individuaes ou represalias censuraveis. As bombas
explosivas serviam para atacar as foras fieis ao antigo regimen e todas
as que foram lanadas com exito visaram, naturalmente, a que essas
foras no incommodassem sriamente os soldados da Republica.


s 2 da madrugada, Paiva Couceiro foi chamado ao quartel general e o
chefe do estado maior ordenou-lhe que antes do romper da manh
collocasse algumas das suas peas em posio conveniente para incommodar
as foras installadas na Rotunda, propondo para esse effeito o pateo do
Thorel. Antes, a fora disponivel de cavallaria 4 e um esquadro da
guarda municipal fizeram um reconhecimento de accesso pelas caladas do
Garcia e de San'Anna. s 3 horas, Paiva Couceiro, a pedido de dois
officiaes da infantaria que guarnecia o norte do Rocio, collocou duas
peas na entrada da Avenida, junto das metralhadoras que ali estavam e
com as restantes seguiu para o pateo do Thorel, installando-se no jardim
do palacete do sr. Manuel de Castro Guimares.

Emquanto isto se fazia, Pinto de Lima, Innocencio Camacho e Simes
Raposo iam a bordo do _S. Rafael_ communicar ao tenente Parreira que
Machado Santos instava pelo immediato desembarque dos marinheiros. O
tenente Parreira, n'essa occasio, j havia ordenado o desembarque d'um
grande nucleo de civis, que sob o commando do capito Nascimento, da
administrao militar, devia impr a rendio s praas monarchicas que
guarneciam o Museu de Artilharia. O _S. Rafael_ suspendera para proteger
esse desembarque e tencionava collocar-se em frente do Terreiro do Pao,
bombardear o Rocio, enfiando os tiros pela rua do Ouro e rua Augusta e
depois effectuar o desembarque d'uma forte companhia de guerra,
constituida pelo maximo das foras disponiveis dos trez cruzadores
revoltados, sob as ordens dos tenentes Parreira, Sousa Dias, Maia e do
medico Vasconcellos e S, que se offerecera para commandar um peloto.

A chegada a bordo de Pinto de Lima, Innocencio Camacho e Simes Raposo
fez apressar os preparativos para o desembarque. O tenente Parreira
mandou prevenir os grupos populares que estacionavam no Rocio, ruas
Augusta e do Ouro, de que ia comear o bombardeamento, e o mesmo
emissario, Pinto de Lima, recebeu a incumbencia de communicar na Rotunda
a proxima junco das foras revolucionarias. Pinto de Lima
desempenhou-se da primeira parte do encargo, isto , da preveno do
bombardeamento e ao passar no largo de S. Domingos, em direco 
Rotunda, teve ensejo de falar a um major que commandava, a pequena
distancia do quartel general, um troo de tropas monarchicas e disse-lhe
o que se ia em breve passar.

--O que? retorquiu afflicto o major... A marinha vae bombardear-nos?
Diga isso ali ao coronel.

[Ilustrao: Paiva Couceiro]

Pinto de Lima assim fez e o coronel mostrou no menos surpreza que o
outro official:

--Mas eu j adheri!... Para bordo j foi um official de caadores!...

E logo a seguir, como quem toma uma resoluo energica:

-- preciso mandar outro official ao _S. Raphael_... O senhor
acompanha-o n'essa misso?...

Pinto de Lima acceitou gostosamente o novo encargo e l foi rua Augusta
abaixo acompanhado do emissario do coronel, doido de contentamento,
dando vivas  Republica. Era o momento em que j vinham de bordo o
alferes Gomes da Silva e o commissario naval Marianno Martins. O que
determinara a _dmarche_ d'esse official revolucionario junto do tenente
Parreira? Descreve-o elle proprio do seguinte modo:


Crca das 6 e 30 da manh de 5, o tenente coronel Peixoto reuniu os
officiaes para lhes participar que infantaria 5 se negava a fazer fogo e
que em presena d'esta deliberao desejava ouvir os seus officiaes.
Fez-se na corporao um silencio que foi roto quasi simultaneamente pelo
capito Penha Coutinho e por mim, que dissemos que era tambem a opinio
dos nossos soldados. Ao ouvir as nossas palavras, respondeu o
tenente-coronel Peixoto que n'este caso era melhor retirarmos.

Ditas estas palavras enfiei pela rua Augusta e ao chegar ao Terreiro do
Pao fui immediatamente cercado pelo povo, a quem communiquei o que se
passava e dirigi-me a bordo do _S. Raphael_, aonde participei aos
tenentes Parreira e Souza Dias que infantaria 5 e caadores 5 se tinham
negado a fazer fogo, e portanto achava asado e propicio o momento para
desembarcar os marinheiros e tomarmos o quartel general. No sem reparos
pela estranheza que esta communicao lhes causava, apesar de ser
conhecido de um d'elles como official implicado no movimento,
exigiram-me a palavra de honra que as tropas do Rocio no fariam fogo
sobre elles, mas era-me absolutamente impossivel acceitar to grande
responsabilidade, porque a resoluo de ir a bordo havia sido tomada por
mim por entender propicio o momento de obter a submisso do quartel
general.

Respondi-lhes, entretanto, que viesse um d'elles comigo ao quartel
general, onde poriamos tudo a limpo. Foi acceite este meu alvitre e
parti, acompanhado pelo commissario naval Marianno Martins, para o
quartel general, onde vimos ainda arvorada a bandeira branca, tendo j
retirado caadores 5, restando apenas infantaria 5, que, comtudo, j
estava cercada pelo povo, a quem o tenente Valdez havia dado entrada
pela rua de S. Domingos...

Approximava-se o momento da rendio. No tardaria que a bandeira branca
do quartel general fosse substituida pela da Revoluo triumphante.




CAPITULO XXIII

Proclama-se a Republica no edificio da Camara Municipal


Pouco antes das 7 da manh, o encarregado dos negocios da Allemanha
procurou o general Gorjo e pediu-lhe o armisticio de uma hora. O
general concedeu-lh'o e escreveu este papel, cujo original, pertencente
ao denodado republicano sr. Rodrigues Simes, figurou no Museu
Revolucionario:


        COMMANDO
        DA
        1. DIVISO MILITAR
        Gabinete do General


    _Eu abaixo assignado, commandante da 1. diviso militar, declaro
    que concederei um armisticio de uma hora a fim de que os
    estrangeiros residentes em Lisboa possam embarcar. Fao esta
    concesso por me ser pedida pelo Ex.mo Sr. Encarregado dos negocios
    da Allemanha._

        _Lisboa, 5 de outubro de 1910._

                                           _a) Manuel Rafael Gorjo._

                                                  General de diviso.


Assim que o diplomata allemo sahiu do quartel general em direco 
Rotunda, escoltado por uma ordenana de cavallaria que desfraldava uma
bandeira branca, o povo, que se amontoava nas immediaes, julgando que
se tratava da rendio das foras monarchicas, prorompeu em applausos
enthusiasticos. Era no momento em que o alferes Gomes da Silva e o
commissario naval Marianno Martins se faziam annunciar ao general
Gorjo. Este recebeu-os e Marianno Martins explicou-lhe:

--O official que me acompanha foi a bordo do _S. Rafael_ participar que
infantaria 5 e caadores 5 se negam a fazer fogo sobre os marinheiros.
Desejo, portanto, saber em que condies v. ex. acceita a paz para eu
as transmittir ao meu commandante.

O general Gorjo encolerisou-se e, voltando-se para o alferes Gomes da
Silva, perguntou-lhe:

--Quem foi que lhe deu auctorisao para ir a bordo dizer tal coisa?

--Ninguem, explicou o official interpellado; fui a bordo, por minha
livre vontade, transmittir a resoluo dos soldados de infantaria 5 e
caadores 5.

O general tornou a vociferar furioso, exclamando que o alferes Gomes da
Silva fizera uma salsada, uma burla, que o havia desgraado, pois
concedera apenas um armisticio para dar tempo a que os subditos allemes
embarcassem, e concluiu d'este modo:

--No me rendo!... Ainda disponho de muitos soldados!...

O alferes interveiu logo:

--V. ex. tem essa impresso... mas eu affiano-lhe que j no tem
soldados!...

O general fitou-o demoradamente e depois, attentando no numero do bonet
de Gomes da Silva, insistiu:

--Demais, caadores 5 tem sido fiel, continuar a ser fiel e com
soldados assim no me rendo!...

Nova replica do alferes, affirmando-lhe sob sua palavra de honra que
n'aquelle batalho o general no dispunha d'uma unica praa. Para
terminar a discusso, Marianno Martins interveiu marcando o praso d'uma
hora para a rendio do quartel general. Findo elle, o _S. Rafael_
varreria as ruas Augusta e do Ouro com as suas peas.

--Faam o que entenderem, retorquiu o general, no me rendo... Ainda
tenho muita gente.


C fra, o povo, enthusiasmado, continuava a dar vivas delirantes 
Republica e ao exercito, confraternisando com os soldados, que
disparavam as armas para o ar, evidenciando uma alegria doida. Cessara o
tiroteio entre os combatentes. O general, observando isto, reuniu o
conselho de officiaes, chamando para essa reunio todos os commandantes
de unidades, e falou-lhes n'estes termos:

--Tendo de tomar resolues, convoquei os senhores. As circumstancias
so as seguintes: ordenou hontem este Quartel General s foras que
guarneciam as Necessidades que se approximassem d'este local, e que, ou
por S. Roque ou por onde entendessem conveniente, tentassem obstar 
descida da artilharia revoltosa para S. Pedro de Alcantara, d'onde
constava que ella procuraria bombardear o Rocio. Apezar de repetidas
vezes transmittida, esta ordem no foi cumprida at agora. As baterias
de artilharia 3 encontraram cortada a ponte de Sacavem e no podemos por
conseguinte contar com ellas.

O sr. general Sequeira informa-me que as munies de artilharia
armazenadas em Beirolas no podem d'ahi obter-se, porque o impedem
barricadas com fortes guarnies de paisanos armados. No temos por isso
possibilidade de remuniciar a bateria a cavallo de Queluz,  qual apenas
resta um pequeno numero de tiros. Os srs. commandantes das foras de
infantaria do Rocio fizeram-me constar a fadiga das suas praas; e mais
tarde, sabendo-se que os marinheiros, senhores do Arsenal, procediam ao
desembarque para investir o Rocio, os mesmos srs. commandantes
informaram-me das ms disposies dos seus soldados para fazerem fogo
contra os ditos marinheiros.

Finalmente, ha crca de meia hora, apresentou-se me um representante da
Allemanha pedindo auctorisao para tratar com os revoltosos no sentido
de obter um armisticio, afim de que os seus nacionaes pudessem sahir a
salvo. Entendendo que no devia recusar, forneci para o effeito um
parlamentario com bandeira branca. Mas mal a bandeira branca sahiu o
porto d'este edificio, isso foi como que um signal de destroar,
sahindo todas as praas das fileiras e misturando-se com os magotes de
povo que, a agitar bandeiras brancas, surgia pelas embocaduras das
diversas ruas. N'estas circumstancias...

N'esta altura, Paiva Couceiro, que tambem assistia ao conselho,
levantou-se e interrompeu o general:

--N'estas circumstancias, disse elle, vista a exposio de V. Ex., e
visto o espectaculo da quebra dos laos de disciplina que por esta
janella se avista concluo que V. Ex. j no tem soldados. Eu no o
abandono; mas V. Ex.  que j no precisa de mim. Sigo, pois, o meu
destino.

--Mas, observou o general Gorjo, ha de haver uma acta a assignar!...

--Acta?! exclamou Paiva Couceiro. Acta?! Isso  com V. Ex.. Comigo,
no. Combati hontem. Combati hoje. Estou prompto a combater ainda. Com
actas no tenho nada. E, com licena de V. Ex., sigo, repito, o meu
destino para o Norte.

E Paiva Couceiro, cumprimentando, sahiu da sala. C em baixo, esperava-o
o tenente Rocha com a sua pea.

--Vamos para Queluz, disse-lhe Paiva Couceiro. E, com effeito, chamadas
as outras peas dos postos que occupavam, a bateria pz-se a caminho.


s 8 e 30 da manh, Machado Santos, avisado da concesso do armisticio,
recebia no acampamento da Rotunda o encarregado dos negocios da
Allemanha. s primeiras palavras trocadas, Machado Santos recusou o
pedido de treguas, allegando que a fora estava do seu lado e que ao
general da 1. diviso  que pertencia render-se. O diplomata replicou
dizendo que nada tinha com as razes d'uma ou d'outra parte e insistindo
pelo armisticio ameaou fazer intervir o governo do seu paiz no caso de
lh'o no concederem. Machado Santos limitou-se ento a sorrir para o
engenheiro Antonio Maria da Silva que tambem se encontrava n'essa
occasio na Rotunda e disse-lhe:

-- Silva, faze de ministro dos estrangeiros da Avenida... Tomo absoluta
responsabilidade.

O diplomata allemo pedia uma hora para poder embarcar os seus
compatriotas. Foi-lhe concedida (das 8 e 45 s 9 e 45 da manh) mas com a
condio de no poderem as tropas inimigas retomar posies de que
tivessem sido desalojadas e no impedirem a adheso das que quizessem
entrar no acampamento da Rotunda. Dada a resposta ao encarregado de
negocios, o engenheiro Silva convidou a ordenana de cavallaria que o
acompanhava a ficar com os revolucionarios e substituiu-a por uma
escolta da sua confiana.


A derrota da monarchia era um facto indestructivel. No Rocio e nos
outros pontos, onde momentos antes se combatia ardorosamente, chorava-se
de alegria. O espectaculo era de enternecer. O povo, longe de procurar
n'esse instante de predominio absoluto desforar-se no inimigo,
perdoava-lhe generosamente as longas horas de angustia e de hostilidade
e confundia n'um abrao de sincero enthusiasmo vencedores e vencidos.
Poder-se-ha talvez suppr que a circumstancia de apparecerem n'esse
momento entre as foras que acabavam de render-se  Republica officiaes
que se tinham compromettido a preparar-lhe o advento  indicao ou de
defeco ou de traio. No  tal: surprehendidos, horas antes de se
iniciar o movimento, com umas medidas de preveno com que no contavam,
esses officiaes sahiram dos quarteis, acompanhando,  certo, os seus
camaradas monarchicos, mas dispostos a evitar que as tropas do seu
commando chacinassem os revolucionarios.

E foi o que succedeu. Durante a noite de 4 para 5, alguns d'elles, como
o tenente Valdez, Gomes da Silva e Carvalhal Correia Henriques, apesar
de expostos no Rocio a um ataque vivissimo dos populares, conservaram
sempre uma attitude de disciplinada obediencia  Republica e impediram
por todos os meios ao seu alcance que infantaria e caadores
massacrassem os elementos revolucionarios da classe civil. O general
Encarnao Ribeiro, n'essa noite de tragedia, tomando contacto com
diversos d'esses officiaes que elle conhecia das reunies dos
conspiradores, assegurara-se plenamente d'essa attitude. O mesmo fizera
Pinto de Lima em especial junto dos elementos de infantaria 5,
considerados, como antes da revoluo, republicanos. A organisao
revolucionaria no teve deseres. Os officiaes que no sahiram desde
logo a combater contra o regimen mantiveram at final da lucta uma
attitude que favorecia inteiramente a victoria da boa causa.

Dos outros, dos monarchicos,  egualmente justo consignar que  hora de
abaterem bandeiras ante a Republica triumphante no foram avaros em
reconhecer a magnanimidade do povo que com tanta rudeza haviam
hostilisado. Um d'elles confessou lealmente, minutos depois da rendio:

--No sou republicano, mas agradeo a forma como os senhores me
trataram, permittindo-me que aps a derrota eu regresse intacto para
junto dos meus. So muito generosos para com os vencidos! Obrigado!...

Uma revoada de enthusiastico applauso apagou as ultimas syllabas d'esta
declarao espontanea e honrada.


Machado Santos, entretanto, avistando do acampamento da Rotunda uma
grande multido que subia a Avenida, calculou que era tempo de avanar
sobre o quartel general, deixando o entricheiramento sufficientemente
guarnecido.  frente d'um batalho de populares armados desceu at ao
Rocio e entrou no quartel general. J l estava Jos Barbosa que, em
nome do Directorio, apoiou a entrega do commando da diviso ao general
Carvalhal, antigo republicano, que Candido dos Reis indicara muitas vezes
como o successor logico do sr. Raphael Gorjo. O resto que se seguiu 
por demais conhecido para que nos detenhamos a narral-o.

[Ilustrao: Busto official da Republica Portugueza]

Arvorou-se a bandeira republicana no quartel do Carmo; Joo Borges,
Estevo Pimentel e Manoel Bravo occuparam o telegrapho; duzentos civis
desembarcados dos navios de guerra tomaram o Museu d'Artilharia (que
fra defendido por foras de engenharia e guarda-fiscal) e o Arsenal de
Exercito e marcharam depois para a Rotunda a juntar-se aos heroicos
revolucionarios ali installados; e crca das 9 horas da manh, da
varanda da Camara Municipal soltavam-se aos quatro cantos do paiz a
proclamao solemne da Republica e a constituio do governo provisorio.

No governo civil, de que Celestino Steffanina e Jos Barbosa se
apossaram quasi sem esforo, no tardava a concentrar-se um nucleo de
foras republicanas para occorrer aos casos mais urgentes. O edificio
tinha at outro aspecto. Perdera n'esse momento o ar inquisitorial que
caracterisava a antiga Parreirinha. Tanto assim que um combatente da
Revoluo, um sexagenario vigoroso, ao entrar d'ahi a horas no gabinete
do dr. Eusebio Leo, no se conteve e exclamou fremente de enthusiasmo:

--Agora, sim... j se respira  vontade!

As sombras negras dos policias, essas sombras que durante annos os
governos monarchicos tinham utilisado no para garantir a segurana do
cidado, para auxiliar, para o coadjuvar, mas para o amachucar, para o
ferir nos dias de protesto ou de desespero, essas sombras execradas pelo
povo haviam desapparecido, haviam-se sumido como por encanto, ao
estridor do triumpho, ao soar o primeiro grito festivo consagrando a
conquista da Liberdade. Voltaram mais tarde,  certo; mas voltaram com o
accrescimo d'esses ornamentos vermelhos, que nos evocam a cada momento
esses longos minutos de lucta, strenua e heroica em que o sangue de uma
centena de sacrificados escreveu pelas ruas de Lisboa a pagina mais
brilhante da historia democratica.


Ao findar estas narrativas cabe-nos o dever de registar que do lado dos
elementos monarchicos houve a espaos, durante o periodo revolucionario,
o fulgurar de actos nobres, dignos, reveladores de verdadeira energia.
No foram em quantidade sufficiente para que a balana pendesse
decisivamente em favor do antigo regimen. Mas bastaram para accentuar
que o sr. D. Manuel de Bragana, entre a enorme crte que o servia e que
quasi por completo o abandonou no momento da derrota, ainda contava uma
boa meia duzia de dedicaes sinceras. Um d'esses monarchicos liquidou,
no cano de um revolver, a carreira que abraara e a existencia que lhe
sorria feliz; foi o tenente de marinha Frederico Pinheiro Chagas.

Ao lado, porm, d'esses homens que at  ultima deram provas de no ser
injustificada a confiana que o antigo regimen n'elles depositava,
surgem em destaque lamentvel outras figuras, que, por medo, por
pusillanimidade, ou se retractaram no periodo da Revoluo ou se
apressaram a bajular a Republica, logo que a Republica triumphou. D'um
monarchico sabemos ns que, occupando na monarchia um cargo proeminente,
cargo que lhe concitra as antipathias da populao democratica, mal
defrontou na manh de 5 de outubro um dos vultos preponderantes do
partido republicano, se apressou a affirmar que fra sempre um
apologista da Ideia e que os incidentes desgraados em que o antigo
regimen, para se defender, envolvera o seu nome, no tinham occorrido
sem o seu vehemente protesto.

Outro, um magistrado retintamente monarchico, servidor incondicional do
governo do sr. Teixeira de Sousa, perseguidor feroz dos republicanos,
que, porventura, cahiam na sua alada, encontrmol-o dias depois de
proclamada a Republica na sala de visitas d'um venerando causidico
democrata, o dr. Manuel de Arriaga, asseverando-lhe que nunca defendera
outros principios que no fossem os do partido do povo. E accrescentava,
n'uma voz meliflua, implorador:

--Voc sabe... accusam-me de ter procurado, no exercicio da minha
misso, aggravar intransigentemente a pleiade de homens honrados em que
voc enfileira...  falso! No sou monarchico e desgostar-me-hia
bastante o soffrer agora as consequencias d'uma accusao infundada.

O seu interlocutor sorriu ao ouvir estas palavras de subserviencia e
n'esse sorriso lia-se claramente a bondade de um corao diamantino que
se apiedava do terror cobarde do magistrado em questo...


E outros ainda, que ao perceberem que aps trinta e seis horas de lucta
o antigo regimen se afundara definitivamente, compozeram uma attitude de
artificioso contentamento, exclamando ao mesmo passo:

--At que emfim!... Ha quantos annos suspirava por este dia!...

Os mais apressados no reconhecimento da nova frma de governo, esses,
ento, como o momento era azado para distinguir ao primeiro golpe de
vista os adherentes dos no adherentes, no duvidaram pregar na
lapella do casaco uns laarotes vermelhos, para que a _rajada
revolucionaria_--caso ella se manifestasse--os no subvertesse, os no
liquidasse.

Nas horas do combate encolheram-se a tiritar, calculando que a Revoluo
os arrastaria pelos cabellos a uma chacina purificadora ou os penduraria
n'um candieiro. E, afinal, a Revoluo no fez nada d'isso. A Revoluo,
assim como teve um curto periodo de tiroteio sangrento, tambem se
caracterisou por diminutos instantes de delirio enthusiastico, mas
delirio inoffensivo, expanso de alegria desinteressada e generosa.
Ninguem assassinou, ninguem saqueou. A propria _artilharia civil_,
dispondo d'uma poderosa fora destruidora, no commetteu excessos, no
praticou represalias. Applicou-se exclusivamente a atacar as foras do
antigo regimen, lanando as suas _granadas de mo_ sobre os cavalleiros
monarchicos, dispersando-os, derrotando-os mais pelo panico produzido
pelo ruido da exploso do que pelos effeitos contundentes da metralha.


Um episodio succedido na tarde do dia 4 de outubro d bem a medida do
espirito de honestidade com que os revolucionarios sahiram ento  rua a
combater contra a monarchia:

N'uma das avenidas de Lisboa modernamente rasgadas,  hora em que a
artilharia da Rotunda despejava sobre a de Queluz os seus tiros
certeiros... Um leiteiro que enfiava transido de medo para o portal de
uma casa rica  abordado por um popular armado que o intima a vender-lhe
uma poro de leite. O aspecto do revolucionario  de metter pavor: na
face ennegrecida lampeja uma deciso inquebrantavel; n'uma das mos
agita uma pistola de grandes dimenses. O leiteiro estaca a tremer,
disposto j a abandonar toda a mercadoria, comtanto que lhe poupem a
vida. O revolucionario manda encher uma medida de lata, mas, quando se
dispe a beber por ella o liquido que o ha de reconfortar, o leiteiro
observa-lhe que a policia no consente tal coisa, que isso ... contra a
postura.

--A policia... Mas onde est ella? replica o revolucionario n'uma
gargalhada escarninha.

E d'um trago sorve o liquido. O outro, morto por se safar, assim que lhe
restituem a medida de lata, prepara-se para uma correria desenfreada. 
de agradecer ao Deus creador o libertar-se do transe afflictivo apenas
com o dispendio d'uns decilitros de leite... Mas o revolucionario no o
consente. E, empunhando de novo a pistola com gesto ameaador, obriga-o
a acceitar em pagamento umas moedas de cobre. Comprehende-se: esse homem
no fazia a Revoluo para perpetuar os crimes da monarchia.


Quantos dos servidores do antigo regimen no procederam de modo diverso?
Quantos no beberam o leite, no o pagaram e at metteram na cadeia os
respectivos vendedores s pelo facto de lhes exigirem o pagamento?
Quantos?...


FIM




Indice


_DO TEXTO_

Falando aos leitores

    CAPITULO I--Da perspicacia dos espies ao servio do antigo regimen

    CAPITULO II--Um accidente de trabalho e uma evaso romanesca

    CAPITULO III--Os republicanos e os dissidentes organisam o 28 de
    Janeiro

    CAPITULO IV--A policia descobre um dos fios do complot

    CAPITULO V--Marca-se a revolta para as 4 da tarde do dia 28

    CAPITULO VI--A ratoeira do elevador da Bibliotheca insuccesso do
    complot

    CAPITULO VII--O regicidio?--Quem disparou primeiro: Buia ou Costa?

    CAPITULO VIII--Os regicidas calcularam que a Revoluo rebentaria
    imediatamente ao seu acto

    CAPITULO IX--As iniciaes na carbonaria augmentam consideravelmente

    CAPITULO X--Os estudantes militares offerecem o seu concurso 
    Revoluo

    CAPITULO XI--Os dynamitistas preparam a artilharia civil

    CAPITULO XII--As bombas de Joo Borges eram pagas pela Joven
    Portugal

    CAPITULO XIII--O comit executivo de Lisboa procede a um inquerito

    CAPITULO XIV--Nas barbas da policia realisam-se diversas revistas
    revolucionarias

    CAPITULO XV--Fixa-se a data do movimento e approva-se o plano
    definitivo

    CAPITULO XVI--No momento culminante, o desanimo invade os
    organisadores da revolta

    CAPITULO XVII--Uma parte das foras revolucionarias installa-se na
    Rotunda

    CAPITULO XVIII--Os sargentos de artilharia 1 resolvem continuar a
    lucta

    CAPITULO XIX--O desespero de Candido dos Reis condul-o ao suicidio

    CAPITULO XX--O rei Manuel abandona o palacio das Necessidades

    CAPITULO XXI--A artilharia revolucionaria repelle o ataque das
    baterias de Queluz

    CAPITULO XXII--Os ministros dispersam-se e buscam abrigo em diversas
    casas

    CAPITULO XXIII--Proclama-se a Republica no edificio da Camara
    Municipal


_DAS GRAVURAS_

    D. Carlos I

    Joo Franco

    Attentado de 1 de Fevereiro--Assassinato do Rei D. Carlos e Principe
    D. Luiz Filipe

    Alfredo Costa

    D. Manuel II

    Teixeira de Sousa

    Anselmo Braamcamp Freire--Presidente da Camara Municipal Republicana
    de Lisboa antes da Proclamao da Republica

    Misso do Directrio no estrangeiro

    Luz d'Almeida--Chefe da Carbonaria

    O Directorio da Revoluo

    Innocencio Camacho--Membro substituto do Directorio, em
    effectividade

    Jos Barbosa--Membro substituto do Directorio em effectividade

    A barricada na Rotunda

    Jos Nunes--Auctor de diversas bombas explosivas

    Dr. Miguel Bombarda--Vice-almirante Candido dos Reis

    Dr. Malva do Valle--Membro substituto do Directorio em effectividade

    As foras revolucionarias na Rotunda

    Machado Santos

    O acampamento na Rotunda

    Ladislau Parreira

    A Bandeira da Revoluo

    Bombardeamento do Pao das Necessidades (Janela do quarto do rei)

    Jos Carlos da Maia

    Embarque da familia real na Ericeira

    Joo Chagas

    Moyss, o tambor dos Revolucionarios

    Brito Camacho

    Proclamao da Republica e do governo provisorio na Camara

    Municipal de Lisboa em 5 d'Outubro de 1910

    Joo de Menezes

    Governo Provisorio da Republica Portugueza

    General Antonio do Carvalhal--Comandante da 1. Diviso Militar

    Proclamao da Republica Portugueza pelas camaras constituintes

    Candieiro furado pelas balas na Avenida da Liberdade

    A Bandeira Nacional

    Manuel de Arriaga--Antigo deputado republicano e 1. presidente
    eleito da Republica Portugueza

    Paiva Couceiro

    Busto official da Republica Portugueza




BIBLIOTHECA HISTORICA

Volumes de cerca de 200 paginas, ilustrados com primorosas gravuras no
texto e de pagina, impressos com tipo novo, bem legivel, em optimo
papel, ao preo de *200 ris* por cada volume brochado e *300 ris* por
cada volume luxuosamente encadernado em percalina

VOLUMES PUBLICADOS

      I, II--*Historia da Revoluo Franceza* por _F. Mignet_ 2 vols.
      III--*A Revoluo Portugueza - O 31 de Janeiro* por _J. d'Abreu_.
      IV--*A Revoluo Portugueza - O 5 de Outubro* por _J. d'Abreu_.
      V--*A Revoluo Hespanhola* por _Victor Ribeiro_.

NO PRLO

      VI--*A Revoluo Nihilista na Russia* por _Stepniak_.


BIBLIOTHECA DA INFANCIA
COLECO ILUSTRADA DE LEITURAS EDUCATIVAS
SOB A DIRECO LITERARIA DE
VICTOR RIBEIRO
Da Academia das Sciencias

VOLUMES PUBLICADOS

      I--*Narrativas e Lendas da Historia Patria* (A Conquista do Reino).
      II--_A Daudet_--*A Creana Abandonada*.
      III--*Narrativas e Lendas da Historia Patria* (O Condestavel).
      IV--*A Vida dos Animaes* (No Paiz do Leo).
      V--*Narrativas e Lendas da Historia Patria* (D. Joo I, o rei
      eleito do povo).
      VI--_Victor Hugo_--*O Bom Bispo*.
      VII--*Narrativas e Lendas da Historia Patria* (Os filhos de D.
      Joo I).
      VIII--*A Vida dos Animaes* (Os ces).
      IX--*Narrativas e Lendas da Historia Patria* (O Infante D. Henrique).
      X--*A Terra Portugueza* (Portugal Pitoresco).

NO PRLO

      XI--*Narrativas e Lendas da Historia Patria* (A vontade do Povo na
      Historia Portugueza).

Cada Volume em 8., ilustrado com esplendidas gravuras nitidamente
impresso em magnifico papel, expressamente fabricado para esta
publicao, forma um elegantissimo livro de cerca de 200 paginas.

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(Lisboa 1910), by Jorge de Abreu

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Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
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Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
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809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

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increasing the number of public domain and licensed works that can be
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status with the IRS.

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